quarta-feira, 16 de maio de 2012

A análise de conjuntura eclesial de frei Luiz Carlos Susin, OFMCap

Edson Luiz Sampel
             Frei Luiz Carlos Susin, OFMCap, elaborou uma análise de conjuntura eclesial para a CNBB. O texto do frade capuchinho chegou às minhas mãos no dia 11/5/2012, pela Internet. Gostaria de externar minhas ideias a propósito da aludida análise.

            A reflexão de frei Susin, OFMCap, contém decerto vários pontos positivos e assaz lúcidos. No entanto, em minha opinião, a análise de conjuntura em apreço traz outrossim seriíssimas distorções, as quais desejo examinar neste artigo. Adotando o mesmo método do capuchinho, não demonstrarei a fundamentação doutrinal ou escriturística das minhas asserções, porquanto, no meu caso, procuro estribar-me no magistério eclesiástico e cuido seja despiciendo ensinar o padre-nosso ao vigário, como se diz no calão popular.

            Declinarei o que entendo problemático na mencionada análise de conjuntura, a partir de transcrições de excertos, seguidas de um breve comentário.

Pontos negativos da análise de frei Susin, OFMCap

1) “Mas afirmar que só a Igreja tem poder de interpretar corretamente a Palavra não tem plausibilidade em nosso mundo rico de hermenêutica.”


Comentário. Sim, nosso mundo é realmente rico de hermenêutica, entretanto, nem todas são hermenêuticas saudáveis. Basta que prestemos atenção à “hermenêutica” de certas seitas, como as dirigidas pelo “apóstolo” Valdomiro Santiago e pelo “bispo” Edir Macedo. Tantas seitas quantas “hermenêuticas”, desde a reforma protestante! Contudo, se nos restringirmos ao próprio grêmio da Igreja católica, deparar-se-nos-ão hermenêuticas dúbias e outrossim deletérias, como a que suscitou a intervenção da CNBB (Doc. 54) a propósito de algumas teses perfilhadas e praticadas pela Renovação Carismática Católica (RCC). Recentemente, a obra do pe. Queiruga foi objeto de uma notificação da Congregação para a Doutrina da Fé. Por quê? Porque a hermenêutica desse teólogo não foi considerada tão boa assim. Em suma, há hermenêutica e hermenêutica. No caso da Igreja católica, fundada por Jesus, a última palavra sobre a interpretação autêntica é do magistério. Trata-se de uma prática bimilenar que, malgrado a reforma, não teve, até hoje, solução de continuidade. Outro problema levantado pelo excerto acima diz respeito ao termo “Palavra”. Ora, ao lume da doutrina católica, “Palavra” não é só a bíblia. Neste diapasão, a sã exegese tem por alvo tanto a sagrada tradição quanto a sagrada escritura.

2) “Formação bíblica para os católicos é uma prioridade, uma urgência, uma esperança essencial.”


Comentário. A Igreja católica é pré-bíblica. Será que os primeiros cristãos, tão próximos do Senhor, dos apóstolos e de seus sucessores imediatos sentiam essa prioridade, essa urgência e “esperança essencial”? A única “esperança essencial” é a virtude teologal da esperança! É óbvio ululante que a assim chamada “formação bíblica” é deveras importante, todavia, mais relevante ainda para o mundo atual é uma formação doutrinal completa e a conscientização dos leigos (99% dos fiéis) de que devem animar e aperfeiçoar a ordem temporal com o espírito do evangelho (cânon 225, § 2.º), conforme a ensinança clarividente do Concílio Vaticano II.

3) “Ao lado do colegiado episcopal multiplicaram-se as instâncias colegiadas na área diocesana, presbiteral, paroquial, com a participação dos leigos.” (negritos do frade)


Comentário. Esta é uma visão harto conservadora, para não dizer retrógrada. O Concílio emancipou o leigo. Explicitou o verdadeiro papel apostólico do laicato: a transformação do mundo a partir do evangelho. Sem embargo, a análise de conjuntura ora comentada em nenhum momento propugna pela liberdade e libertação do leigo, mas parece quer vê-lo clericalizado nas estruturas de poder hierárquico.

4) “Mais democracia ou participação na Igreja? Escuta-se (sic) com frequência discussões em torno do exercício de democracia na Igreja.” (negritos do frade)


Comentário. Em grande parte dos Estados modernos, o poder emana do povo. Aliás, a Igreja católica, por intermédio da sua doutrina social, é a entidade societária que mais enaltece o regime democrático. Nada obstante, o poder na Igreja emana de Deus. Outra coisa: o poder na Igreja é serviço.  Se se trata de uma democracia conforme a que dom Paulo Evaristo implantava na Arquidiocese de São Paulo, com a oitiva do povo de Deus relativamente às prioridades pastorais (saúde, moradia, trabalho), então, é mister recrudescer e incentivar essa forma democrática de pastorear os fiéis.

5) “Ainda que se advoguem razões de revelação e de direito divino para agir de modo diferente, o poder e a autoridade arriscam ficar sem plausibilidade e sem eficácia quando utiliza (sic) o mecanismo ‘exteriorista’ de tipo ‘manda quem tem o poder e obedece quem tem o dever.’” (negritos do frade)


Comentário. Advogar uma tese é defender uma opinião entre tantas. No caso do direito divino positivo, espera-se a atitude obsequiosa com fé católica, porquanto, muita vez, estamos diante de dogmas. Se compulsarmos o código canônico com olhos de ver, certamente notaremos que se trata de uma lei libertadora, um facilitador da caminhada do povo de Deus, como soia dizer um antigo professor. As instâncias de poder constituem-se, na verdade, em operacionalização do serviço e da graça sacramental, da qual a Igreja católica é fiel depositária.

6) “(...) oportunidade [para os leigos] de participação nas instâncias de governo da Igreja”.


Comentário. A análise de conjuntura de novo faz eco a ramerrão tão desgastado e panfletário: “participação nas instâncias de governo da Igreja”. Olvida-se o modo como o Concílio Vaticano II compreende a atuação laical. Quando o leigo assume seu batismo em meio às atividades seculares, não o faz isoladamente, mas na condição de membro da Igreja. De acordo com a estrutura que Jesus dotou a Igreja católica, quando fundou-a há dois mil anos, o poder de regime ou de jurisdição está destinado a varões, membros do clero. Este poder, no entanto, é, como escrevi acima, um autêntico serviço ao povo da nova aliança.

Edson Luiz Sampel
Doutor em Direito Canônico 
pela Pontifícia Universidade Lateranense, do Vaticano

Um comentário:

Toninhofilosofo disse...

A Igreja é pré-bíblica? Leia a Dei Verbum!!!