quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Cirurgia em fetos dá esperança a gestações de risco

Lucia terá uma história para contar. O bebê, que tem dois meses, está bem de saúde e se recupera bem, depois de uma operação em junho, quando ainda era um feto de 21 semanas, no ventre de sua mãe. O feto corria risco de vida e, na melhor hipótese, teria de passar por amputação da perna esquerda à altura do tornozelo. Médicos do hospital Vall d'Hebron, de Barcelona, intervieram e o caso abre novas perspectivas de cirurgia fetal que podem vir a beneficiar novos bebês. A família de Lucia, que vive em Vallès Oriental, chegou ao hospital público quando o feto estava na 20ª semana de gestação, depois que uma ultrassonografia demonstrou um pé deformado. Exames mais detalhados revelaram que uma faixa amniótica (um apêndice fibroso que se havia desprendido das membranas que rodeiam o feto, no útero) estava embaraçando o cordão umbilical e a perna do feto, causando compressão. A anomalia provavelmente viria a resultar em rompimento do cordão - e morte do feto -, e era certo que, em duas semanas mais, o pé teria terminado amputado, pois a faixa amniótica impedia a circulação de sangue naquela extremidade do corpo, explicaram José Luis Peiró e Elena Carreras, chefes de cirurgia neonatal e de cirurgia fetal do hospital, respectivamente.

A equipe de medicina fetal do Vall d'Hebron - composta por diferentes especialistas - recorreu a uma cirurgia fetal fetoscópica. Trata-se de uma intervenção minimamente invasiva, já que o feto é operado por meio de uma agulha comprida com 3 mm de diâmetro - com a qual se realiza uma punção no ventre da mãe e se atravessa a parede do útero. Em seu interior oco, a agulha está equipada de cabos finíssimos. O primeiro termina em uma microcâmera, e o segundo é feito de uma fibra emissora de laser. A câmera permite que os cirurgiões vejam onde estão atuando (o movimento também é controlado por ultrassonografia), e o laser permitiu aos médicos queimar e cortar a faixa amniótica. Com isso, liberaram a obstrução que vinha comprimindo a perna e o cordão umbilical do bebê. A operação durou apenas 55 minutos.

Lucia nasceu com 28 semanas - em cirurgias fetais endoscópicas, existe um risco de 15% de que surja um desprendimento de membranas e parto prematura -, mas estava bem. Depois do parto, sua perna foi operada de novo, para reparar os tecidos que haviam sofrido compressão. A perna e pé do bebê praticamente recuperaram sua forma e capacidade (ela será capaz de andar e correr), e sofrerá apenas algumas seqüelas (talvez falta de sensibilidade em certas áreas), afirmou Márius Aguirre, especialista em ortopedia pediátrica.

Em casos parecidos, os bebês costumam sofrer amputação de extremidades depois do nascimento, caso não operados. O hospital tem dois ou três casos como esse a cada ano. A probabilidade de problemas com a faixa amniótica é de um a cada 30 mil gestações.

A cirurgia de Lucia foi a primeira operação fetoscópica intrauterina na qual médicos eliminaram uma faixa amniótica que comprimia o cordão umbilical, no mundo, e a quarta do mundo e primeira na Europa em que essa técnica foi usada para eliminar uma faixa que comprimia uma extremidade. O Vall d¿Hebron é o primeiro hospital da Espanha a realizar esse tipo de cirurgia, desde de 2001. Ainda que seja o primeiro caso de operação em faixas amnióticas, a instituição já realizou 250 cirurgias para corrigir outras anomalias, como transfusões entre fetos gêmeos ou obstruções de traquéia. "As anomalias pré-natais vêm sendo detectadas com freqüência cada vez maior, e a possibilidade de corrigi-las aumenta", afirmou Peiró.

18 de outubro de 2007 • 10h24 • atualizado às 10h24
Tradução: Paulo Migliacci ME - Notícias Terra

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