quarta-feira, 9 de maio de 2012

FAMÍLIA – IGREJA

Dom Fernando Rifan
Em minha pequena intervenção no Simpósio da 4ª Peregrinação das Famílias, fiz alusão ao que disse o Papa João Paulo II, chamando a família de “Igreja doméstica” (Familiaris consortio, 21, Lumen gentium, 11, CIC 1666) e “Santuário da vida” (Carta às Famílias, 11).

Igreja e santuário são lugares sagrados, como deve ser a família. De fato, é ali que nasce a vida, dom do Criador à criatura. É na família, de modo especialíssimo e único, que Deus continua a obra da sua criação, infundindo a alma na matéria fornecida pelos pais, formando assim um novo ser humano, que concretiza o amor dos esposos cristãos.

O lar cristão é o lugar onde os filhos recebem o primeiro anúncio da Fé. Nesta “Igreja doméstica”, comunidade de graça e oração, escola de virtudes humanas e de caridade cristã, aprendem-se as primeiras orações, o bom comportamento, isto é, os limites que devemos respeitar, o correto uso da liberdade, o respeito, a boa educação, a fraternidade e o amor.

Mas isso não significa que na família não haja problemas ou dificuldades. A Sagrada Família, modelo de todas, onde o Pai quis que seu Filho nascesse e crescesse, passou por grandes dificuldades, como no nascimento pobre de Jesus em Belém, na fuga para o Egito perseguido por Herodes e na simplicidade do trabalho em Nazaré. Mas nem por isso deixou de ser a família mais feliz do mundo. Também não quer dizer que na família não haja até pessoas ruins. Na ascendência de Jesus, entre seus ancestrais, portanto na sua família, havia pessoas não muito recomendáveis, que Deus quis que fossem nomeadas na sua genealogia.

Mas, se a família é como uma Igreja, a Igreja é também uma família. São Paulo nos chama de membros da família de Deus, “domestici Dei”, edificados sobre o alicerce dos Apóstolos (cf. Ef 2, 19-20). É na Igreja que “nascemos de novo” pelo Batismo. Nesta família fomos recebidos, nela estamos alegres e felizes, por saber que estamos na casa de Deus.

Como toda família, a Igreja, divino-humana, tem também seus problemas, devidos à sua parte humana. Jesus disse que o “Reino de Deus” aqui na terra, a Igreja, é semelhante a uma rede, com peixes bons e maus, a um campo com trigo e joio. A depuração será só no fim do mundo. Quem quiser uma Igreja só de santos deve esperar o fim do mundo ou ir para o céu.

Essa noção de família é muito importante na eclesiologia. A Igreja é algo objetivo, fundada por Nosso Senhor sobre os Bispos, segundo a sucessão apostólica. A Igreja não é um grupo de amigos. “Na Igreja, eu não procuro meus amigos, eu encontro meus irmãos e minhas irmãs; e os irmãos e as irmãs não se procuram, se encontram. Esta situação de não arbitrariedade da Igreja na qual eu me encontro, que não é uma igreja da minha escolha, mas a Igreja que se me apresenta, é um princípio muito importante. Isto não é minha escolha, como se eu fosse com tal grupo de amigos ou com outro; eu estou na Igreja comum, com os pobres, com os ricos, com as pessoas simpáticas e não simpáticas, com os intelectuais e os analfabetos; eu estou na Igreja que me precede” (Ratzinger, Autour de la Question Liturgique, Fontgombault, 24/7/2001).


Dom Fernando Arêas Rifan
Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney

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