segunda-feira, 23 de abril de 2012

Eugenia, um passado tão presente

 Por Breno Rosostolato* 
Quando Charles Darwin versou sobre a seleção natural e difundiu a ideia de que a sobrevivência dos organismos dependia de sua adaptação no ambiente, importantes pensadores inclinaram-se sobre esse conceito e destilaram novas teorias. A luta pela sobrevivência deflagrou uma nova ideologia para melhorar a raça humana por meio da ciência.
Francis J. Galton é o nome associado ao surgimento da genética e da eugenia, que significa “bem nascer” ou “o estudo dos fatores socialmente controláveis que podem elevar ou rebaixar as qualidades raciais das gerações futuras, tanto física quanto mentalmente.” Por meio de casamentos e uniões seletivas, Galton acreditava que poderia modificar a natureza das pessoas, separando aqueles que supostamente eram “perfeitos” e preservando assim a qualidade das futuras gerações.
A degeneração biológica passou a ser uma preocupação e a proibição de uniões indesejáveis era algo bastante coercivo. Propostas políticas de "higiene ou profilaxia social" passaram a surgir em vários países, dentre eles o Brasil. Em 1923, foi fundada a Liga Brasileira de Higiene Mental, pelo psiquiatra Gustavo Riedel, e ganhou sustentação nos pressupostos eugenistas, atingindo, posteriormente, o campo social. A eugenia era vista por Riedel como o “paraíso terrestre”, reafirmando os pressupostos de Renato Kehl, o mentor da eugenia no Brasil.
O aspecto cultural e social da eugenia é o que chama a atenção. Seja no Brasil, nos Estados Unidos ou na Alemanha, as explicações para as crises econômicas e políticas isentavam as elites e imputavam toda a responsabilidade ao povo. Ou seja, os problemas de uma sociedade estavam localizados em sua constituição étnica e na presença de “raças inferiores”.
Na Alemanha, a Lei de Nuremberg, alicerçada nos pressupostos eugênicos, proibia o casamento e o  contato sexual de alemães com judeus, o casamento de pessoas com transtornos mentais, doenças contagiosas ou hereditárias. Propunha-se a esterilização de pessoas com problemas hereditários e que poderiam comprometer a saúde da raça ariana. Associe-se a isso toda a perversidade e crueldade de uma  mentalidade doentia de um ditador como Hitler. O documentário “Homo Sapiens – 1900”, do diretor sueco Peter Cohen, aborda de maneira enfática as práticas eugênicas durante o holocausto. Um verdadeiro genocídio cruel e injustificável.
Esta concepção de eugenia traduz-se, hoje, no biopoder, difundido por estudiosos e intelectuais, com o propósito de estudar estratégias de intervenção sobre a vida cotidiana. Entretanto, alguns preconceitos revelam-se como absurdos propagados pelo biopoder, pois se atribuem à marginalização de “raças inferiores” os conflitos sociais, a pobreza, o aumento da violência, as drogas e por aí vai. Questões como o racismo e o sexismo são reveladas. O aconselhamento genético, por esse ponto de vista, é um espaço de poder e controle, ancorado nas concepções dessa nova genética, determinando a subjetividade das pessoas, pois não temos identidade, mas bio-identidades.
A mulher é vigiada não apenas para ter um feto saudável, com saúde perfeita, como o seu corpo sofre muito mais intervenções médicas, comparado ao do homem. A identidade da mulher é influenciada por essas exigências, porque cabe a elas, e na maioria dos casos, o homem permanece numa posição despreocupada, os cuidados e precauções em gerar indivíduos saudáveis. Já ouvimos falar de controle populacional e de natalidade, fertilização in vitro, diagnóstico pré-natal e pré-implantação, aborto terapêutico e clonagem reprodutiva.
Métodos científicos estão a serviço da saúde e da sociedade e possuem como alicerces ideológicos um controle adequado e seguro de doenças, a ponto de antever o surgimento de deficiências ou patologias congênitas, do crescimento descontrolado da população e por último, o mapeamento do DNA. A genética é a área que se utiliza destes estudos científicos e difunde conceitos, ponderações e determina os aspectos adequados para a existência humana. São métodos eugênicos que estão por trás desses propósitos de antever eventuais problemas.
Vivemos um momento social em que essas seleções naturais são praticadas, pois o reducionismo genético é o que está em pauta nessa crítica, partindo da visão organicista e se deslocando para o âmbito social. O que é normal e patológico? E os posicionamentos frente aos “anormais”? O que é aceitável, normal?
Lógico que são incontestáveis os benefícios do avanço dos estudos genéticos existentes, antecipando eventuais agravantes no feto e durante a gestação da mulher, mas estaria essa nova genética tirando o peso das mulheres de cuidar de seres “anormais”? A questão é que o aborto sendo ilegal, não é dado autonomia à mulher de escolher se quer ou não aquela criança já classificada como sã ou doente. Até que ponto chegaremos a viver como o filme “Gattaca” de 1997, em que os embriões serão construídos em laboratórios para não apresentarem problemas ou defeitos hereditários? E a pergunta que não quer calar, neste mundo não há lugar para quem não é “perfeito”?
*Breno Rosostolato é professor de Psicologia da FASM (Faculdade Santa Marcelina).
Fonte: Jornal do Brasil

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