sábado, 24 de dezembro de 2011

Natal: Jesus chegou para salvar a humanidade!

Caríssimos irmãos, irmãs, diocesanos e internautas, 


O Natal de Jesus é tempo de alegria, reflexão e agradecimento. Jesus Cristo, 100% Deus,  foi enviado pelo Pai ao nosso meio, para encarnar 100% homem e passar por toda a experiência humana, desde a gestação.  


O anjo Gabriel foi enviado a uma jovem, chamada Maria, da cidade de Nazaré, para dar-lhe uma boa nova. Ela seria a mãe do filho de Deus. 


No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré. Foi a uma virgem, prometida em casamento a um homem chamado José, que era descendente de Davi. E o nome da virgem era Maria. O anjo engtrou onde lea estava, e disse: "Alegre-se, cheia de graça! O senhor está com você! (Lucas 1, 26-28).


Logo após o anúncio, Maria foi à casa de Isabel, sua prima, que também estava grávida de um menino, que seria chamado João, filho de Zacarias.  Ao chegar, Isabel percebeu que havia algo especial em Maria. Era a presença de Jesus em seu ventre. 

Naqueles dias,   Maria partiu   para a região montanhosa, dirigindo-se apressadamente a uma cidade de  Judá.  Entrou na casa  de  Zacarias e saudou Isabel.  Quando  Isabel   ouviu  a saudação de Maria,  a criança (no ventre de Isabel) se agitou  no seu  ventre e  Isabel ficou repleta  do   Espírito Santo.  Com  um grande  grito exclamou: "Bendita és   tu entre as mulheres e bendito é  o  fruto do  teu  ventre!  Como posso merecer que a  mãe do meu Senhor venha me visitar?  Logo que a sua saudação chegou aos meus ouvidos,  a criança saltou de alegria  no meu ventre. Bem-aventurada aquela que acreditou, porque vai acontecer o que 
o Senhor lhe prometeu." 
( Lucas 1, 39 - 45)


Jesus Cristo foi gestado como todas as crianças e permaneceu no ventre de Maria até o dia de seu nascimento. Ele marcou sua presença desde quando estava no ventre de Maria, conforme o relato da visita a Isabel. Com a chegada de Jesus, no ventre de Maria,   o menino  (João Batista) que estava no ventre de Isabel estremeceu e ela ficou repleta do Espírito Santo. Ainda quando estava no ventre de Maria, Jesus já era sinal de vida por onde sua mãe passava:

Então Maria Disse: "Minha alma proclama a grandeza do Senhor, meu espírito se alegra em Deus, meu salvador, porque olhou para a humilhação de sua serva. 
 Doravante todas as gerações me felicitarão, porque o Todo-Poderoso realizou grandes obras em meu favor: seu nome é santo e sua misericórdia chega aos que o temem, de geração em geração. Ele realiza proezas com seu braço: dispersa os soberbos de coração, derruba do trono os poderosos e eleva os humildes; aos famintos enche de bens, e despede os ricos de mãos vazias. 
Socorre Israel, seu servo, lembrando-se de sua misericórdia- conforme prometera aos nossos pais - em favor de Abraão e de sua descendência, para sempre.
( Lucas 1, 46-55).

A vinda de Jesus transformou a vida de todas as pessoas. Os três Reis Magos deixaram seus palácios e foram descobrir onde se encontrava o menino. Ao encontrá-lo, encheram-se de alegria e lhe ofereceram presentes: ouro, incenso e mirra.

Jesus encontrou muita gente que era deixada de lado pelas pessoas da cidade por terem algum tipo de doença. É o caso do cego que gritava para que Jesus o curasse (Lucas 18, 35-43). Ele não só cura, mas perdoa e ajuda as pessoas a perdoar, como no caso de Zaqueu (Lucas 19, 1-10). 
Ele veio para os que sofrem, os abandonados, os esquecidos e para todos os que Nele acreditam. Jesus Cristo trouxe a valorização da vida humana, o perdão dos pecados e a vida eterna.


Perdoar e pedir perdão quando erramos é um jeito especial de ser como Jesus, de viver semelhantemente a Jesus, para fazer brotar uma vida de alegria e de paz entre as pessoas


Jesus Cristo é o maior acontecimento na história da humanidade. Ele mudou as nossas vidas e continuará mudando a de todos que nEle acreditarem ou a Ele se dedicarem. Jesus Cristo disse: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida." (João 14,1-14).  . 
                                              
"Jesus Cristo é o mesmo,  ontem e hoje, e será sempre o mesmo. Não se deixem levar por nenhum tipo de doutrinas estranhas". (Hebreus 13,8-9)

Os Reis Magos, Gaspar, Melchior e Baltazar levaram presentes para Jesus Cristo. Vem daí a tradição de presentear. No Natal, as pessoas, os amigos,  as famílias trocam presentes, cumprimentos e desejos de boas festas e bom ano novo. 


A família é a primeira Igreja de Jesus Cristo. O Natal é a presença de Jesus Cristo. Que o Natal seja, principalmente, a oportunidade para agradecer ao Pai o envio da Terceira Pessoa da Trindade, o Espírito Santo, para encarnar-se VERDADEIRO HOMEM, assim unindo a nossa humanidade à sua divindade. 


Se estivermos realmente preocupados em estar com Ele, em conviver com o Cristo, em fazer a sua vontade, em viver a sua vida, Ele estará conosco, viverá em nós.  


Desejamos a você, irmão, irmã, diocesano, internauta,  um Santo Natal e um Ano Novo repleto de bênçãos, com Jesus Cristo sempre presente no seu dia-a-dia. 


As minhas bênçãos
Dom Luiz Bergonzini 
Bispo Emérito de Guarulhos

Bento XVI: JMJ pode reanimar a fé

Bento XVI à Cúria Romana: "A Jornada Mundial da Juventude pode reanimar a fé"


Cidade do Vaticano (RV) – O Papa Bento XVI recebeu na manhã desta quinta-feira, na Sala Clementina, os Cardeais e membros da Cúria Romana para as felicitações de Natal.

Fazendo um balanço dos principais eventos que marcaram a vida da Igreja neste ano de 2011, Bento XVI escolheu uma única temática que, segundo ele, expressa o verdadeiro desafio que a Igreja é chamada a enfrentar hoje e também no futuro: a evangelização. Como anunciar hoje o Evangelho? Como pode a fé, enquanto força viva e vital, tornar-se realidade hoje?

Os fiéis, e não só eles, notam que as pessoas que frequentam regularmente a Igreja se tornam sempre mais idosas e o seu número diminui continuamente; há uma estagnação nas vocações ao sacerdócio; crescem o ceticismo e a descrença. Como, então, reverter essa tendência?

Para o Pontífice, o cerne da crise da Igreja na Europa é a crise da fé. Se não encontrarmos uma resposta para esta crise, ou seja, se a fé não ganhar de novo vitalidade, tornando-se uma convicção profunda e uma força real graças ao encontro com Jesus Cristo, permanecerão ineficazes todas as tentativas para reanimá-la.

Neste sentido, afirmou o Papa, o encontro com a jubilosa paixão pela fé na África foi um grande encorajamento. "Lá não se sentia qualquer indício desta lassidão da fé, tão difusa entre nós, não havia nada deste tédio de ser cristão que se constata sempre no meio de nós. Apesar de todos os problemas, de todos os sofrimentos e penas que existem, sem dúvida, precisamente na África, sempre se palpava a alegria de ser cristão, de pertencer à Igreja".

Um remédio contra a lassidão do crer, segundo Bento XVI, foi a experiência da Jornada Mundial da Juventude, em Madri, na Espanha, que ele definiu "magnífica". Um remédio que o Papa dividiu em cinco "doses".

Em primeiro lugar, nesses eventos, há uma nova experiência da catolicidade, da universalidade da Igreja. Falamos línguas diferentes e possuímos costumes de vida diversos e formas culturais diversas; e no entanto nos sentimos imediatamente unidos como uma grande família.

Em segundo lugar, a Jornada favorece um novo modo de ser homem, de ser cristão, através do voluntariado. Cerca de 20 mil jovens fizeram o bem simplesmente porque é bom fazer o bem, é bom servir os outros. "É preciso apenas ousar o salto", afirmou o Papa.

O mesmo comportamento Bento também encontrou na África, por exemplo nas Irmãs de Madre Teresa que se prodigalizam pelas crianças abandonadas, doentes, pobres e atribuladas, sem se importarem consigo mesmas, tornando-se, precisamente assim, interiormente ricas e livres. Este é o comportamento propriamente cristão.

O terceiro elemento que faz parte das Jornadas Mundiais da Juventude é a adoração. Em Cristo ressuscitado, está presente Deus feito homem, que sofreu por nós porque nos ama. "Entramos nesta certeza do amor corpóreo de Deus por nós, e fazemo-lo amando com Ele. Isto é adoração. E só assim posso celebrar convenientemente a Eucaristia e receber devidamente o Corpo do Senhor."

Outro elemento importante das Jornadas Mundiais da Juventude é a presença do sacramento da Penitência. Deste modo, reconhecemos que necessitamos continuamente de perdão e que perdão significa responsabilidade.

Por fim, outra característica das Jornadas é a alegria, que brota da certeza de ser amado por Deus. Só a fé me dá esta certeza: É bom que eu exista; é bom existir como pessoa humana, mesmo em tempos difíceis. A fé nos faz felizes a partir de dentro. "Esta é uma das maravilhosas experiências das Jornadas Mundiais da Juventude."

O Papa então se dirigiu aos seus colaboradores da Cúria: "Queria agradecer do íntimo do coração a todos vocês pelo apoio que prestam para levar adiante a missão que o Senhor nos confiou como testemunhas da sua verdade, e desejo a todos vocês a alegria que Deus nos quis dar na encarnação do seu Filho. Um santo Natal!".
(BF)Fonte: Rádio Vaticano

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

A virgindade de Maria é única e irrepetível


Cidade do Vaticano (RV) - O Papa Bento XVI encontrou-se, no domingo,  com os fiéis e peregrinos presentes na Praça São Pedro para a habitual oração mariana do Angelus. Na alocução que precedeu a oração, numa manhã fria, típica de inverno, o Santo Padre recordou que neste quarto e último domingo do Advento, a liturgia nos apresenta este ano, a narração do anúncio do Anjo a Maria.

Contemplando o estupendo ícone da Santíssima Virgem o Papa se deteve brevemente sobre a importância da virgindade de Maria, do fato que ela concebeu Jesus, permanecendo virgem.

De fato, não só a Virgem Maria concebeu, mas o fez por obra do Espírito Santo, que é o próprio Deus. O ser humano que começa a viver em seu seio – disse o Papa - recebe a carne de Maria, mas sua existência é derivada inteiramente de Deus. É plenamente homem, feito de terra - para usar o símbolo bíblico - mas vem do alto, do Céu.

"O fato que Maria conceba permanecendo virgem, é portanto, essencial para o conhecimento de Jesus e para a nossa fé, porque testemunha que a iniciativa foi de Deus, e sobretudo revela Quem é o concebido. Como diz o Evangelho: Por isso, o Santo que vai nascer de você será chamado Filho de Deus. (Lc 1,35). Neste sentido, a virgindade de Maria e a divindade de Jesus se garantem reciprocamente".
Eis porque é tão importante a única pergunta que Maria, "muito turbada", dirige ao anjo: "Como se fará isto, visto que não conheço homem?" (Lc 1,34).

"Na sua simplicidade, Maria é sábia: Não duvida do poder de Deus, mas quer entender melhor a sua vontade, para conformar-se integralmente a esta vontade. Maria é infinitamente superada pelo mistério, no entanto, ocupa perfeitamente o lugar que, no centro do mesmo, lhe foi designado. Seu coração e sua mente são totalmente humildes, e, precisamente por causa de sua singular humildade, Deus espera o "sim" desta menina para realizar o seu designo. Respeita a sua dignidade e a sua liberdade".

E concluiu o Papa: "Queridos amigos, a virgindade de Maria é única e irrepetível; mas o seu significado espiritual refere-se a cada cristão. Em síntese, está ligado à fé: de fato, quem confia profundamente no amor de Deus, acolhe em si Jesus, a sua vida divina, através da ação do Espírito Santo. É esse o mistério do Natal!"

Símbolos de Natal: Presidente do STJ reclama de notícias falsas


Ministro Ari Pargendler
O presidente do Superior Tribunal de Justiça, ministro Ari Pargendler, mostrou esta semana que a instituição que dirige já não precisa tanto dos veículos comerciais de comunicação. Em vez de procurar a imprensa para protestar contra notícias que considerou inaceitáveis, usou o próprio site do tribunal para isso. Segundo o site Alexa.com, que mede a fatia de cada website na rede mundial de computadores, o STJ está entre os 600 endereços mais frequentados do Brasil e entre os 32 mil mais visitados do planeta.
Ari Pargendler divulgou nota na qual afirma serem falsas as reportagens que dizem que enfeites de Natal e o uso de sandálias tipo gladiador e calças jeans estariam proibidos na corte.
Ele acusou o jornalista Claudio Humberto de publicar em sua coluna "notícia falsa" sobre uma suposta proibição de enfeites de Natal "por ordem" do presidente do tribunal. Pargendler diz, ainda, que "os ambientes do tribunal estão decorados com motivos natalinos".
Também foi classificada como "falsa" pelo presidente do STJ a notícia publicada na Folha de S.Paulosobre a proibição do uso de sandálias tipo gladiador e calças jeans. Em nota, ele afirma que "apenas está proibido o uso de chinelos 'tipo Havaianas'".
Segundo Pargendler, o ato normativo que dispõe sobre a vestimenta de servidores e visitantes nas dependências do tribunal está "acessível no site deste ou mediante simples consulta no Google".
Quem frequenta a corte diz que, de fato, as sandálias estão proibidas e que os enfeites natalinos resumem-se a guirlandas nos gabinetes dos ministros que quiseram decorá-los.
Em resposta à nota do presidente do STJ, a Folha publicou fotografias de duas cartolinas afixadas em uma das entradas do tribunal com os modelos de sandálias femininas "não recomendados" e "recomendados".
Leia a nota do presidente do STJ sobre o tema:
Esclarecimento à sociedade
Há alguns dias, a coluna do jornalista Claudio Humberto divulgou que os enfeites de Natal estavam proibidos no Superior Tribunal de Justiça por ordem de seu Presidente. Notícia falsa. Os ambientes do Tribunal estão decorados com motivos natalinos.

A notícia foi veiculada sem que o Tribunal fosse ouvido a respeito.

Na edição de hoje, a Folha de São Paulo publicou matéria assinada pelos jornalistas Andreza Matais e Felipe Seligman, segundo a qual o Presidente proibiu, no âmbito do Superior Tribunal de Justiça, o uso de “sandálias tipo gladiador” e também de “calças jeans”. A reportagem desce a detalhes, tais como o de que “duas cartolinas com fotos dos modelos reprovados e autorizados estão numa das entradas da corte”. Notícia falsa. Apenas está proibido o uso de chinelos “tipo havaianas”.

Nesse caso, a notícia foi divulgada sem que seus autores tivessem o cuidado de ler o ato normativo que dispõe sobre a vestimenta de servidores e visitantes nas dependências do Superior Tribunal de Justiça – acessível no site deste ou mediante simples consulta no Google.

Ari Pargendler
Presidente do Superior Tribunal de Justiça
Com informações da Assessoria de Imprensa do STJ.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

A volta para casa do Pai

Mirian Macedo
O texto-depoimento abaixo é de autoria da jornalista Mirian Macedo, no qual ela relata as antigas atividades ligadas à esquerda e seu retorno à casa do Pai, à Igreja Católica. Está publicado no seu blog com o título A VOLTA PARA CASA. 


A VOLTA PARA CASA 
Criei coragem e vou contar como foi a minha volta para a Casa do Pai depois de quase quarenta anos distante de Deus. Na verdade, eu já tinha pensado em escrever relatando a minha conversão. Depois, desisti. Achei acesso - ou excesso - de vaidade, jornalista gosta de contar a história dos outros. Mas ao ler outros relatos, comoventes, considerei avareza não repartir a minha história.

Peço generosidade e compreensão pelo meu desajeito no trato dos assuntos de Deus. Tantos anos sem rezar fez com que o coração desaprendesse a delicadeza e a reverência necessárias quando falamos das coisas divinas. O cérebro, então, mais frio e prático, só vai aprender a ser doce com o tempo. Mas não posso falar mal da razão: foi também ela que devolveu-me à fé. Eu sou assim, preciso compreender, sem lacunas, "redondo", como se diz no jargão jornalístico. Só seduzem-me e convencem as grandes elaborações, os pensamentos sofisticados. O Mestre ordenou: "Ide e ensinai". Eu confesso: sou aprendiz.

Comecei a fugir, devagarinho, da Igreja quando tinha 14 ou 15 anos. Em casa, meu pai, afastado da Igreja, nada falou. Minha mãe, católica praticante, não gostou, mas não admoestou; depois, se conformou. Menina inteligente, estudiosa, longe de ser rebelde sem causa, cometi esta rebeldia porque era moderno. No final dos anos 60 e início dos 70, o mundo estava de cabeça para baixo.

Eu morava em Brasília, e de lá assisti a guerra do Vietnã, festival de Woodstok, maio de 68 na França, morte de Guevara, Beatles, AI-5, primavera de Praga, Tropicália, festivais. Neste admirável mundo novo, soava velha esta história de Deus e pecado. Religião só se fosse a de Dom Hélder Câmara. Abaixo as carolas marchadeiras!

Em 72, eu passei no vestibular para jornalismo na Universidade de Brasília; em julho daquele mesmo ano, saí de casa para morar numa república de estudantes. O ambiente da universidade era muito politizado, éramos todos comunistas. Tanto é que, em junho de 73, passei 11 dias no DOI-CODI, entre capuz na cabeça, interrogatórios intermináveis, ameaça (não consumada) de choque elétrico, muito medo e pouco heroísmo.

Quando saí, como boa comunista, menti e exagerei, recheando o relato da experiência com palavras fortes - 'gritos assombrosos', 'noites aterrorizantes', 'tortura desumana'. Tudo lorota.

Depois que saí da cana é que eu soube o que eu era e onde eu estava metida: era militante e integrava uma célula da Ação Popular Marxista-Leninista do PC do B, linha maoísta, o mesmo pessoal que fazia a Guerrilha do Araguaia, a turma de José Genoíno e de Honestino Guimarães, da UNE.

Eu tinha quase 20 anos e já estava incumbida de trabalho de aliciamento e conscientização em áreas operárias na periferia de Brasília. Faltou pouco para eu 'cair' fazendo um trabalho deste. As pessoas que me aliciaram e dirigiam a célula a que eu pertencia eram 'putas velhas', como jornalistas se referem aos mais velhos e experientes da profissão. Eles sabiam que eu era 'inocente útil', que eu não tinha a menor idéia do perigo que corria. Ormai, ero carne bruciata.)
Naquela época, Marx explicava tudo: as razões da opressão e o caminho para a libertação. E lá ia eu, vigiada pelos "ômi", assistir às palestras de Dom Pedro Casaldáliga e Dom Tomás Balduíno. A religião era o ópio do povo, mas aqueles eram padres dos bons. Não porque eram padres, mas porque eram comunistas, graças a Deus!

Mas nem só de pão vive o homem. Eu queria também Paz e Amor. Amor. Livre, claro. Para libertar nossos corpos e nossas mentes, a fórmula era conhecida: sexo, droga, rock'n roll e outros ritmos musicais alternados ou simultâneos.

Tínhamos quase tudo: o som, o fuzil e a maconha. Mas faltava o algo mais, a espiritualidade. E, assim, num fiat lux cósmico, o raio da Nova Era iluminou a nossa existência. E foi um sem-fim de yin, yang, ioga, prana, sutra, maia e karma.O cardápio podia variar, mas era sempre uma combinação de certos ingredientes: um prato de arroz integral com gergelim, um baseado, sair para dançar, ir para cama com mais um ou qualquer um e cumprir o dever revolucionário de derrubar o governo.

Quando me senti no fundo do poço e tudo ia mal - trabalho, convivência com a família, saúde etc - eu disse 'basta, vou mudar'. Mudei. Parei de beber, de fazer sexo, recolhi-me. Mas, no lugar de voltar para Deus, fui para o analista. Da parte espiritual cuidava a macrobiótica, a que me submeti rigorosamente por sete anos.

Ela era suficiente para dar-me Discernimento Superior e harmonizar-me com a Ordem da Natureza. E a "macrô" ainda trazia a vantagem de reforçar a análise dialética e materialista da realidade: afinal yin-yang podia ser traduzido como capital-trabalho ou burguesia-proletariado. Perfeito!

Eu estava com 27 anos quando, no carnaval de 1981, reencontrei em São Paulo um jovem engenheiro paulista (ex-católico, como eu) com quem eu tinha tido um "flerte" tempos antes. Neste reencontro, nós decidimos, em cinco dias, nos casar, completamente apaixonados. Transferí-me de Brasília para São Paulo e passamos a viver juntos. Sem papel e sem padre. Era um casamento moderno, baseado no princípio do prazer e na superação de resquícios da moral pequeno-burguesa.

Como natureba, meu método de controle de natalidade era tabela e período de fertilidade. Falhou, claro, porque o desejo era maior que a preocupação com uma possível gravidez. Para mim, aquela não era a hora de ser mãe, eu achava que o relacionamento estava começando e nós podíamos ainda nos divertir muito antes de pensar em filhos. E, afinal, eu era dona do meu corpo. Quanto àquela vida, ela se resumia a um conjunto de células indiferenciadas, sem consciência ou personalidade. A ciência nos garantia isto e 'nossos corpos nos pertenciam', era o lema da liber(t)ação feminista.

Na terceira gravidez, resolvemos assumir e nos casamos, só no civil. Quando meu filho nasceu, troquei as laudas pelas fraldas. Para cuidar dele, larguei uma glamurosa e promissora carreira de jornalista que eu havia retomado em São Paulo com brilhantismo, depois de ter saído daquele fundo de poço e me casado.

Mas Deus continuava fora. Tanto é que não batizei meu filho. A mesma decisão foi mantida com as minhas duas filhas.
Diante da insistência da minha mãe, pedi que ela mesma os batizasse. Quando tinha quatro anos, meu filho me perguntou quem era Deus. Respondi-lhe: "É o chefe do Bem".

Eu penso que acabei de certa maneira criando meus filhos no espírito de que falou João Paulo II. Eu não acreditava em Deus mas vivia (quase) como se Ele existisse. Só que, em vez de religião, ética.

A crítica era à Igreja, e a visão era marxista: "ópio do povo, instrumento de opressão das classes favorecidas, ideologia mantenedora dos privilégios de classe, aliada do capital na escravização do povo" e outros blá blá blás.

Como me distanciei da Igreja ainda adolescente, fui aos poucos desaprendendo o que sabia da vida de Jesus Cristo e da doutrina da Igreja Católica. A ponte mais próxima com a religião era a minha mãe, mas eu não encontrava nela qualquer desafio às minhas heresias e incredulidades.

(Apesar de crer incondicionalmente, minha mãe não se interessa muito em conhecer mais profundamente a doutrina cristã, diz que a Seicho-no-iê a tornou melhor católica, gosta da Igreja "alegre e moderna" da Canção Nova e acha que o Padre Marcelo presta serviço a Deus).

E para meu azar, a religião desandou numa breguice só quando neo-evangélicos, adeptos da Teologia da Prosperidade, infestaram o mundo e a televisão com aquela enxurrada de gente dando testemunho de que tinha aceitado Jesus no coração. Onde quer que eu pusesse os olhos, lá estavam as frases "Cristo salva", "Deus é fiel" e "Jesus te ama".

O pior é que Igreja Católica, que sempre foi um reduto de decência, achou de se modernizar com o surgimento da Renovação Carismática e começou a trocar os slogans revolucionários da Teologia da Libertação - do prisioneiro político Jesus de Nazaré dos freis Boffs e Bettos - pelos apelos do "Deus é 10 e o CD é 15".

Quanto ao Papa Woytila, eu valorizava a sua ação política em favor dos pobres, mas achava-o retrógrado e cheio de moralismos antigos, principalmente nas questões sexuais. Já que a religião andava assim, eu preferia continuar sem transcendências, mas -pelo menos - com um pouco de elegância e sofisticação intelectuais.

E logo descobri o que havia de mais avançado no pensamento de esquerda no mundo: o grupo marxista alemão Krisis, liderado pelo ensaísta Robert Kurz. Este grupo, herdeiro da Escola de Frankfurt e adepto da Teoria Crítica, fundamenta a sua análise nos conceitos de forma-mercadoria e trabalho abstrato.

O pulo do gato, entretanto, era outro: ao fazer a crítica radical do sistema mundial produtor de mercadorias, Kurz e seus discípulos conseguiram realizar um verdadeiro milagre: provar que Marx estava errado e certo ao mesmo tempo!

Segundo Krisis, já não era a luta de classes que movia a História, como pregava o Marx jovem, mas as relações fetichistas, como concluía o Marx velho. Isto é que era revolução. Marx está morto, viva Marx!

Os novos críticos apontavam o defeito iluminista de Marx em crer que a Razão faria surgir o Homem Novo. Em vez disso, o homem se tornara cada vez mais alienado, egoísta e violento, mesmo quando melhoravam as condições materiais objetivas de sua existência. Estavam aí os Estados Unidos que não os deixavam mentir.

Logo - concluíam os marxistas anti-marxistas - a solução dos problemas da humanidade teria de passar pela superação do próprio Iluminismo e sua racionalidade; de fato, o capitalismo é a mais exemplar expressão da racionalidade, o que mais se fala no capitalismo é de racionalização. A saída: mudar a Razão Pura em Razão Sensível, seja lá o que isto for. Como fazer a mudança, o grupo Krisis até hoje não descobriu. Ou seja: ninguém sabe.

O meu desencanto com o marxismo foi acontecendo naturalmente. Um dia, lendo um texto do filósofo, historiador e cientista político alemão radicado nos Estados Unidos, Eric Voegelin, convenci-me de que o marxismo carecia completamente de fundamentação filosófica que o sustentasse. Esta certeza se consolidou com a leitura de análises sobre a obra de Marx, principalmente a Teoria da Mais-Valia, feitas pelo economista austríaco e Ministro das Finanças, Eugen Bohm-Bawerk, no final do sec. XIX.

Depois, era só ver em que tinha dado o tal do "mundo comunista". Sempre me martelava na cabeça a observação do jornalista Paulo Francis de que a Revolução Russa não podia mesmo ter dado certo. Afinal, tinha começado matando crianças - os filhos do Czar Nicolai. Engraçado é que nada me fazia imaginar que eu já estava trilhando o caminho de volta a Deus. Certo dia, me caiu nas mãos um livro de um "erudito" judeu, chamado Zecharia Sitchin, que se apresentava como expert em arqueologia, História e línguas antigas (hebraico, sumério, acádio etc). Ele afirmava que as tábuas de argila encontradas na Mesopotâmia, há seis mil anos, não eram mitos, mas relatos factuais da vinda de extraterrestres de um planeta de nome Nibiru.

Estes ETs, chamados de anunakis pelos sumérios, eram os Nefilim da Bíblia. A tradução de "caídos" era errônea: Nefilim queria dizer "os que desceram do Céu para a Terra" ou, mais precisamente, "os homens dos foguetes ou das naves espaciais". Eles teriam colonizado a Terra há 500 mil anos, criado o Homem por manipulação genética.

A palavra Elohim, escrita no plural no Gênesis, provava que Deus eram "deuses. Estes, depois de criarem o homem pela fecundação de um óvulo de mulher-macaco e o sêmem de um "deus" anunaki, deram a civilização à raça humana. Voltariam nos próximos anos, completando mais uma órbita de 3600 anos em volta do Sol.

A teoria era absolutamente ousada e desconcertante. Sitchin sugeria que uma Onipotência Universal poderia até existir, mas os que vieram à Terra foram chamados Deus e Anjos equivocadamente. Quem falou a Abraão e a Moisés foram estes viajantes de naves espaciais vindos de Nibiru.

Eu pensava comigo: 'então, eu posso estar certa e a religião errada; o que nós chamamos de Deus pode ser apenas um extraterrestre'. Resumindo: não havia nem metafísica nem transcendência.

Não que histórias de ETs me arrebatassem, mas - caramba - eu também tinha lido o livro "Eram os Deuses Astronautas" na adolescência! As evidências intrigantes, as "qualificações" do autor - que incluíam até a de consultor da Nasa - e as numerosas citações de fontes acadêmicas reconhecidas (Samuel Noah Kramer, para citar só um) acabaram levando-me a ler todos os livros de Sitchin, além de muitos outros sobre pré-história, Mesopotâmia, sumérios, babilônios, assírios, caldeus, egípcios, mitologia grega e hindu, religiões antigas etc etc.

Aproveitei esta história de ET e anunaki para ler ainda, sem qualquer critério, tudo o que encontrei na Internet sobre ufologia, esoterismo, Fraternidade Branca, espiritismo, religiões orientais, calendário maia, teosofia e um sem-fim de assuntos místicos e esotéricos.

Não foi difícil, com o volume de informação que reuni, refutar completamente a teoria maluca dos anunakis. Não tinha sido, afinal, perda de tempo, pois aprendi muito. E mais: trechos do Antigo Testamento, citados por Sitchin, começaram a me fazer pensar. Eu jamais tinha lido a Bíblia e passei a me interessar e ler sobre assunto.

Foi, então, que um amigo emprestou-me um livro de Rudolf Steiner, de quem eu sabia apenas que era o criador das escolas Waldorf e da Antroposofia. Lembro-me que, à época, o Papa João Paulo II já estava muito doente e falava-se abertamente que ele não duraria muito.

Eu, de minha parte, mantinha o espírito crítico de velha marxista e teimava em ver a Igreja e o Papa sob o ângulo político, apontando o interesse da instituição em tirar proveito daquele martírio, transformando-o num espetáculo midiático.

Como eu nunca tinha lido qualquer livro de Antroposofia, estranhei a observação deste amigo de que, para Steiner, o caminho era o Cristo. Era verdade, o autor mostrava Jesus Cristo como a maior dimensão de amor que se podia imaginar. Steiner considerava o Cristo como alguém absolutamente fundamental para a evolução espiritual do homem, o próprio Deus encarnado. Espantava-me a minha igorância sobre este Ser tão inigualável e me perguntava como é que eu nada sabia sobre Ele. E fui devorando os livros de Steiner.

Para explicar a encarnação de Jesus Cristo, Steiner monta uma sofisticadíssima teoria que remonta à Atlântida, passa por Zaratustra, faz conexão com Hermes no Egito, engloba Moisés, Abrãao, essênios, budismo, Krishna , dois Jesus, duas Marias, dois Josés até chegar ao Mistério do Gólgota. De quebra, faz uma leitura dos Evangelhos como o mais puro e pedagógico manual de iniciação.

Ou seja: a Palavra de Deus não é mais que sabedoria oculta. Miraculosamente, cada palavra dos Evangelhos corresponde a um símbolo com significado na escrita esotérica e na sabedoria dos mistérios. Para entender Steiner, comprei a Bíblia de Jerusalém e, pela primeira vez, li os quatro Evangelhos e o Apocalipse. Steiner escreveu um livro intitulado O Quinto Evangelho (sic).

Mesmo sendo muito fabuloso e surpreendente, Steiner parecia consistente, lógico, sofisticado e verdadeiro. Cheguei até a pensar - na minha ignorância e que Deus me perdoe - que a Igreja Católica sabia de tudo, mas não o podia revelar, pois ainda não tinha chegado a hora, o homem ainda precisaria evoluir mais para compreender esta nova revelaçao.

De repente, me deu um estalo e eu pensei: cè qualcosa que non va. É que, para Steiner, Cristo é Deus mas também é uma entidade, um guia da evolução do homem; e Sua passagem pela Terra O teria ajudado a evoluir. Aí, eu achei demais: "Evolução, cara-pálida? Mas Ele é Deus! E Deus evolui?!"

É claro que não foi só a minha 'exuberante e prodigiosa' capacidade intelectual que me fez compreender quem era verdadeiramente Jesus Cristo. Foi o coração que compreendeu, foi o Espírito Santo que agiu. Santo Agostinho, repetindo o salmista, escreveu " Com certeza, louvarão o Senhor os que o buscam, porque os que o buscam o encontram".

Quando ficou claro para mim que Steiner era uma grande bazófia, lembrei-me do Pequeno Príncipe, de Saint-Exupéry, que dizia ser a linguagem uma fonte de mal-entendidos. E é verdade. Muito do que nos confunde nestes livros esotéricos são as expressões "mundos espirituais", "esferas superiores", "dimensões supra-sensíveis".

Automaticamente, nós relacionamos estes termos às coisas de Deus e dos anjos. Mas, na verdade, este é apenas o outro lado do mundo físico, sensorial e, neste outro mundo, também vivem os espíritos que "non provengono da Dio, nonostante venga utilizzato quasi sempre un linguaggio damore e di luce" ('espíritos que não procedem de Deus, ainda que seja utilizada quase sempre uma linguagem de amor e de luz'), nas palavras de um texto do Vaticano.

E foi assim que, através de uma heresia gnóstica como a Antroposofia, eu acabei sendo levada a redescobrir Deus!

Completamente apaixonada por Jesus Cristo, eu quis conhecê-lo. Precisava compreender para crer e crer para compreender. Para isto, fui atrás Dele no lugar certo: a Igreja Católica. Escrevi, brincando, num email para meus irmãos:
"Não adianta: quem entende de Deus e Jesus Cristo é a Igreja Católica. É perda de tempo ficar lendo steiners, sitchins e blavatskis. Melhor bater na porta da firma que tem o direito de texto e imagem e é proprietária da logomarca dos dois. Afinal de contas, a empresa existe há dois mil anos, sem fechar as portas um dia sequer!" A primeira providência foi ler inteiro o documento 'Dominus Iesus'. Lá estava a confirmação da fé.

Pode parecer, contando assim, que acreditar em Deus, para mim, é mero exercício intelectual. Mas o coração sabe que não é. Mesmo quando ainda não tinha voltado a crer, eu gostava sempre de repetir uma frase que ouvi de Leonel Brizola, quando lhe perguntaram, certa vez, se acreditava em Deus. Ele respondeu que era arrogância não acreditar em Deus. Hoje, penso que, se não temos a pureza de coração para simplesmente crer, a razão acabará por nos levar inexoravelmente à Verdade.

Como me parece hoje absurdo não crer! Para mim, é impossível alguém conhecer a Verdade e não se deixar comover pelo amor de Deus por sua criatura nem se maravilhar com a perfeição e sabedoria do plano divino! Como pude viver tanto tempo sem a amizade de Deus!

Acho que o momento definitivo da minha volta para Deus foi aquele em que ouvi pela televisão o anúncio da morte do Papa Woytila; profundamente comovida e chorando, disse para o meu marido: "Este homem está há 25 anos tomando conta de nós". Falo sempre que a minha conversão foi o último milagre de João Paulo II.

Ainda durante o conclave, comecei a conhecer o pensamento e a atuação do cardeal Ratzinger, e torci para que ele fosse o novo Papa. Nunca vou esquecer as suas primeiras palavras já escolhido para ser o sucessor de Pedro: "sono un umile lavoratore della vigna del Signore"('sou um humilde trabalhador da vinha do Senhor').

São Bento será, com certeza, o meu santo protetor, pois, além de ser o nome do novo papa, a minha primeira confissão e comunhão, depois de quase 40 anos de escuridão, eu fiz na Paróquia São Bento do Morumbi, onde moro. Que Deus ajude o Papa Bento XVI a recuperar a Igreja eterna que tantas deformações tem sofrido nos últimos anos. Que minha família O (re)encontre e que Ele nos abençõe a todos.

*Este texto integral foi publicado, pela primeira vez, no site católico Associação Cultural Montfort, em outubro de 2005. Mais tarde, eu o reescrevi recompondo a verdade.


Autora: Mirian Macedo, jornalista.  Fonte: Blog de Mirian Macedo 

O inferno: uma possibilidade real para mim!


Dom Henrique Soares

Já afirmei que a Morte eterna, a condenação ou inferno consiste fundamentalmente em viver longe de Deus, que é a Vida, a fonte da nossa vida. Gostaria ainda de propor algumas reflexões.
Ao pensarmos no inferno é necessário insistir sempre que o único fim da história e da humanidade é a salvação. Quem coloca no mesmo nível a promessa do céu com a ameaça do inferno, como se ambas as coisas tivessem os mesmos direitos e fizessem parte da mesma forma do plano de Deus, deturpa gravemente a fé cristã e elimina seu caráter de Evangelho, de alegre e boa notícia! Por isso mesmo, a Igreja, que testemunha a salvação definitiva de muitos santos, jamais emitiu um juízo de condenação eterna para alguém, jamais disse que há alguém no inferno!
No entanto, é necessário não banalizar a convicção sobre a existência do inferno! Certamente o estado de perdição não é criação de Deus nem é por ele desejado: é fruto da livre opção da criatura, da nossa liberdade quando usada contra Deus. Deus não criou o inferno, como também não criou o pecado. O inferno é possível porque é possível o nosso “não” a Deus, “não” que Deus respeita, porque fruto de uma liberdade criada, mas que tem sua real consistência e autonomia. Muita gente pensa: Deus é bom demais para admitir o inferno! Este argumento é superficial e muito irresponsável! A possibilidade do inferno existe realmente porque existe realmente a possibilidade do céu: se eu não pudesse dizer um “não” autêntico a Deus, tampouco poderia dizer um “sim”; se não há inferno, tampouco há céu!
Pode-se perguntar se o inferno é somente uma possibilidade ou se é algo que realmente pode ocorrer para o homem. A resposta depende de outra questão: alguém pode viver coincidentemente, em pleno uso de sua liberdade, fechado para Deus? Certamente é difícil imaginar alguém vivendo num “não” explícito e consciente a Deus, já que aquele que não crê não tem consciência de dar um não explícito a Deus e o que crê não se atreveria a dar esse não! No entanto, não é impossível! Aqui estamos diante do mistério do homem e da profundidade de seus sentimentos e consciência! Estamos também diante do mistério de Deus, na sua misericórdia justa e na sua justiça misericordiosa! Além do mais, o Novo Testamento conhece um outro tipo de negação de Deus: aquela que se concretiza na negação do irmão, quer individual, quer socialmente (cf. Mt 25,31): sempre houve pessoas animadas por uma vontade demoníaca de negação do próximo, pisando nos outros, mentindo, corrompendo, oprimindo, provocando sofrimento! Quem prejudica gravemente o irmão diz não a Deus! Além do mais, se o homem não pudesse dizer um “não” radical a Deus, tampouco poderia dizer um “sim” que seja expressão plena de si mesmo e da sua vida!
O importante é notar que a escolha por Deus ou contra Deus dá-se na vida, nas nossas ações e opções de cada dia. Essas ações nossas, tomadas em seu conjunto, vão deixando uma marca indelével, que formam a nossa história e que será selada com a morte! Assim, o inferno revela-se como uma terrível possibilidade que não é uma teoria, mas um convite a uma decisão! O inferno, portanto, é possível! A humanidade será salva... Mas eu, pessoalmente, posso ficar fora dessa salvação! É preciso, portanto, decidir-me por Deus, abrir para ele meu coração! É importante não se colocar levianamente diante desta questão! A Escritura e a constante Tradição da Igreja afirmam a existência do inferno e sua real possibilidade para quem se fecha para Deus no pecado! Não brinquemos nunca com a santa Revelação! Não tentemos enquadrar Deus na nossa lógica e nos nossos modismos! Mais ainda: se Jesus e as Sagradas Escrituras alertaram para essa tremenda realidade, nós devemos meditar sobre ela e a Igreja, na sua pregação, deve falar sobre ela claramente aos fieis e a todas as pessoas. Não nos é lícito deturpar ou mutilar a verdade que o Senhor nos confiou!
Quanto à teoria da apocatástasis (de que todos, no final, vão ser salvos) é um exagero, que não está de acordo com a Escritura Sagrada: é verdade que a humanidade como um todo será salva, mas isso não garante que todos os indivíduos serão salvos (porque nem todos aceitarão essa salvação). O que é válido para a humanidade como um todo não tem que ser válido necessariamente para todos e cada um dos indivíduos, sob pena de destruir qualquer respeito pela liberdade humana.
É necessário ainda perguntar pela essência da morte eterna: o que é essa morte eterna, morte segunda ou morte da alma? Trata-se do definitivo distanciamento em relação a Deus; perdê-lo eternamente. Nesta vida é impossível imaginar em que consista realmente o inferno porque ainda não temos experiência real do que significa perder a Deus, já que, enquanto peregrinamos, ele nunca está tão distante que não possamos alcançá-lo! O inferno é, portanto, um modo de existência completamente inédita: uma existência que já não tem sentido nem objetivo! É exatamente por esta não experiência atual do inferno que a Escritura fala por imagens. E pensemos: estar fora da comunhão com Deus deixará os condenados eternamente em desarmonia com eles mesmos, com os outros, com o mundo! O inferno é eterna frustração, profunda solidão e falta de sentido para tudo!
Aí a única linguagem possível é a não-linguagem do “ranger de dentes”; aí ninguém conhece ninguém, ninguém está em comunhão com ninguém. O inferno é o não-povo (contrário do Povo eleito), a não-cidade (contrário da Jerusalém celeste), a negação de toda comunhão! Em uma palavra, é viver na contradição visceral: criado para a comunhão com Deus, com os outros e com o mundo, o homem torna-se pura contradição, negação de si mesmo... alguém que vive na morte! Não é por acaso que o Apocalipse denomina tal estado de “segunda morte” (cf. 21,8).
Ainda um última questão: quantos estão no inferno? Para dar uma resposta, é necessário levar em conta duas coisas: (1) nada de apocatástasis (a restauração de todas as coisas, de modo que até Satanás seria convertido). Já vimos que o inferno é uma possibilidade bem real! (2) por outro lado, é necessário levar em conta o desígnio salvífico universal de Deus: Deus que a salvação de toda a humanidade; criou-nos para a salvação! No entanto, é preciso não banalizar! Jesus advertia: “...se não vos converterdes, todos vós morrereis...” (Lc 13,4). “Alguém lhe perguntou: ‘Senhor, são poucos os que vão se salvar?’ Ele lhes disse: ’Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque eu vos digo que muitos tentarão entrar e não conseguirão’” (Lc 13,23s).
Afirmar, portanto, que não há ninguém no inferno seria uma irresponsabilidade gritante e contrária à revelação! No entanto, levando em conta o desígnio salvífico universal de Deus, vale a pena considerar a seguinte reflexão: a esperança é uma virtude cristã, fundamentada na ressurreição de Cristo e no dom do Espírito. Ora, se devemos esperar na nossa salvação, será que a caridade não nos obriga também a esperar na salvação dos irmãos? Esta esperança universal é profundamente cristã! Temos a obrigação cristã de esperar que todos se salvem! Contudo, atenção: esperar não significa ter segurança! A esperança é uma virtude teologal que fundamenta tudo em Deus; a segurança apoia-se presunçosamente no homem. Permanecemos, portanto, em profunda esperança de que todos sejam salvos, dizendo “sim” ao apelo salvífico de Deus em Cristo, esperança que coloca tudo nas mãos de Deus e não se funda na nossa presunção! Sabemos, no entanto, que o homem é livre e pode dizer não...
Dom Henrique Soares
Bispo Auxiliar de Aracaju

PORNOGRAFIA INFANTIL: Excluir ao invés de bloquear - Alemanha


19/Dez/2011

Digitaler RadiergummiAmpliar imagem(© dpa/pa)
Conteúdos pornográficos infantis precisam ser excluídos de forma permanente e eficaz. Sob esse lema, o Governo Federal da Alemanha aprovou na última semana o projeto de lei que obriga as autoridades a deletar e não apenas bloquear os sites de pornografia infantil.

Para a Ministra da Justiça, Sabine Leutheusser-Schnarrenberger, a decisão é um componente importante para a política de rede da Alemanha. “Auto-regulação e transparência são as melhores respostas ao crime”, disse. “Imagens de abuso sexual de crianças, bem como a compra, a distribuição e a posse de tal material são das coisas mais hediondas, que precisam ser de fato banidas da internet”, completou.

Trabalhando em carater experimental nos últimos 12 meses com autoridades policiais locais e estrangeiras, os peritos responsáveis por excluir o conteúdo fazem um balanço positivo da iniciativa. Na maioria dos casos, os sites foram totalmente excluídos em questão de horas, evitando a propagação rápida e em massa de conteúdo proibido.
© Glaucimara Silva (Centro Alemão de Informação) - 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Os presos são pessoas humanas que merecem ser tratadas com respeito e dignidade



Roma (RV) – O Papa Bento XVI, neste último domingo de Advento, deixou nesta manhã o Vaticano para realizar uma visita ao novo Complexo da Penitenciária de Rebibbia, na periferia de Roma. Na estrutura de detenção, o encontro com os encarcerados teve lugar na Igreja do Pai Nosso. Nesta ocasião, o Papa respondeu algumas perguntas dos detentos e na conclusão abençoou uma árvore plantada diante da igreja como recordação da visita. Cerca de 300 pessoas estiveram presentes no encontro.

Um evento muito esperado pelos detentos e pelos funcionários do cárcere, levando em consideração que a vida dentro dos institutos penais na Itália piorou sensivelmente nos últimos anos por causa da superlotação, da falta de funcionários, e da excessiva presença de estrangeiros e de pessoas provenientes das camadas mais baixas da sociedade, e do corte de verbas destinadas à gestão das estruturas penitenciárias.

No seu discurso aos presos do Papa antes de tudo falou da sua alegria e emoção em visitar os detentos, visita que se realiza a poucos dias do Natal.

“Estava na prisão e vieste me visitar” (Mt 25,36). As palavras do juízo final, narradas pelo evangelista Mateus, exprimem em plenitude o sentido da minha visita de hoje entre vocês. Portanto, onde se encontra um faminto, um estrangeiro, um doente, um encarcerado, ali se encontra Cristo mesmo que espera a nossa visita e a nossa ajuda. Essa é a razão principal que me deixa feliz em estar aqui, para rezar, dialogar e escutar”.
O próprio Filho de Deus, o Senhor Jesus – continuou o Papa – fez a experiência do cárcere, foi submetido a um julgamento diante de um tribunal e padeceu a mais feroz condenação, a pena de morte. Recordando a sua recente viagem ao Benin, durante a qual assinou a Exortação Apostólica Pós-sinodal Africae munus (O compromisso da África) o Santo Padre destacou um trecho do documento no qual reafirma a atenção da Igreja pela justiça nos Estados:

“É preciso também banir os casos de erro da justiça e os maus tratos aos prisioneiros, as numerosas ocasiões de não aplicação da lei, que correspondem a uma violação dos direitos humanos, e as detenções que só tardiamente ou nunca chegam a um processo. A Igreja reconhece a sua missão profética junto de quantos acabam envolvidos pela criminalidade, sabendo da sua necessidade de reconciliação, de justiça e de paz . Os presos são pessoas humanas que, apesar do seu crime, merecem ser tratadas com respeito e dignidade; precisam da nossa solicitude”(n.83)

A justiça humana e a divina – continuou Bento XVI – são muito diversas. Certamente, os homens não são capazes de aplicar a justiça divina, mas devem pelo menos olhar para ela, procurar colher o espírito profundo que a anima, para que ilumine também a justiça humana, para evitar – como ocorre certas vezes – que o preso se torne um excluído. Deus, de fato, é Aquele que proclama a justiça com força, mas que, ao mesmo tempo, cura as feridas com o bálsamo da misericórdia.

Justiça e misericórdia, justiça e caridade, preceitos da doutrina social da Igreja, são duas realidades diferentes somente para nós homens - disse ainda o Papa -, que distinguimos atentamente um ato justo de um ato de amor.

“Justo para nós é “o que é devido ao outro”, enquanto misericordioso é o que é doado por bondade. E uma coisa parece excluir a outra. Mas para Deus não é assim: n’Ele justiça e caridade coincidem; não há uma ação justa que não seja também ato de misericórdia e de perdão e, ao mesmo tempo, não existe uma ação misericórdiosa que não seja perfeitamente justa”.

Quão longe é a lógica de Deus da nossa! – sublinhou o Papa. E como é diferente do nosso modo o seu modo de agir! O Senhor nos convida a colher e observar o verdadeiro espírito da lei, para lhe dar pleno cumprimento no amor para aqueles que necessitam. “Pleno cumprimento da lei é o amor", escreve São Paulo: a nossa justiça será mais perfeita, se animada pelo amor a Deus e ao próximo.

O Papa destacou em seguida que o sistema de detenção gira em torno de dois pontos principais, ambos importantes: por um lado, proteger a sociedade contra eventuais ameaças, de outro reintegrar quem errou, sem pisotear a dignidade e excluí-lo da vida social. Ambos os aspectos têm a sua relevância e não devem criar um "abismo" entre a realidade na prisão e aquela pensada pela lei, que prevê como um elemento chave a função reeducadora da pena e o respeito dos direitos e da dignidade das pessoas. A vida humana pertence somente a Deus, que nos deu, e não é abandonada à mercê de ninguém, nem mesmo ao nosso livre arbítrio! Somos chamados a preservar a pérola preciosa da nossa vida e a dos outros.

O Papa sublinhou ainda que a superlotação e a degradação das prisões podem tornar ainda mais amarga a detenção: recebi várias cartas de presos que sublinham isso. É importante que as instituições promovam uma cuidadosa análise da situação da prisão hoje, verifiquem as estruturas, os recursos, o pessoal, de modo que os prisioneiros não cumpram jamais "uma dupla pena"; é importante promover um desenvolvimento do sistema carcerário, que respeitando a justiça, seja cada vez mais adequado às necessidades da pessoa humana, com a utilização também de penas não detentivas ou a modalidades diferentes de detenção.

O Papa conclui suas palavras recordando que celebramos o quarto domingo do tempo de Advento. O Natal do Senhor está próximo, e fez votos de que reacenda de esperança e de amor os corações. O Menino de Belém será feliz quando todos os homens retornarem a Deus com o coração renovado. “Vamos pedir-lhe no silêncio e na oração sermos todos liberados da prisão do pecado, da soberba e do orgulho; cada um tem necessidade de sair desta prisão interior para ser verdadeiramente livre do mal, das angústias e da morte. Somente aquele Menino deitado na manjedoura é capaz de doar a todos essa plena libertação!.

O Papa concluiu dizendo que a Igreja apoia e encoraja todos os esforços para garantir a todos uma vida digna e que está próxima a cada um deles, às suas famílias, aos seus filhos, aos seus jovens, aos seus anciãos e todos leva no coração diante de Deus. (SP)

Justiça brasileira condena padres por pedofilia

Caríssimos(as) leitores(as)


A propósito da notícia que segue abaixo, lamentamos que dentro de nossa Igreja Católica tenham acontecimentos que não correspondem aos ensinamentos do Evangelho e da Moral Cristã. Todos nós somos responsáveis pelos nossos atos, diante da lei de Deus e da lei dos homens. 


Três padres são condenados por pedofilia no interior de Alagoas

Integrantes da Igreja Católica não serão presos por serem réus primários e ainda podem recorrer

19 de dezembro de 2011 | 19h 59
Angela Lacerda - O Estado de S.Paulo
RECIFE - O juiz da 1.ª Vara da Infância e da Juventude de Arapiraca (AL), João Luiz de Azevedo Lessa, condenou nesta segunda-feira, 19, por crime de pedofilia, três religiosos da Igreja Católica: o monsenhor Luiz Marques Barbosa, de 83 anos, a 21 anos de prisão; e o monsenhor Raimundo Gomes, 53, e o padre Edílson Duarte, 45 anos, a 16 anos e quatro meses de prisão.
Os padres Luiz Marques, Edilson Duarte e Raimundo Gomes durante um dos dias de julgamento - Ailton Cruz/AE
Ailton Cruz/AE
Os padres Luiz Marques, Edilson Duarte e Raimundo Gomes durante um dos dias de julgamento
Apesar da condenação, eles não foram presos. De acordo com o juiz, os religiosos são réus primários e cumpriram as determinações solicitadas pela Justiça. Após o recesso judiciário, os advogados dos religiosos serão notificados da decisão e terão cinco dias para recorrer da sentença.
A sentença só foi proferida depois de quase quatro meses do final do julgamento, que foi adiado várias vezes devido a pedidos de diligência e ausência de testemunhas.
Os padres foram investigados a partir de denúncias de ex-coroinhas que relataram casos de abuso sexual dos religiosos contra crianças e adolescentes, em março do ano passado. Um ex-coroinha, que afirma ter sido vítima do monsenhor Luiz Marques Barbosa, filmou às escondidas o sacerdote na cama com um outro coroinha, colega seu. As denúncias e o vídeo chocaram a cidade, a segunda maior de Alagoas, com população de 209 mil habitantes, a 150 quilômetros de Maceió.
Repercussão. O bispo da diocese regional de Penedo, que engloba Arapiraca, Dom Valério Breda, que, segundo as vítimas, tinha ciência de tudo o que se passava, afastou os religiosos dois dias depois da eclosão do escândalo. Ele prometeu para terça-feira a divulgação de uma nota oficial da diocese sobre a condenação judicial.
De acordo com a denúncia do Ministério Público Estadual (MPE) à Justiça, figuram como vítimas de abuso dos religiosos Fabiano Silva Ferreira, de 21 anos, Cícero Flávio Vieira Barbosa, de 20, e Anderson Farias Silva, de 21. Eles foram os primeiros a serem ouvidos pelo juiz - que estava acompanhado do promotor do MPE, Alberto Tenório - durante o julgamento. Eles reafirmaram as denúncias de abuso quando eram menores de idade.
Recompensa. De acordo com os autos do processo, as investigações apontaram que os padres prometiam vantagens econômicas aos coroinhas para ganhar a confiança deles e depois tirar proveito das vítimas. Em um dos depoimentos da acusação, o caminhoneiro João Ferreira, que trabalhava como motorista do monsenhor Barbosa, disse que o religioso era carinhoso com os coroinhas, mas só se deu conta de que abusava dos garotos depois de ver o vídeo.
Os padres mantiveram a declaração de inocência.
Fonte: Estadão

O inferno: viver eternamente longe de Cristo

Dom Henrique Soares
No Novo Testamento a idéia da condenação eterna exprime-se fundamentalmente como negação daquela comunhão com Deus que constitui a bem-aventurança, a Vida eterna: o inferno é a negação, a ausência da comunhão com o Pai. Daí as expressões como “perder a vida“ ou “perder a alma e o corpo na geena” (cf. Mc 8,35; Mt 10,28; Jo 12,25), “não ser conhecido” (cf. Mt 7,23), “ficar ou ser jogado fora” (cf. Lc 13,23s); “apartai-vos de mim” (cf. Mt 7,23), “não herdar o Reino” (cf. 1Cor 6,9s; Gl 5,21), “não ver a Vida” (cf. Jo 3,36).
Todas estas fórmulas querem indicar a exclusão do acesso imediato a Deus através de Cristo. A conclusão é clara: o inferno não pode ser pensado por si mesmo, como realidade autônoma, mas a partir da negação daquilo que é a bem-aventurança. Somente podemos compreender a gravidade e tristeza do inferno quando percebemos a felicidade e plenitude do céu. Em outras palavras, o inferno é, fundamentalmente, a imagem invertida da Glória, a eventual frustração daquilo que Deus sonhou para o homem.

Portanto, assim como o mistério da salvação, o céu que Deus nos prepara, podem expressar-se simplesmente com a palavra Vida, o inferno, a condenação eterna, pode ser expresso simplesmente pela palavra Morte (cf. Lc 13,3; Jo 5,24; 6,50; 8,51; Jo 3,14; 5,16-17; Ap 20,14; Rm 5,12; 6,21; 7,5.11.13.24; 1Cor 15,21s; Ef 2,1-5; 1Tm 5,6, etc). Este estado de morte é tão definitivo e irrevogável quanto e de vida: é eterno, tanto quanto a felicidade do céu! Ou seja: como o céu, o inferno é para sempre! O Apocalipse fala de um tormento que dura eternamente: “E a fumaça de seu tormento sobe pelos séculos dos séculos. Não terão repouso dia e noite aqueles que adoram a besta e sua imagem e quem quer que receba a marca de seu nome” (14,11s). Além destas imagens negativas, o Novo Testamento oferece várias descrições, em imagens, da morte eterna: fala-se em geena de fogo (cf. Mt 18,9); forno de fogo (cf. Mt 13,50); fogo inextinguível (cf. Mc 9,43.48); pranto e ranger de dentes (cf. Mt 13,42); lago de fogo e enxofre (cf. Ap 19,20); verme que não morre (cf. Mc 9,48).

Todas estas imagens querem mostrar que a privação eterna de Deus supõe para o homem o trágico fracasso de sua existência e, portanto, supremo sofrimento. Se quiséssemos, hoje, dá uma idéia bem atual do inferno, deveríamos dizer que ele é como uma depressão eterna, uma solidão sem fim, uma melancolia sem cura, uma frustração sem remédio! A imagem do fogo, tão comum no Novo Testamento para exprimir a condenação, corresponde exatamente a esta idéia: fora da comunhão com Deus e com os outros, totalmente frustrada, a existência humana não serve para mais nada; é como uma árvore que não deu fruto, imprestável e que, portanto, só serve para ser queimada.
Diante da possibilidade do inferno, muitos se perguntam: como é possível falar no inferno quando se crê num Deus que é bondade e misericórdia? É necessário recordar que o juízo de condenação não é simplesmente um decreto que Deus emite de modo vingativo ou cheio de zanga! Diante da luz da verdade, que é Deus, a própria pessoa se vê como é, vê a verdade de sua vida e se condena ao não aceitar o Cristo e sua palavra de salvação: “Se alguém escuta as minhas palavras e não as guarda, eu não o condeno, porque não vim para condenar o mundo, mas para o salvar. Quem me rejeita e não recebe minhas palavras, já tem quem o condene: a palavra que falei é que o condenará no último dia” (Jo 12,47s).Nesta mesma direção move-se a afirmação de Paulo: “Não sabeis que os injustos não possuirão o reino de Deus? Não vos iludais: nem os imorais, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os pederastas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os beberrões, nem os insultadores, nem os assaltantes, possuirão o reino de Deus” (1Cor 6,9s).

Assim, que fique claro: o inferno é possível porque Deus respeita nossa liberdade, nossas escolhas! Se eu posso dizer um sim verdadeiro ao seu amor, também posso dizer não! E, como Deus respeita o meu sim, também leva a sério o meu não. E o sim e o não são ditos não com palavras, mas com a vida de cada dia! É isto que o Novo Testamento nos ensina! Deus quer a nossa salvação, criou-nos para a glória, para a comunhão com ele... Mas a decisão é nossa e Deus vai respeitá-la. Assim, não é Deus quem nos manda para o inferno como se estivesse irado ou com dor de cotovelo! Não: exatamente porque ele nos ama, respeita-nos, ainda que isto signifique a perdição eterna. Uma coisa é certa: o inferno não é para a glória de Deus: Deus não quer o inferno nem o criou para nós. A possibilidade do inferno é conseqüência do mau uso da nossa liberdade!

A Igreja, em toda a sua história, sempre insistiu na necessidade de levar a sério a nossa liberdade, nosso sim e nosso não! Assim, a convicção da existência do inferno aparece nos documentos mais antigos! Aparece também claramente a consciência, baseada no Novo Testamento, que o inferno é eterno.

Somente Orígenes, o grande teólogo da Igreja antiga, ensinou de modo diferente: ele colocava em dúvida a eternidade do inferno: para ele os textos bíblicos sobre uma morte eterna têm apenas uma função educativa, de modo que as penas são, na verdade, medicinais. A alma teria sempre uma capacidade de reorientar a opção que fez durante a vida, mesmo depois da morte. Assim, Orígenes ensina a “apocatástasis”, ou seja, a “restauração” de todas as coisas. No final, portanto, não haveria ninguém - nem Satanás - no inferno. A Igreja condenou fortemente tal doutrina: “Se alguém afirma ou retém que o castigo dos demônios e dos homens ímpios é temporário e terá fim após um certo tempo, ou seja, que haverá um restabelecimento (apocatástasis) dos demônios e dos homens ímpios, seja anátema”.

Assim fica assentado pela Tradição eclesial a convicção a respeito da duração eterna do inferno. Mais tarde, São João Crisóstomo e Santo Agostinho irão deixar claro que a grande pena do estado de perdição é a exclusão do Reino de Deus, da comunhão com o Senhor: “Desde o momento que alguém é condenado ao fogo, evidentemente perde o Reino, e esta é a desgraça maior. Sei que muitos tremem só de ouvir o nome da geena, mas para mim a perda daquela glória suprema é mais terrível que os tormentos da geena. Acontecerá a morte sempiterna quando a alma não mais puder viver, ao não mais ter Deus”. O Concílio Lateranense IV, contra os albigenses, que defendiam a reencarnação, ensinava: “Todos ressurgirão com os corpos dos quais agora estão revestidos para receber, de acordo com a bondade ou maldade de suas obras, uns a pena eterna com o diabo, outros, a glória eterna com Cristo”. Mais tarde, a Constituição Benedictus Deus, do Papa Bento XII, fazia eco à fé da Igreja: “As almas dos que morrem em pecado mortal atual... descem ao inferno, onde são atormentadas com penas infernais”.

Resumindo bem resumido: (1) a Escritura ensina a existência do inferno, (2) o inferno não é criação de Deus, mas fruto do mal uso da liberdade das criaturas, (3) o inferno é a negação de toda a felicidade do céu, é a frustração radical do homem e (4) o inferno é eterno.
Dom Henrique Soardes
Bispo Auxiliar de Aracaju

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O homossexualismo e a moral católica


CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ
CARTA AOS BISPOS DA IGREJA CATÓLICA
SOBRE O ATENDIMENTO PASTORAL
DAS PESSOAS HOMOSSEXUAIS

1. O problema do homossexualismo e do juízo ético acerca dos atos homossexuais tornou-se cada vez mais objeto de debate público, mesmo em ambientes católicos. Em tal discussão, propõe-se muitas vezes argumentos e exprime-se posições não conformes com o ensinamento da Igreja Católica, que suscitam justa preocupação em todos aqueles que se dedicam ao ministério pastoral. Por esse motivo esta Congregação julga o problema tão grave e difuso que justifica a presente Carta sobre o atendimento pastoral às pessoas homossexuais, Carta dirigida a todos os Bispos da Igreja Católica.

2. Naturalmente, não se pretende elaborar neste texto um tratado exaustivo sobre um problema tão complexo. Prefere-se concentrar a atenção no contexto específico da perspectiva moral católica. Esta encontra apoio também nos resultados seguros das ciências humanas, as quais, também, possuem objeto e método que lhes são próprios e gozam de legítima autonomia.

A posição da moral católica baseia-se na razão humana iluminada pela fé e guiada conscientemente pela intenção de fazer a vontade de Deus, nosso Pai. Desta forma, a Igreja está em condições não somente de poder aprender das descobertas científicas, mas também de transcender-lhes o horizonte; ela tem a certeza de que a sua visão mais completa respeita a complexa realidade da pessoa humana que, nas suas dimensões espiritual e corpórea, foi criada por Deus e, por sua graça, é chamada a ser herdeira da vida eterna.
Somente em tal contexto poder-se-á compreender com clareza em que sentido o fenómeno do homossexualismo, em suas múltiplas dimensões e com seus efeitos sobre a sociedade e sobre a vida eclesial, é um problema que afeta propriamente a preocupação pastoral da Igreja. Por isto mesmo, requer-se dos seus ministros atento estudo, empenho concreto e reflexão honesta, teologicamente equilibrada.

3. Já na « Declaração acerca de algumas questões de ética sexual » de 29 de dezembro de 1975, a Congregação para a Doutrina da Fé tratava explicitamente deste problema. Naquela Declaração, salientava-se o dever de procurar compreender a condição homossexual e se observava que a culpabilidade dos atos homossexuais deve ser julgada com prudência. Ao mesmo tempo, a Congregação levava em consideração a distinção feita comumente entre a condição ou tendência homossexual, de um lado, e, do outro, os atos homossexuais. Estes últimos eram descritos como atos que, privados da sua finalidade essencial e indispensável, são « intrinsecamente desordenados » e, como tais, não podem ser aprovados em nenhum caso (cfr. n. 8, § 4).

Entretanto, na discussão que se seguiu à publicação da Declaração, foram propostas interpretações excessivamente benévolas da condição homossexual, tanto que houve quem chegasse a defini-la indiferente ou até mesmo boa. Ao invés, é necessário precisar que a particular inclinação da pessoa homossexual, embora não seja em si mesma um pecado, constitui, no entanto, uma tendência, mais ou menos acentuada, para um comportamento intrinsecamente mau do ponto de vista moral. Por este motivo, a própria inclinação deve ser considerada como objetivamente desordenada.

Aqueles que se encontram em tal condição deveriam, portanto, ser objeto de uma particular solicitude pastoral, para não serem levados a crer que a realização concreta de tal tendência nas relações homossexuais seja uma opção moralmente aceitável.

4. Uma das dimensões essenciais de um autêntico atendimento pastoral é a identificação das causas que provocaram confusão quanto ao ensinamento da Igreja. Entre elas, deve-se assinalar uma nova exegese da Sagrada Escritura, segundo a qual a Bíblia ou não teria nada a dizer acerca do problema do homossexualismo, ou até mesmo tacitamente o aprovaria, ou então ofereceria prescrições morais tão condicionadas cultural e historicamente, que afinal não mais poderiam ser aplicadas à vida contemporânea. Tais opiniões, gravemente erróneas e desorientadoras, requerem, portanto, uma especial vigilância.

5. É verdade que a literatura bíblica é tributária das várias épocas nas quais foi escrita, com relação a grande parte dos seus modelos de pensamento e de expressão (cfr. Dei Verbum, n. 12). Certamente, a Igreja de hoje proclama o Evangelho a um mundo bastante diferente do mundo antigo. Por outro lado, o mundo no qual foi escrito o Novo Testamento estava já consideravelmente mudado, por exemplo, quanto à situação na qual foram escritas ou redigidas as Sagradas Escrituras do povo judeu.

Deve-se ressaltar todavia que, embora no contexto de uma diversidade notável, existe uma evidente coerência no interior das mesmas Escrituras no que diz respeito ao comportamento homossexual. Por isto, a doutrina da Igreja acerca deste ponto não se baseia apenas em frases isoladas, das quais se podem deduzir argumentações teológicas discutíveis, e sim no sólido fundamento de um testemunho bíblico constante. A atual comunidade de fé, em ininterrupta continuidade com as comunidades judaicas e cristãs no seio das quais foram redigidas as antigas Escrituras, continua a alimentar-se com aquelas mesmas Escrituras e com o Espírito de Verdade do qual elas são a Palavra. É igualmente essencial reconhecer que os textos sagrados não são realmente compreendidos quando interpretados de um modo que contradiz a vigente Tradição da Igreja. Para ser correia, a interpretação da Escritura deve estar em acordo efetivo com esta Tradição.

A este respeito, assim se exprime o Concílio Vaticano II: « É claro, pois, que a Sagrada Tradição, a Sagrada Escritura e o Magistério da Igreja, por sapientíssima disposição de Deus, são entre si tão relacionados e unidos, que não podem subsistir independentemente, e todos juntos, segundo o modo próprio de cada um, sob a ação de um só Espírito Santo, contribuem eficazmente para a salvação das almas » (Dei Verbum, n. 10). À luz dessas afirmações aqui se delineia sucintamente o ensinamento da Bíblia sobre a matéria.

6. A teologia da criação, presente no livro do Génesis, fornece o ponto de vista fundamental para a adequada compreensão dos problemas suscitados pelo homossexualismo. Na sua infinita sabedoria e em seu amor onipotente, Deus chama à existência toda a criação, como reflexo da sua bondade. Cria o homem à sua imagem e semelhança, como varão e mulher. Por isto mesmo, os seres humanos são criaturas de Deus chamadas a refletir, na complementariedade dos sexos, a unidade interna do Criador. Eles realizam esta função, de modo singular, quando, mediante a recíproca doação esponsal, cooperam com Deus na transmissão da vida.

O capítulo 3 do Génesis mostra como esta verdade acerca da pessoa humana como imagem de Deus foi obscurecida pelo pecado original. Daí provém inevitavelmente uma perda da consciência acerca do caráter de aliança, próprio da união que as pessoas humanas mantinham com Deus e entre si. Embora o corpo humano conserve ainda o seu « significado esponsal », este, agora, é obscurecido pelo pecado. Assim, o deterioramento devido ao pecado continua a desenvolver-se na história dos homens de Sodoma (cfr. Gn 19, 1-11). Não pode haver dúvidas quanto ao julgamento moral aí expresso contra as relações homossexuais. Em Levítico 18, 22 e 20, 13, quando se indica as condições necessárias para se pertencer ao povo eleito, o Autor exclui do povo de Deus os que têm um comportamento homossexual.

Tendo como tela de fundo esta legislação teocrática, São Paulo desenvolve uma perspectiva escatológica, dentro da qual repropõe a mesma doutrina, elencando também entre aqueles que não entrarão no reino de Deus os que agem como homossexuais (cfr. 1 Cor 6, 9). Em outra passagem do seu epistolário, baseando-se nas tradições morais dos seus ancestrais, mas colocando-se no novo contexto do confronto entre o cristianismo e a sociedade pagã do seu tempo, ele apresenta o comportamento homossexual como um exemplo da cegueira em que caiu a humanidade. Tomando o lugar da harmonia original entre Criador e criatura, o grave desvio da idolatria levou a todo tipo de excessos no campo moral. São Paulo aponta o exemplo mais claro desta desarmonia exatamente nas relações homossexuais (cfr. Rm 1, 18-32). Enfim, em perfeita continuidade com o ensinamento bíblico, na lista dos que agem contrariamente à sã doutrina, são mencionados explicitamente como pecadores aqueles que praticam atos homossexuais (cfr. 1 Tm 1, 10).

7. A Igreja, obediente ao Senhor que a fundou e a enriqueceu com a dádiva da vida sacramental, celebra no sacramento do matrimónio o desígnio divino da união do homem e da mulher, união de amor e capaz de dar a vida. Somente na relação conjugal o uso da faculdade sexual pode ser moralmente reto. Portanto, uma pessoa que se comporta de modo homossexual, age imoralmente.

Optar por uma atividade sexual com uma pessoa do mesmo sexo equivale a anular o rico simbolismo e o significado, para não falar dos fins, do desígnio do Criador a respeito da realidade sexual. A atividade homossexual não exprime uma união complementar, capaz de transmitir a vida e, portanto, contradiz a vocação a uma existência vivida naquela forma de auto-doação que, segundo o Evangelho, é a essência mesma da vida cristã. Não quer dizer que as pessoas homossexuais não sejam frequentemente generosas e não se doem, mas quando se entregam a uma atividade homossexual, elas reforçam dentro delas mesmas uma inclinação sexual desordenada, caracterizada em si mesma pela auto-complacência.

Como acontece com qualquer outra desordem moral, a atividade homossexual impede a auto-realização e a felicidade porque contrária à sabedoria criadora de Deus. Refutando as doutrinas erróneas acerca do homossexualismo, a Igreja não limita, antes pelo contrário, defende a liberdade e a dignidade da pessoa, compreendidas de um modo realista e autêntico.

8. O ensinamento da Igreja de hoje encontra-se, portanto, em continuidade orgânica com a visão contida na Sagrada Escritura e com a constante tradição. Embora o mundo de hoje seja, sob diversos pontos de vista, realmente mudado, a comunidade cristã é consciente do vínculo profundo e duradouro que a une às gerações que a precederam « no sinal da fé ».

No entanto, um número cada vez mais largo de pessoas, mesmo dentro da Igreja, exerce fortíssima pressão para levá-la a aceitar a condição homossexual como se não fosse desordenada e a legitimar os atos homossexuais. Os que, no interior da Igreja, pressionam nesta direção, frequentemente mantêm estreita ligação com os que agem fora dela. Ora, tais grupos externos são movidos por uma visão oposta à verdade acerca da pessoa humana, verdade que nos foi revelada plenamente no mistério de Cristo. Embora de modo não de todo consciente, eles manifestam uma ideologia materialista, que nega a natureza transcendente da pessoa humana bem como a vocação sobrenatural de cada indivíduo.

Os ministros da Igreja devem agir de tal modo que as pessoas homossexuais confiadas aos seus cuidados não sejam desencaminhadas por estas opiniões, tão profundamente opostas ao ensino da Igreja. Contudo o risco é grande e existem muitos que procuram criar confusão quanto à posição da Igreja e aproveitar-se de tal confusão em favor de seus próprios objetivos.

9. Mesmo dentro da Igreja formou-se uma corrente, constituída por grupos de pressão com denominações diferentes e diferente amplitude, que tenta impôr-se como representante de todas as pessoas homossexuais que são católicas. Na realidade, seus adeptos são, na maioria dos casos, pessoas que, ou desconhecem o ensinamento da Igreja, ou procuram subvertê-lo de alguma maneira. Tenta-se reunir sob a égide do catolicismo pessoas homossexuais que não têm a mínima intenção de abandonar o seu comportamento homossexual. Uma das táticas usadas é a de afirmar, em tom de protesto, que qualquer crítica ou reserva às pessoas homossexuais, à sua atitude ou ao seu estilo de vida, é simplesmente uma forma de injusta discriminação.

Em algumas nações funciona, como consequência, uma tentativa de pura e simples manipulação da Igreja, conquistando-se o apoio dos pastores, frequentemente em boa fé, no esforço que visa mudar as normas da legislação civil. Finalidade de tal ação é ajustar esta legislação à concepção própria de tais grupos de pressão, para a qual o homossexualismo é, pelo menos, uma realidade perfeitamente inócua, quando não totalmente boa.

Embora a prática do homossexualismo esteja ameaçando seriamente a vida e o bem-estar de grande número de pessoas, os fautores desta corrente não desistem da sua ação e recusam levar em consideração as proporções do risco que ela implica.

A Igreja não pode despreocupar-se de tudo isto e por conseguinte mantém firme a sua posição clara a respeito, posição que não pode, certamente, modificar-se sob a pressão da legislação civil ou da moda do momento. Ela se preocupa também, sinceramente, pelos muitos que não se sentem representados pelos movimentos pró-homossexuais e por aqueles que poderiam ser tentados a crer em sua propaganda enganadora. Ela é consciente de que a opinião segundo a qual a atividade homossexual seria equivalente à expressão sexual do amor conjugal ou, pelo menos, igualmente aceitável, incide diretamente sobre a concepção que a sociedade tem da natureza e dos direitos da família, pondo-os seriamente em perigo.

10. É de se deplorar firmemente que as pessoas homossexuais tenham sido e sejam ainda hoje objeto de expressões malévolas e de ações violentas. Semelhantes comportamentos merecem a condenação dos pastores da Igreja, onde quer que aconteçam. Eles revelam uma falta de respeito pelos outros que fere os princípios elementares sobre os quais se alicerça uma sadia convivência civil. A dignidade própria de cada pessoa deve ser respeitada sempre, nas palavras, nas ações e nas legislações.

Todavia, a necessária reação diante das injustiças cometidas contra as pessoas homossexuais não pode levar, de forma alguma, à afirmação de que a condição homossexual não seja desordenada. Quando tal afirmação é aceita e, por conseguinte, a atividade homossexual é considerada boa, ou quando se adota uma legislação civil para tutelar um comportamento ao qual ninguém pode reivindicar direito algum, nem a Igreja nem a sociedade em seu conjunto deveriam surpreender-se se depois também outras opiniões e práticas distorcidas ganham terreno e se aumentam os comportamentos irracionais e violentos.

11. Alguns afirmam que a tendência homossexual, em certos casos, não é fruto de uma opção deliberada e que a pessoa homossexual não tem outra alternativa, sendo obrigada a se comportar de modo homossexual. Por conseguinte, afirma-se que, em tais casos, ela agiria sem culpa, não sendo realmente livre.

A este propósito, é necessário referir-se à sábia tradição moral da Igreja, que alerta para as generalizações no julgamento dos casos individuais. De fato, em um determinado caso, podem ter existido no passado, e podem subsistir ainda, circunstâncias tais que reduzem ou até mesmo eliminam a culpa do indivíduo; outras circunstâncias, ao contrário, podem agravá-la. Em todo caso, deve-se evitar a presunção infundada e humilhante de que o comportamento homossexual das pessoas homossexuais esteja sempre e totalmente submetido à coação e, portanto, seja sem culpa. Na realidade, também às pessoas com tendência homossexual deve ser reconhecida aquela liberdade fundamental que caracteriza a pessoa humana e lhe confere a sua particular dignidade. Como em toda conversão do mal, graças a tal liberdade, o esforço humano, iluminado e sustentado pela graça de Deus, poderá permitir-lhes evitar a atividade homossexual.

12. Que deve fazer, então, uma pessoa homossexual que procura seguir o Senhor? Substancialmente, tais pessoas são chamadas a realizar a vontade de Deus na sua vida, unindo ao sacrifício da cruz do Senhor todo sofrimento e dificuldade que possam experimentar por causa da sua condição. Para quem crê, a cruz é um sacrifício frutuoso, pois daquela morte derivam a vida e a redenção. Ainda que se possa prever que qualquer convite a carregar a cruz ou a compreender de tal forma o sofrimento do cristão será ridicularizado por alguns, é preciso recordar que é este o caminho da salvação para todos aqueles que seguem o Cristo.

Não é outro, na realidade, o ensinamento transmitido pelo apóstolo Paulo aos Gálatas, quando diz que o Espírito produz na vida do fiel « amor, alegria, paz, paciência, benevolência, bondade, fidelidade, mansidão e auto-domínio » e, mais adiante: «Não podeis pertencer a Cristo sem crucificar a carne com as suas paixões e os seus desejos » (Gal 5, 22. 24).

Todavia, este convite é facilmente mal interpretado, se é considerado apenas como um inútil esforço de auto-renegação. A cruz é, sem dúvida, renegação de si mesmo, mas no abandono à vontade daquele Deus que da morte faz brotar a vida e habilita os que nele depositam a sua confiança a praticarem a virtude em lugar do vício.

Só se celebra autenticamente o Mistério Pascoal quando se deixa que ele impregne o tecido da vida cotidiana. Recusar o sacrifício da própria vontade na obediência à vontade do Senhor é, de fato, opor obstáculo à salvação. Exatamente como a Cruz é o centro da manifestação do amor redentor que Deus tem por nós em Jesus, assim o fato de conformarem a negação de si mesmos ao sacrifício do Senhor constituirá para homens e mulheres homossexuais uma fonte de auto-doação que os salvará de uma forma de vida que continuamente ameaça destruí-los.

As pessoas homossexuais, como os demais cristãos, são chamadas a viver a castidade. Dedicando-se com assiduidade a compreender a natureza do chamado pessoal que Deus lhes dirige, serão aptas a celebrar mais fielmente o sacramento da Penitência e a receber a graça do Senhor que, neste mesmo sacramento, se oferece para generosamente poderem converter-se mais plenamente ao seu seguimento.

13. É evidente, por outro lado, que uma clara e eficaz transmissão da doutrina da Igreja a todos os fiéis e à sociedade no seu conjunto depende em grande parte do ensinamento correto e da fidelidade daqueles que exercem o ministério pastoral. Os Bispos têm a responsabilidade particularmente grave de preocupar-se que seus colaboradores no ministério e, sobretudo, os sacerdotes, sejam corretamente informados e pessoalmente bem dispostos a comunicar a todos a doutrina da Igreja na sua integridade.

São dignas de admiração a particular solicitude e a boa vontade demonstradas por muitos sacerdotes e religiosos, no atendimento pastoral às pessoas homossexuais; esta Congregação espera que tal solicitude e boa vontade não diminuam. Estes zelosos ministros devem nutrir a certeza de que estão seguindo fielmente a vontade do Senhor quando encorajam a pessoa homossexual a levar uma vida casta e relembram a dignidade incomparável que Deus lhe deu também.

14. Considerando tudo o que precede, esta Congregação deseja pedir aos Bispos que sejam particularmente vigilantes com relação aos programas que, de fato, tentam exercer pressão sobre a Igreja a fim de que ela mude a sua doutrina, embora às vezes, verbalmente neguem que seja assim. 

Um estudo atento das declarações públicas neles contidas e das atividades que promovem revela uma calculada ambiguidade, através da qual procuram desviar pastores e fiéis. Por exemplo, costumam citar o ensinamento do Magistério, mas somente como uma fonte facultativa na formação da consciência; sua autoridade peculiar não é reconhecida. 

Alguns grupos costumam até mesmo qualificar de « católicas » as suas organizações ou as pessoas às quais pretendem dirigir-se, mas, na realidade, não defendem nem promovem o ensinamento do Magistério; ao contrário, às vezes, atacam-no abertamente. Mesmo reafirmando a vontade de conformar sua vida ao ensinamento de Jesus, de fato os membros desses grupos abandonam o ensinamento da Sua Igreja. Este comportamento contraditório de forma alguma pode receber o apoio dos Bispos.

15. Esta Congregação encoraja, pois, os Bispos a promoverem, nas suas dioceses, uma pastoral para as pessoas homossexuais, plenamente concorde com o ensinamento da Igreja. Nenhum programa pastoral autêntico poderá incluir organizações em que pessoas homossexuais se associem entre si, sem que fique claramente estabelecido que a atividade homossexual é imoral. Uma atitude verdadeiramente pastoral incluirá a necessidade de evitar, para as pessoas homossexuais, as ocasiões próximas de pecado.

Devem ser encorajados os programas em que tais perigos sejam evitados. Mas é necessário deixar bem claro que afastar-se do ensino da Igreja ou fazer silêncio em torno dele, sob o pretexto de oferecer um atendimento pastoral, não é forma legítima nem de autêntica atenção nem de pastoral válida. Em última análise, somente aquilo que é verdadeiro pode ser também pastoral. Quando não se tem presente a posição da Igreja, impede-se a homens e mulheres homossexuais de receberem o atendimento de que necessitam e ao qual têm direito.

Um programa pastoral autêntico ajudará as pessoas homossexuais em todos os níveis da sua vida espiritual, mediante os sacramentos e, particularmente, a frequente e sincera confissão sacramental, como também através da oração, do testemunho, do aconselhamento e da atenção individual. Desta forma, a comunidade cristã na sua totalidade pode chegar a reconhecer sua vocação de assistir estes seus irmãos e irmãs, evitando-lhes tanto a desilusão como o isolamento.

16. Desta abordagem diversificada podem advir muitas vantagens, entre as quais não menos importante é a constatação de que uma pessoa homossexual, como, de resto, qualquer ser humano, tem uma profunda exigência de ser ajudada contemporaneamente em vários níveis.

A pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus, não pode definir-se cabalmente por uma simples e redutiva referência à sua orientação sexual. Toda e qualquer pessoa que vive sobre a face da terra conhece problemas e dificuldades pessoais, mas possui também oportunidades de crescimento, recursos, talentos e dons próprios. A Igreja oferece ao atendimento da pessoa humana aquele contexto de que hoje se sente a exigência extrema, e o faz exatamente quando se recusa a considerar a pessoa meramente como um « heterossexual » ou um « homossexual », sublinhando que todos têm uma mesma identidade fundamental: ser criatura e, pela graça, filho de Deus, herdeiro da vida eterna.

17 Apresentando à atenção dos Bispos esses esclarecimentos e orientações pastorais, esta Congregação deseja ajudar os seus esforços no sentido de assegurar que o ensinamento do Senhor e da Sua Igreja acerca deste importante tema seja transmitido integralmente a todos os fiéis.

À luz do que se acaba de expor, os Ordinários locais são convidados a avaliar, no âmbito da própria competência, a necessidade de particulares iniciativas. Além disso, se julgarem útil, poder-se-á recorrer a uma ação mais extensa, coordenada a nível das Conferências episcopais nacionais.

Os Bispos serão particularmente solícitos em apoiar com todos os meios à sua disposição, o desenvolvimento de formas especializadas de atendimento pastoral às pessoas homossexuais. Isso poderia incluir a colaboração das ciências psicológicas, sociológicas e médicas, mantendo-se sempre na plena fidelidade à doutrina da Igreja.

Os Bispos, sobretudo, não deixarão de solicitar a colaboração de todos os teólogos católicos, os quais, ensinando o que a Igreja ensina e aprofundando com as suas reflexões o significado autêntico da sexualidade humana e do matrimônio cristão no plano divino, como também das virtudes que este comporta, poderão desta forma oferecer um válido auxílio neste campo específico da atividade pastoral.

Particular atenção deverão ter os Bispos, além disso, ao escolher os ministros a serem encarregados desta delicada tarefa, de modo que estes, graças à sua fidelidade ao Magistério e ao seu elevado grau de maturidade espiritual e psicológica, possam ser de real ajuda às pessoas homossexuais, de forma que elas alcancem o seu bem integral. Tais ministros rechaçarão as opiniões teológicas que são contrárias ao ensinamento da Igreja e que, portanto, não podem servir como diretrizes no campo pastoral.

Será conveniente além disso promover adequados programas de catequese, baseados na verdade acerca da sexualidade humana, na sua relação com a vida da família, tal como é ensinada pela Igreja. Tais programas, com efeito, fornecem um ótimo contexto, dentro do qual pode ser abordada também a questão do homossexualismo.

Esta catequese poderá ajudar inclusive as famílias em que se encontrem pessoas homossexuais, a enfrentar um problema que as atinge tão profundamente.

Deve ser retirado todo apoio a qualquer organização que procure subverter o ensinamento da Igreja, que seja ambígua quanto a ele ou que o transcure completamente. Tal apoio, mesmo só aparente, pode dar origem a malentendidos graves. 

Uma atenção especial deveria ser dedicada à programação de celebrações religiosas e ao uso, por parte desses grupos, de edifícios de propriedade da Igreja, inclusive a possibilidade de dispor das escolas e dos institutos católicos de estudos superiores. Para alguns, tal permissão de utilizar uma propriedade da Igreja pode parecer apenas um gesto de justiça e de caridade, mas, na realidade, ela contradiz as finalidades mesmas para as quais aquelas instituições foram fundadas, e pode ser fonte de mal entendidos e de escândalo.

Ao avaliar eventuais projetos legislativos, dever-se-á pôr em primeiro plano o empenho na defesa e promoção da vida da família.

18. O Senhor Jesus disse: « Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará » (Jo 8, 32). A Sagrada Escritura manda-nos realizar a verdade na caridade (cfr. Ef 4, 15). Deus, que é ao mesmo tempo verdade e amor, chama a Igreja a pôr-se ao serviço de cada homem, mulher e criança, com a solicitude pastoral do nosso Senhor misericordioso. É com este espírito que a Congregação para a Doutrina da Fé endereça a presente Carta aos Bispos da Igreja, na esperança de que lhes sirva de ajuda no atendimento pastoral a pessoas cujos sofrimentos só poderão agravar-se por doutrinas erróneas, enquanto que a palavra da verdade os aliviará.

O Sumo Pontífice João Paulo II, no decurso da Audiência concedida ao Prefeito abaixo-assinado, aprovou e ordenou a publicação da presente Carta, decidida em reunião ordinária desta Congregação.
Roma, da sede da Congregação para a Doutrina da Fé, 1º de outubro de 1986.

Joseph Card. RatzingerPrefeito

+ Alberto BovoneArcebispo Tit. de Cesaréia de Numídia
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