quarta-feira, 16 de maio de 2012

Mentalidade atrasada (bolsa família)

Dom Aldo Pagotto
Cresce o setor têxtil no Ceará contribuindo substancialmente para a economia do Estado e para o desenvolvimento da população. A indústria têxtil gera inclusão social pela qualificação profissional de costureiras, aportando divisas para o Estado. A demanda por mão-de-obra especializada na indústria têxtil levou o Sinditextil a oferecer um curso de especialização para 500 mulheres que recebem Bolsa Família. A celebração de convênios de natureza profissional respeitou certas atribuições: caberia ao Governo garantir recursos; ao Senai a formação profissional das costureiras, com um curso de 120 horas/aula; ao Sinditêxtil o compromisso de cadastrar as mulheres formadas às inúmeras indústrias do setor, gerando emprego às costureiras. O curso foi concluído. Os cadastros das costureiras formadas foram enviados para as empresas, prontas para efetivar as contratações.

O número de contratações foi zero. As costureiras incluídas na Bolsa Família negaram-se a trabalhar com carteira assinada. Na cabeça das 500 costureiras profissionalizadas prevaleceu a ideia de que o “benefício” da Bolsa Família não deve ser perdido, a menos que elas recebessem por fora, na base da informalidade, portanto, da ilegalidade em relação às empresas. Estas se obrigaram a respeitar as leis trabalhistas, negando-se a adotar um expediente escuso. Nenhuma costureira foi contratada. De quem é a culpa ou a responsabilidade? O fato revela uma mentalidade atrasada, atrelada à dependência e ausência de iniciativa. Luiz Gonzaga dizia que “esmola a um homem sadio vicia o cidadão ou o mata de vergonha”.

“Dar pão e circo” é velho jargão utilizado por políticos para alienar o povo, de barriga cheia e de mente vazia. No relato da multiplicação dos pães consta que Jesus passou um carão no povo de barriga cheia que correu atrás dele para fazê-lo “rei”. Nada de bom cai na mão da gente se não for garimpado com amor e sacrifício. Sem trabalho o pão não vem para casa. Pai que não ensina filho a trabalhar deforma-o, cria um vadio, dependente, inseguro, ou um marginal. No Brasil cresce a demanda de mão-de-obra qualificada, entanto, insuficiente para atender às dimensões básicas da sociedade. Estão aí as áreas da construção civil, da agricultura familiar, do agronegócio. Há espaço para todos, desde as profissões tradicionais às que requerem aprimoramento científico e tecnológico.

Os brasileiros dormiram em berço esplêndido. Atrasou-se por 4 décadas, em relação aos países que, com a visão de futuro, priorizaram a formação dos seus filhos e neles investiram os recursos do erário. A educação para o trabalho é valor prioritário para um povo. Não se promove o pobre, não se supera a pobreza, a miséria e a fome combatendo os que produzem riquezas com honestidade, com o suor do próprio rosto. Ante o nosso atraso não temos outro caminho a seguir senão alavancando recursos para viabilizar políticas de desenvolvimento. Nossa reconciliação assemelha-se à fábula da cigarra e da formiga. Precisamos aprender a trabalhar, pois “forró e cachaça” já temos demais!

Dom Aldo Pagotto, sss
Arcebispo Metropolitano da Paraíba
Artigo de Dom Aldo para o Correio da Paraíba (22/04/2012)
Fonte: Arquidiocese da Paraíba

Um comentário:

Cândida Gomes disse...

Que fantástico texto acabei de ler! Obrigada Dom Aldo por suas sábias palavras. Sou uma cearense a viver em Portugal a 6 anos onde muito feliz, graças a Deus, estou constituindo minha família ao lado do meu marido Português. Grávida do nosso 3º filho, não conseguindo dormir com os desconfortos do final da gestação, sentei-me diante do computador tomando um chá morno para me ajudar a relaxar deparei-me com esse texto que fala da realidade nua e crua de um povo e de uma elite política que se mantém no poder político brasileiro a custa de políticas populistas e alienantes.
É um texto digno de ser partilhado apesar de que infelizmente as mentes preguiçosas de muitos dos nossos jovens e de outros menos jovens que desistem de ler antes mesmo de iniciar a leitura.
O autor do texto, é muito feliz quando utiliza uma frase de Luiz Gonzaga, em relação a esmola, vício e vergonha. De fato o governo brasileiro a muito vem dando esmola a seu povo em vez de promover o trabalho digno algo muito mais dignificante para qualquer cidadão do que receber migalhas.
De fato, a era alienante do "pão e circo" não acabou e há mesmo muita gente "cega" por causa de tais políticas.
A expressão “forró e cachaça” já temos demais!está muito bem aplicada, é a primeira vez de que a vejo e ela me faz lembrar de tantos jovens perambulando pelas ruas, discotecas etc., com o copo cheio e a cabeça vazia, numa delinquência cognitiva de fazer medo.
Aos que fazem este site, os meu parabéns, pois está muito bem conseguido, com ótimos textos.