terça-feira, 8 de maio de 2012

SAPATO 42 PARA PÉ 37

Percival Puggina
Gosto de analogias. E foi essa que me ocorreu quando li, em ZH, que       sobram vagas para cotistas na UFRGS. Pode? No Brasil pode. Calça e sai       andando.

                  Aliás, com as tais de cotas, criou-se uma inadequação nas duas       pontas do fio em que se enreda e desequilibra a sociedade brasileira. Quem       assistisse às sessões nas quais o STF se manifestou pela       constitucionalidade das cotas no vestibular da UnB poderia imaginar que a       Lei Áurea, decorridos 124 anos, ganhava um upgrade decisivo e definitivo. Era       como se a desigualdade social causada pelos séculos de escravidão       estivesse sendo resolvida por dez homens e uma sentença. Não, não estou       exagerando. Quem exagerou na retórica e na cena foram os ministros. Com a       adoção de cotas, reiteradamente proclamada como transitória para não ser       inconstitucional (palavras dos próprios, seguindo o relator), servia-se,       enfim, "justice sociale à la       suprême" no cardápio da universidade brasileira. Tudo provisório       porque, graças a essa breve degustação, o Brasil logo apresentaria ao       mundo uma fisionomia mais simétrica. Não fosse provisório, seria       inconstitucional, claro... Retórica de fancaria, enganosa, mas ao gosto da       tese e da turma.

                  É bom que saibamos: hoje, constitucional é o que a maioria do STF       tem por justo. Ou por necessário. Ou por conveniente. Ou por       correspondente ao clamor das ruas. Ou por imperioso ensinar às ruas. A       escolha de qualquer desses critérios depende do caso e da opção de cada       ministro. Basta, depois, para explicar o inexplicável, pinçar os dóceis       princípios constitucionais e manipulá-los como massinha de moldar. Não       subestimem a situação aplicando-lhe certas ideias que andam por aí a       respeito de insegurança jurídica. A coisa é bem mais grave. Querem uma       evidência? Os canais de tevê das duas casas do Congresso perdem audiência.       É no canal do STF que acontece a real action, onde estão as novas       celebridades, e onde as grandes questões se decidem. Que parlamento, que       nada! E não esqueçam: o sistema de indicação dos ministros do Supremo foi       concebido quando a reeleição presidencial era vedada. Em tese, a cada       quatro anos mudariam os critérios de escolha. Hoje, oito dos onze membros       da corte foram recrutados pela corrente política que encilhou o poder há       mais de uma década.

                   Por outro lado,       enquanto sobra sapato na ponta da universidade, a ponta do ensino       fundamental anda de pé no chão. Para cada beneficiário de cotas raciais em       atos de formatura do Ensino Superior, centenas de crianças com produção de       melanina semelhante à do formando estão recebendo uma educação inicial de       péssima qualidade. É equivocado afirmar que se cristalizam assim as       injustiças sociais. Assim elas se reproduzem! Multiplicam-se, celeremente,       na falta de planejamento familiar e numa realidade socioeducacional que só       é vista de julho a setembro, em ano de eleição.

                  O STF deu mais uma prova de que a justiça discrimina. Se duvidar,       pergunte às ruas. No subsolo do Brasil, nas senzalas do século 21, quem       não faz discriminações, raciais ou sociais, leitor, é a injustiça. Ali,       brancos, pretos e pardos são irmãos na miséria. Porque ocupam a franja do       tecido social, dispõem do mesmo ensino público de péssima qualidade,       abandonado pelo caminho por milhões de crianças, analfabetas funcionais,       que ficam sem o molde da chave que abriria a porta dos salários dignos e       dos méritos acadêmicos. Não fosse bastante, ainda serviram como cobaias       para experiências pedagógicas tão fajutas e ruinosas quanto ideológicas e       renitentes.

Zero       Hora,       06/05/2012

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