sábado, 20 de agosto de 2011

Governo confirma Jornada Mundial da Juventude com o Papa no Rio em 2013

Sérgio Cabral desembarcou em Madri para oficializar a vinda do pontífice com o Vaticano


O governo estadual do Rio de Janeiro confirmou nesta sexta-feira (19) que a capital fluminense vai sediar a próxima edição da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) com o papa Bento 16 em 2013. Em nota divulgada à imprensa, o Estado informou que o governador Sérgio Cabral desembarcou hoje em Madri, na Espanha, para oficializar a realização do evento no Rio com o Vaticano.
vinda do papa Bento 16 em 2013 será a segunda visita do pontífice ao Brasil e a primeira ao Rio. Ele esteve no País em maio de 2007, mas visitou apenas São Paulo e o santuário de Aparecida do Norte (SP). Antes de se tornar papa, Joseph Ratzinger esteve no país duas vezes. A primeira delas em 1985 e a segunda em 1990.

Foto: APAmpliar
Jovem freira beija a mão do papa durante visita a monastério na Espanha
“A jornada católica, além de agregar os valores que os demais eventos atraem, isto é, hotéis e restaurantes cheios, linhas aéreas e rodoviárias cheias, apresenta o lado espiritual”, disse Cabral. “A esperança do mundo são os jovens, e, no Rio, eles poderão se encontrar para discutir valores importantes do planeta, da existência humana e sobre o que transcende à existência”, completou.
Anúncio oficial
Madri está sediando a Jornada Mundial da Juventude deste ano. O evento teve início na última terça-feira (16) e vai terminar no domingo (21). No encerramento, o papa Bento 16 anunciará oficialmente a próxima sede do encontro. Jovens do País escolhido vão receber das mãos do pontífice a Cruz Peregrina, símbolo do evento católico.
A jornada de Madri conta com a participação de mais de 1,5 milhão de jovens de 182 países. O Brasil é o sexto em número de peregrinos, com pelo menos 16 mil participantes. Quase metade deles - 7,5 mil - é do Estado do Rio, segundo o governo estadual.
Histórico
Criada em 1986 por João Paulo II, a JMJ já reuniu, segundo estimativas do Vaticano, aproximadamente 13 milhões de jovens católicos, e não católicos também, ao longo desses 25 anos. Na programação há missas, momentos de oração, palestras, apresentações musicais e de dança, além de uma vigília.
Até hoje, nove cidades também já receberam a jornada: Buenos Aires, na Argentina (1987); Santiago de Compostela, na Espanha (1989); Czestochowa, na Polônia (1991); Denver, nos Estados Unidos (1993); Manila, nas Filipinas (1995); Paris, na França (1997); Toronto, no Canadá (2002); Colônia, na Alemanha (2005); e Sidney, na Austrália (2008).

Fonte: Ultimosegundo.IG

Bento XVI: “A Universidade tem sempre sido a casa onde se busca a verdade própria da pessoa humana”


Sua Santiade manteve um encontro com 1000 professores, na Basílica de SanLorenzo de El Escorial, onde sublinhou que “não é uma casualidade que tenha sido a Igreja quem promoveu a instituição universitária”

Como professor entre os demais, o Papa pediu aos professores que transmitiam o ideal universitário aos seus alunos …

“Os jovens necessitam autênticos mestres, pessoas abertas à verdade total nas diferentes áreas do saber” declarou o Sumo Pontífice

O cardeal Rouco Varela, assegurou que o Papa é a luz que os guiará no desenrolar cristão da sua tarefa intelectual e educativa.

Madrid, 19 agosto de 2011 – A Jornada Mundial da Juventude (JMJ) Madrid 11 saiu da cidade por umas horas que a acolhe, para se transladar um pouco mais para norte, para o Real Sitio de El Escorial, um lugar que não é desconhecido para o Papa, que já o visitou, em 1989, como perfeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

Num ambiente festivo e colorido, com togas e capelos de diferentes disciplinas, teve lugar o encontro do Papa com mais de 1000 professores e investigadores de todo o mundo. Este encontro tem a marca do constante empenho do Santo Padre para contribuir para a reflexão entre a ciência e a fé (com precedentes em Ratisbona, na Alemanha, do encontro dos Bernardinos em Paris ou em Westmister Hall). No evento estive presente o ministro da Educação, Ángel Gabiondo que cumprimentou o Papa à entrada da Basílica.

Durante este encontro com jovens docentes, Bento XVI defendeu o papel que tem a instituição universitária hoje em dia. “A universidade foi, e está chamada a ser sempre, a casa onde se busca a verdade própria da pessoa humana”. Nesse sentido, o pontífice deixou claro que “não é casualidade que fosse a igreja quem promoveu a instituição universitária, pois a fé cristã fala-nos de Cristo como o Logos por quem tudo foi feito (cf. Jo 1, 3)”.

Além disso, o Papa assegurou que “a universidade encarna um ideal que não se deve desvirtuar nem por ideologias fechadas ao diálogo racional, nem por servilismos a um lógica utilitarista de simples mercado, que olha para o homem como mero consumidor”.

Por outro lado, o Papa convidou aos docentes a que transmitam esse ideal universitário de propor e acreditar na fé perante a inteligência dos homens, enquanto os advertiu que não basta ensiná-lo mas também vivê-lo. “Os jovens precisam de mestres autênticos: pessoas abertas à verdade total nos diversos ramos do saber, capazes de escutar e viver, dentro de si mesmos, este diálogo interdisciplinar”. Seguidamente, usou Platão como exemplo: “«Busca a verdade enquanto és jovem, porque, se o não fizeres, depois escapar-te-á das mãos» (Parménides, 135d)”.

O Santo Padre quis animá-los “a não perder jamais tal sensibilidade e encanto pela verdade, a não esquecerdes que o ensino não é uma simples transmissão de conteúdos, mas uma formação de jovens a quem deveis compreender e amar.” Para Bento XVI, “não podemos avançar no conhecimento de algo, se não nos mover o amor; nem tão pouco amar uma coisa em que não vemos racionalidade”. Nesse sentido, pediu aos professores que sejam humildes. “Na actividade intelectual e docente, a humildade é também uma virtude indispensável, pois protege da vaidade que fecha o acesso à verdade.”

Para finalizar, motivou-os a voltar sempre a olhar para Cristo e fez uso do tema da JMJ “Radicados n’Ele, sereis bons guias dos nossos jovens.” E concedeu-lhes a sua bênção.

Antes do discurso de Bento XVI, o Cardeal Arcebispo de Madrid Antonio María Rouco Varela manifestou a gratidão de variados sectores da vida universitária, especialmente de Espanha, pela decisão do Papa de incluir este encontro no programa da JMJ. Esta é a primeira vez que sucede na história das Jornadas.

Rouco assinalou que “os jovens universitários, que acolheram com tanto calor e afecto, estão muito conscientes que a Palavra do Papa será para eles, nestes momentos tão críticos para a humanidade, luz que os guiará no desenvolvimento cristão da sua tarefa intelectual e educativa.”

Também tomou a palavra em nome de todos os professores, Alejandro Rodrígiues de la Peña, doutorado em história, vice-reitor da Universidade San Pablo CEU e director do Colégio Mayor de San Pablo de Madrid. Rodriguez de la Peña agradeceu ao Papa o “fecundo magistério sobre a vocação universitária e, em particular, entre a ciência e a fé, e sobre o lugar vital da religião revelada na sociedade actual.” Além disso, afirmou que a “recente beatificação do cardeal John Henry Newman foi para todos os católicos um sinal eloquente da importância que vossa Santidade atribui a dimensão intelectual da vivência cristã”.

Neste encontro participou a Escolania del Monastério, que interpretou a “Avé Maria” do compositor e celebre polifonista do renascimento espanhol, Tomás de Vitoria
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Fonte: JMJ

Condição dos Operários - Rerum Novarum

Caríssimo leitor, 


Papa Leão XIII
Pouquíssimas pessoas sabem que a Igreja Católica foi a primeira a defender os trabalhadores da exploração do capitalismo e do socialismo.  


As pessoas que vivem gritando slogans fornecidos por pessoas ou entidades interessadas em denegrir a imagem da Igreja Católica, deveriam, primeiro, se informar mais. 

 O objetivo deste post é mostrar parte da encíclica "Rerum Novarum", publicada pelo Papa Leão XIII, em 15 de maio de 1.891, onde a Igreja examina a situação das classes inferiores e o conflito do trabalho com o socialismo e o com o capitalismo.  Leão XIII pedia uma conciliação entre as partes, para evitar a violência e as mortes.  Porém, a luta de classes e de ideologias aconteceu e matou muita gente (AQUI) .  Alguns pontos da encíclica abaixo.   
Causas do conflito2. Em todo o caso, estamos persuadidos, e todos concordam nisto, de que é necessário, com medidas prontas e eficazes, vir em auxílio dos homens das classes inferiores, atendendo a que eles estão, pela maior parte, numa situação de infortúnio e de miséria imerecida. O século passado destruiu, sem as substituir por coisa alguma, as corporações antigas, que eram para eles uma protecção; os princípios e o sentimento religioso desapareceram das leis e das instituições públicas, e assim, pouco a pouco, os trabalhadores, isolados e sem defesa, têm-se visto, com o decorrer do tempo, entregues à mercê de senhores desumanos e à cobiça duma concorrência desenfreada. A usura voraz veio agravar ainda mais o mal. Condenada muitas vezes pelo julgamento da Igreja, não tem deixado de ser praticada sob outra forma por homens ávidos de ganância, e de insaciável ambição. A tudo isto deve acrescentar-se o monopólio do trabalho e dos papéis de crédito, que se tornaram o quinhão dum pequeno número de ricos e de opulentos, que impõem assim um jugo quase servil à imensa multidão dos proletários.
A solução socialista3. Os Socialistas, para curar este mal, instigam nos pobres o ódio invejoso contra os que possuem, e pretendem que toda a propriedade de bens particulares deve ser suprimida, que os bens dum indivíduo qualquer devem ser comuns a todos, e que a sua administração deve voltar para - os Municípios ou para o Estado. Mediante esta transladação das propriedades e esta igual repartição das riquezas e das comodidades que elas proporcionam entre os cidadãos, lisonjeiam-se de aplicar um remédio eficaz aos males presentes. Mas semelhante teoria, longe de ser capaz de pôr termo ao conflito, prejudicaria o operário se fosse posta em prática. Pelo contrário, é sumamente injusta, por violar os direitos legítimos dos proprietários, viciar as funções do Estado e tender para a subversão completa do edifício social.

9. Não luta, mas concórdia entre classes....O erro capital na questão presente é crer que as duas classes são inimigas natas uma da outra, como se a natureza tivesse armado os ricos e os pobres para se combaterem mutuamente num duelo obstinado. Isto é uma aberração tal, que é necessário colocar a verdade numa doutrina contrariamente oposta, porque, assim como no corpo humano os membros, apesar da sua diversidade, se adaptam maravilhosamente uns aos outros, de modo que formam um todo exactamente proporcionado e que se poderá chamar simétrico, assim também, na sociedade, as duas classes estão destinadas pela natureza a unirem-se harmoniosamente e a conservarem-se mutuamente em perfeito equilíbrio. Elas têm imperiosa necessidade uma da outra: não pode haver capital sem trabalho, nem trabalho sem capital.
A concórdia traz consigo a ordem e a beleza; ao contrário, dum conflito perpétuo só podem resultar confusão e lutas selvagens. Ora, para dirimir este conflito e cortar o mal na sua raiz, as Instituições possuem uma virtude admirável e múltipla.
E, primeiramente, toda a economia das verdades religiosas, de que a Igreja é guarda e intérprete, é de natureza a aproximar e reconciliar os ricos e os pobres, lembrando às duas classes os seus deveres mútuos e, primeiro que todos os outros, os que derivam da justiça.
Obrigações dos operários e dos patrões10. Entre estes deveres, eis os que dizem respeito ao pobre e ao operário: deve fornecer integral e fiel-mente todo o trabalho a que se comprometeu por contrato livre e conforme à equidade; não deve lesar o seu patrão, nem nos seus bens, nem na sua pessoa; as suas reivindicações devem ser isentas de violências e nunca revestirem a forma de sedições; deve fugir dos homens perversos que, nos seus discursos artificiosos, lhe sugerem esperanças exageradas e lhe fazem grandes promessas, as quais só conduzem a estéreis pesares e à ruína das fortunas.
Quanto aos ricos e aos patrões, não devem tratar o operário como escravo, mas respeitar nele a dignidade do homem, realçada ainda pela do Cristão. O trabalho do corpo, pelo testemunho comum da razão e da filosofia cristã, longe de ser um objecto de vergonha, honra o homem, porque lhe fornece um nobre meio de sustentar a sua vida. O que é vergonhoso e desumano é usar dos homens como de vis instrumentos de lucro, e não os estimar senão na proporção do vigor dos seus braços. O cristianismo, além disso, prescreve que se tenham em consideração os interesses espirituais do operário e o bem da sua alma. Aos patrões compete velar para que a isto seja dada plena satisfação, para que o operário não seja entregue à sedução e às solicitações corruptoras, que nada venha enfraquecer o espírito de família nem os hábitos de economia. Proíbe também aos patrões que imponham aos seus subordinados um trabalho superior às suas forças ou em desarmonia com a sua idade ou o seu sexo.
Mas, entre os deveres principais do patrão, é necessário colocar, em primeiro lugar, o de dar a cada um o salário que convém. Certamente, para fixar a justa medida do salário, há numerosos pontos de vis-ta a considerar. Duma maneira geral, recordem-se o rico e o patrão de que explorar a pobreza e a miséria e especular com a indigência, são coisas igualmente reprovadas pelas leis divinas e humanas; que comete-ria um crime de clamar vingança ao céu quem defraudasse a qualquer no preço dos seus labores: «Eis que o salário, que tendes extorquido por fraude aos vossos operários, clama contra vós: e o seu clamor subiu até aos ouvidos do Deus dos Exércitos»(6). Enfim, os ricos devem precaver-se religiosamente de todo o acto violento, toda a fraude, toda a manobra usurária que seja de natureza a atentar contra a economia do pobre, e isto mais ainda, porque este é menos apto para defender-se, e porque os seus haveres, por serem de mínima importância, revestem um carácter mais sagrado. A obediência a estas leis — pergunta-mos Nós — não bastaria, só de per si, para fazer cessar todo o antagonismo e suprimir-lhe as causas?

Gaste um tempo e leia a íntegra da "Rerum Novarum"  aqui : Vatican.va

Vaticano II ? Sim, mas qual ? e Bento XVI, Papa.


Vaticano II ? Sim! Mas, qual ?
Seg, 25 de Janeiro de 2010 15:16
Dom Henrique Soares
Muita gente interpretou e interpreta o Concílio Vaticano II como uma ruptura com o passado. É comum até mesmo em salas de aula de cursos de teologia encontrar professores ridicularizando gostosamente a Igreja "pré-conciliar". Segundo essa mentalidade, antes do Concílio tudo era imperfeito e a Igreja era um museu: autoritária, alienada e afastada do mundo...  Após o Concílio, ao invés, tudo é maravilhoso, tudo se faz novo e deve ser fazer de novo! Certamente, tal interpretação é totalmente equivocada. Bento XVI a chama de hermenêutica da descontinuidade. Segundo o Papa, o modo correto de compreender o Vaticano II é a hermenêutica da reforma: na força do Espírito Santo a Igreja viva vai sendo sempre e gradualmente reformada... O Vaticano II é apenas mais um evento desse contínuo processo que vai de Cristo até o fim dos tempos. O Concílio não rompeu com o passado, mas o relê e o reinterpreta no presente... Vejam só algumas frases de Bento XVI, no seu discurso de final de ano à Cúria Romana neste 2005:

“Por um lado, dá-se uma interpretação que gostaria de chamar de 'hermenêutica da descontinuidade e da ruptura'; com freqüência pôde servir-se da simpatia dos meios de comunicação, e também de uma parte da teologia moderna. Por outra parte, dá-se a 'hermenêutica da reforma', da renovação na continuidade do único sujeito-Igreja, que o Senhor nos deu; é um sujeito único do Povo de Deus em caminho”.
“A hermenêutica da descontinuidade corre o risco de acabar em uma ruptura entre a Igreja pré-conciliar e a Igreja pós-conciliar. Afirma que os textos do Concílio como tal não seriam a autêntica expressão do espírito do Concílio. Seriam o resultado de compromissos nos quais, para alcançar a unanimidade, teve-se que lutar contra muitas coisas velhas que hoje são inúteis. No entanto, o verdadeiro espírito do Concílio não se revelaria nestes compromissos, mas nos impulsos para o novo que estão subentendidos nos mesmos: só estes representariam o verdadeiro espírito do Concílio e partindo deles e em conformidade com eles haveria que seguir adiante. Precisamente porque os textos refletiriam somente de maneira imperfeita o verdadeiro espírito do Concílio e sua novidade, seria necessário ir corajosamente mais além dos textos, deixando espaço à novidade na que se expressaria a intenção mais profunda, ainda que todavia não clara, do Concílio. Em uma palavra, não haveria que seguir os textos do Concílio, mas seu espírito…”
Depois de criticar duramente essa hermenêutica da descontinuidade, o Papa alerta para a necessidade de interpretar e viver o Concílio no espírito de continuidade com a grande Tradição da Igreja. Nesta perspectiva, sim, o Vaticano II já deu e continuará dando inúmeros e preciosos frutos à Igreja de Cristo!
O discurso do Santo Padre pode ser lido neste mesmo site, no link "Bento XVI". O Papa faz também um belíssimo elogio a João Paulo II Magno. Acho que vale a pena dá uma olhada...

Bento XVI, Papa
Sáb, 02 de Maio de 2009 21:30
Côn. Henrique Soares da Costa
            Habemus Papam! – Anunciou o Cardeal Proto-diácono da Igreja Romana. E, para a surpresa de muitos – a minha foi enorme! – o escolhido para ser o Sucessor de Pedro foi o Cardeal Ratzinger. Surpreendente também o nome que adotou: Bento. Da eleição para cá já se disse de tudo sobre o novo Papa. A maioria da mídia trata-o de modo depreciativo e totalmente injustificado. Sugiro ao meu caro leitor alguns pontos para reflexão. 


(1) A eleição de um Papa não é uma jogatina política. Um radialista de nossa Capital chegou a dizer que o conclave era um conchavo. A ignorância desculpa tudo; o “douto” radialista está desculpado. O conclave que elegeu o atual Papa não foi uma armação. Muito pelo contrário: o Cardeal alemão não queria ser Papa, não fez campanha... Tanto durante as reuniões preparatórias quanto na homilia da Missa de abertura do próprio conclave, externou com clareza seu pensamento, sem meias palavras, sem se camuflar - como fazem os candidatos, sem procurar agradar. Os cardeais não são trapaceiros; são homens de fé; têm consciência da responsabilidade de seu cargo e de que prestarão contas a Deus. Neste conclave foi surpreendente a rapidez da eleição, o que indica uma convergência de pensamento por parte dos cardeais. Por incrível que pareça, Joseph Aloisius Ratzinger, com suas idéias claras e firmes, fez convergir para si o pensamento dos eleitores. 

(2) Muitos estão dizendo: esse Papa é sem carisma; não é comunicativo, é conservador. Mas, que é um papa? Seria um comunicador pop? Não! É o Bispo de Roma, escolhido para ser o pastor maior da Igreja de Cristo, testemunhando o Senhor diante do mundo. A única pergunta que Jesus fez a Pedro, antes de confirmá-lo no seu ministério foi esta: “Tu me amas?” Não perguntou ao Pescador da Galiléia se tinha jeito com o povo, se falava mais de um idioma, se era conservador ou progressista... O que os católicos esperam do Santo Padre, o que a Igreja espera, é que seja fiel ao Evangelho e à Tradição Apostólica perenemente guardada pela Igreja sob a guia do Espírito do Ressuscitado. É este Evangelho, crido, guardado e anunciado na Igreja e pela Igreja que ilumina o mundo com a luz de Cristo. 

(3) Também é preciso cuidado com os rótulos! Chamam, sem mais, este Papa de conservador. É sempre falsa uma qualificação de alguém de modo tão simplista. É verdade que há na Igreja sensibilidades diversas; mas não é verdadeiro que essa diversidade chegue, atualmente, ao ponto da contraposição. Pode-se dizer que o pensamento do Papa atual é conservador, no sentido em que ele prioriza no seu pensamento a manutenção dos grandes valores humanos e cristãos. Neste sentido, ele é igual a João Paulo II. Mas, não é correta a afirmação que ele é um radical, um reacionário ou um homem duro, sem visão e sem caridade. Isso é mentira. Mentira – é a palavra! Ratzinger é um homem manso, humilde, afável e tímido. É um homem que sabe escutar e argumentar. Muitos dos sabidões que vi criticar o novo Papa na televisão é que só dialogam com quem pensa como eles... Na verdade, o grande problema desses senhores amigos do mundo é que desejam uma Igreja sem convicções, uma Igreja que não faça mais que correr atrás do mundo, não para evangelizá-lo com a luz do Cristo, mas para paparicá-lo, justificando tudo aquilo que, na sua auto-suficiência ele decreta ser correto e verdadeiro. Mas, uma Igreja assim, um papa assim, serviriam ainda para alguma coisa? Teriam ainda algo de cristão? Nesta quarta-feira, em sua primeira Missa como Papa, apresentou suas prioridades: ecumenismo, as diretrizes do Concílio Vaticano II, a missão, os jovens, a colegialidade episcopal. Prioridades de um homem aberto ao presente e ao futuro. Aliás, conheço um pouco o pensamento do atual Papa, pois minha tese de mestrado foi sobre sua teologia. Bento XVI vai surpreender a muitos: seu pontificado será fecundo para a Igreja. 

(4) Os católicos estão contentes. Rezamos, pedindo ao Senhor um Papa. Ele no-lo deu. Para nós, não é importante se ele é alemão ou brasileiro, se é jovem ou idoso, se é conservador ou progressista. Nossa fé nos ensina que ele é o Sucessor de Pedro, pastor universal da Igreja de Cristo, a quem devemos amar e ouvir. É uma questão de fé naquele que entregou a Pedro e a seus sucessores as chaves do Reino dos Céus. Um católico deve ter o cuidado para não cair na armadilha dos critérios dos meios de comunicação, que se fundamentam em idéias simplesmente humanas e superficiais, alheias à vivência madura da nossa fé. O mundo deseja show e novidade; nós – e todos os homens e mulheres de boa vontade – queremos profundidade e seriedade que nos ajudem a caminhar em meio a uma existência tão complexa como a atual. 

(5) Pessoalmente, emocionei-me e senti imenso orgulho de ser católico, quando escutei o nome do Cardeal Ratzinger. Achei encantador que os cardeais não tivessem nenhum medo do que iam pensar, do que iam dizer aqueles que sempre criticaram o antigo Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Aliás, a imprensa gosta de recordar que esta Congregação é a antiga Inquisição. É mentira. É o antigo Santo Ofício. Também não é verdade que o Cardeal Ratzinger expulsou da Igreja o ex-frade e ex-teólogo católico Leonardo Boff. Como Prefeito da Congregação para Doutrina da Fé, o Cardeal simplesmente cumpriu o seu dever: chamou o teólogo para explicar-se por causa de um livro que escreveu com idéias contrárias à fé católica. Ante a recusa do teólogo em obedecer às orientações da Igreja, Ratzinger determinou um ano de silêncio, sem dar aulas, palestras ou escrever, para repensar suas afirmações teológicas. Não adiantou. Mesmo assim, não houve outra punição. Poderia ter havido, pois nenhum teólogo católico pode ensinar coisas contrárias à fé da Igreja. Boff deixou o ministério porque quis e por outras razões, de ordem pessoal. Hoje, Boff não é mais teólogo católico, como também Hans Küng, que nutre ódio doentio pelo novo Papa. Esses senhores não têm muito a nos dizer sobre a Igreja. Suas palavras são cheias de amargura, recalque e espírito de desforra. Nada disso vem de Deus. Só os que não amam a Igreja dão valor ao que tais pessoas dizem... 

(6) Uma última observação. Quando escuto esses “doutores” tão entendidos em teologia e vida da Igreja, ponho-me a perguntar: Mas, esse pessoal reza? Esse pessoal procura combater seus vícios e crescer na virtude? Esse pessoal se confessa? Comunga? Ama Jesus de verdade? Porque, sinceramente, muitos falam de um modo que se vê claramente que pensam as coisas com o espírito do mundo e não passam disso. 

Quanto aos católicos e todas as pessoas de boa vontade, alegremo-nos pelo novo Papa. Que ele seja o que o seu nome significa: Benedictus, Bendito, Abençoado. 
Dom Henrique Soares
Bispo Auxiliar de Aracaju

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Algemas são para bandidos: desagravo dos delegados de polícia federal


Após as prisões, determinadas pela Justiça,  de 38 pessoas  envolvidas em desvio do dinheiro do povo, no Ministério do Turismo, o ministro de Justiça, José Eduardo Cardoso e a presidente Dilma Rousseff ficaram "indignados" (aqui)  com o uso de algemas pelos policiais.  

Cardoso e Dilma ameaçaram punir a Polícia Federal por ter algemado os que foram presos por ordem judicial. 

A Associação de Delegados da Polícia Federal - ADPF - publicou nota de desagravo contra a "indignação", que segue abaixo.  


Nota de Esclarecimento: atuação da Polícia Federal no Brasil12/08/2011 - 18:31
A Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal vem a público esclarecer que, após ser preso, qualquer criminoso tem como primeira providência tentar desqualificar o trabalho policial. Quando ele não pode fazê-lo pessoalmente, seus amigos ou padrinhos assumem a tarefa em seu lugar.
 A entidade lamenta que no Brasil, a corrupção tenha atingido níveis inimagináveis; altos executivos do governo, quando não são presos por ordem judicial, são demitidos por envolvimento em falcatruas.


Milhões de reais – dinheiro pertencente ao povo- são desviados diariamente por aproveitadores travestidos de autoridades. E quando esses indivíduos são presos, por ordem judicial, os padrinhos vêm a publico e se dizem “ estarrecidos com a violência da operação da Polícia Federal”. Isto é apenas o início de uma estratégia usada por essas pessoas com o objetivo de desqualificar a correta atuação da polícia. Quando se prende um político ou alguém por ele protegido, é como mexer num vespeiro.
A providência logo adotada visa desviar o foco das investigações e investir contra o trabalho policial. Em tempos recentes, esse método deu tão certo que todo um trabalho investigatório foi anulado. Agora, a tática volta ao cenário.
Há de chegar o dia em que a história será contada em seus precisos tempos.
De repente, o uso de algemas em criminosos passa a ser um delito muito maior que o desvio de milhões de reais dos cofres públicos.
A Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal colocará todo o seu empenho para esclarecer o povo brasileiro o que realmente se pretende com tais acusações ao trabalho policial e o que está por trás de toda essa tentativa de desqualificação da atuação da Polícia Federal.
A decisão sobre se um preso deve ser conduzido algemado ou não é tomada pelo policial que o prende e não por quem desfruta do conforto e das mordomias dos gabinetes climatizados de Brasília.
É uma pena que aqueles que se dizem “estarrecidos” com a “violência pelo uso de algemas” não tenham o mesmo sentimento diante dos escândalos que acontecem diariamente no país, que fazem evaporar bilhões de reais dos cofres da nação, deixando milhares de pessoas na miséria, inclusive condenando-as a morte.
No Ministério dos Transportes, toda a cúpula foi afastada. Logo em seguida, estourou o escândalo na Conab e no próprio Ministério da Agricultura. Em decorrência das investigações no Ministério do Turismo, a Justiça Federal determinou a prisão de 38 pessoas de uma só tacada.
Mas a preocupação oficial é com o uso de algemas. Em todos os países do mundo, a doutrina policial ensina que todo preso deve ser conduzido algemado, porque a algema é um instrumento de proteção ao preso e ao policial que o prende.
Quanto às provas da culpabilidade dos envolvidos, cabe esclarecer que serão apresentadas no momento oportuno  ao Juiz encarregado do feito, e somente a ele e a mais ninguém. Não cabe à Polícia exibir provas pela imprensa.
A ADPF aproveita para reproduzir o que disse o ex-ministro Márcio Thomaz Bastos: “a Polícia Federal é republicana e não pertence ao governo nem a partidos políticos”.
Brasília, 12 de agosto de 2011
Bolivar Steinmetz
Vice-presidente, no exercício da presidência
Fonte: www.adpf.org.br




Abortistas sofrem (outra) derrota histórica

agosto 18, 2011 por Wagner Moura
Prof. Hermes Rodrigues Nery e o deputado federal João Campos: apelo por trabalho conjunto entre católicos e evangélicos no Congresso Nacional
Lembram do PL 1135/91? Era o projeto dos abortistinhas para legalizar o “procedimento” no Brasil por demanda da mulher. Em 2008 rezamos, blogamos, fomos a inúmeras audiências públicas em Brasília – eu fui em uma!! -, fizemos de tudo e conseguimos 33 votos a 0 contra o tal projeto, na Comissão de Família e Seguridade Sociail, numa derrota histórica para o lado negro da força. Eles ficaram loucos… 33!!! Risos. Idade de Cristo… O pessoal da fundação Ford e McArthur gritava: “For Screwtape sake, noooo!!!! Nooo!” Aí o projeto seguiu para a comissão de constituição e justiça e foi, outra vez, derrotado. Seria arquivado caso o petista José Genuíno não tivesse conseguido assinaturas suficientes para levá-lo ao plenário. Tenso…
Pois bem, meus amiguinhos! No domingo, 14, o projeto foi abortado! É que se extinguiu o prazo para o rearquivamento do dito cujo. E estamos livres dessa criatura! O Prof. Hermes Nery e amigos comemoraram o feito com uma visita, no dia 16 de agosto, à Basílica de Nossa Senhora da Conceição Aparecida (SP).
A boa notícia quem me deu foi o próprio Prof. Hermes Rodrigues Nery que, na quarta-feira, 3 de agosto de 2011, oprosseguiu o lobby pró-vida no Congresso Nacional, em Brasília.
Em conversa com lideranças evangélicas e católicas, ele fez um apelo para que as duas bancadas atuem juntas, somando forças, especialmente para evitar a legalização do aborto no Brasil. Uma demonstração dessa unidade acontecerá dia 31 de agosto, por ocasião da 4ª Marcha da Cidadania pela Vida, promovida pelo Movimento Brasil Sem Aborto: durante a marcha, evangélicos, católicos, espíritas e outras forças da sociedade civil estarão entregando o abaixo-assinado pela aprovação do Estatuto do Nascituro.
O relatório de mais um dia de lobby pró-vida na Câmara dos Deputados você lê abaixo.
***
EVANGÉLICOS E CATÓLICOS SOMARÃO FORÇAS NA DEFESA DA VIDA
Prof. Hermes Rodrigues Nery, Coordenador da Comissão Diocesana em Defesa da Vida e Movimento Legislação e Vida, da Diocese de Taubaté; Diretor-Executivo do Movimento Nacional da Cidadania Brasil Sem Aborto e Coordenador da Campanha “São Paulo pela Vida”. 
Às 7h já estava novamente a bordo do avião, pela primeira vez, muito cedo, vendo pela janela o céu límpido e leve. Assim que decolou, pude ver a capital paulistana no início de mais uma manhã de intensa atividade. Dizem que o perigo está justamente na decolagem e na aterrizagem, e quando a asa do avião dá aquela inclinada com a grande urbe abaixo, não dá para esconder o frio na barriga. Antes de entrar na aeronave, fiz a oração pedindo a intercessão de São Cristovão, pelo êxito de mais uma viagem. E a vista da megalópole, vai tomando proporções de um quadro surreal. Logo o piloto avisa que já é possível utilizar o notebook, e podemos então fazer anotações e leituras durante o vôo.
A batalha que não pode ser perdida         
O maior desafio hoje é evitar a aprovação da ADPF 54, que tramita no Supremo Tribunal Federal. Se os ministros a aprovarem, estará aberta a porteira para a legalização do aborto no Brasil pela via judiciária. Trata-se portanto de uma batalha que não pode ser perdida. Nesse sentido, justifica-se a mobilização popular. Vencida a batalha no Legislativo, com a vitória sobre o PL 1135/91, resta agora colocar um dique ao ativismo judicial do STF, que já mostrou, ao longo deste ano, do que está disposto e a que interesses está servindo. A equiparação da união homossexual à instituição familiar, e mais recentemente, o aval dado à marcha pela legalização da maconha, mostrou ao povo brasileiro que os nossos juízes estão comprometidos com a agenda inumana e anti-cristã contida no PNDH3, uma agenda internacional que vai se impondo e quer cravar sua bandeira definitivamente no solo brasileiro. A questão do aborto é mesmo a ponta do iceberg. Mas ainda não sabemos o que fazer em relação à ADPF 54, o certo é que não devemos ficar de braços cruzados, pois precisamos estar além do ceticismo e do indiferentismo. Trata-se de uma batalha decisiva, neste momento. Batalha que não pode ser perdida.
Pouco mais de uma hora de viagem, já foi possível ver o cerrado do planalto central brasileiro: a vista da cidade planejada da capital federal, tendo a sua volta um crescimento desordenado. Mais próximo da chegada, as mansões à volta do lago, com suas piscinas e pomares.  Enfim, o avião pousou em solo brasiliense.
“ – Para o anexo III da Câmara dos Deputados”, solicitei ao taxista, que me explicou que em Brasília agora cobram bandeira 2, durante o dia, por uma determinação do governo distrital, para estimular os taxistas a trabalharem nos pontos do aeroporto, transferindo, é claro, o ônus ao passageiro. Já no caminho, os artigos dos jornais dão o tom do que encontrei nos corredores e gabinetes do Congresso, ao conversar com os parlamentares: “o país está sem rumo, a falta de liderança e de capacidade política da presidente é evidente”, pois “o problema central é que Dilma não se conseguiu firmar como liderança com vida própria”, afirmou  Marco Antônio Villa, no artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo (em 03.08.2011, intitulado “Dilma e seus governos”, página A2). Ainda no táxi, o motorista contou-me que “a chefona” – como ele a chamou – pode ter o mesmo fim – ou até pior – que o de Collor.
Dias depois, FHC explicou que quando a presidente Dilma “começa a fazer uma faxina, quebram-se as peças da engrenagem toda” e reconheceu que no atual sistema republicano “se troca governabilidade por favores, cargos e tudo o mais que se junta a isso” (O Estado de São Paulo, 07.08.2011, p. A2).  O fato é que o governo empacou, mas mesmo assim, tenta a todo custo impor a agenda contida no PNDH3. Por isso a questão do aborto continuará sendo a mais problemática, e que o governo, apesar do imbroglio político decorrido da corrosão moral, se sente impelido pelas pressões internacionais a por em execução a agenda, para satisfazer a lógica do poder. A crise de valores evidenciada na campanha presidencial de 2010, vai se acentuando no governo de Dilma Roussef, cada vez mais pesaroso.
A estratégia de jogar para o STF a pauta espinhosa dos temas polêmicos, agudiza ainda mais o desprezo do lulismo pela democracia representativa. Com um Legislativo mais subserviente e inquieto, resta o ativismo judicial do STF para sedimentar a ideologia lulista, nas entranhas das estruturas sociais, bastante fragilizada. Em outro artigo, de dois dias antes, também lemos que “no Brasil, a maior evidência da crise política é o crescente esvaziamento do Congresso Nacional, principalmente em razão da força avassaladora das medidas provisórias, em clara usurpação da função legislativa pelo Poder Executivo”. E continua salientando que “o esvaziamento é também a razão de ser do muitas vezes controverso ativismo judicial. Essa, todavia, tem sido uma forma de suprir a omissão legislativa em matérias para as quais a Constituição prescreveu a edição de leis”. (O Estado de São Paulo, A Crise Política, artigo de Everardo Maciel, Caderno Economia, em 01.08.2011, página B2).
Na questão do aborto, não houve “omissão legislativa”, pelo contrário. Depois de  20 anos, conseguimos sepultar o PL 1135/91, corroborando assim com o sentimento da expressa maioria do povo brasileiro, que é contra o aborto, e em defesa da vida. Diante, pois, do ativismo judicial, só há um meio legítimo de colocar um dique ao afã da usurpação: proclamar em tom cada vez mais solene a soberania do povo brasileiro, daí a necessidade de intensificar os esforços pela mobilização popular, e pelos meios previstos na Constituição que garantam o exercício do direito à cidadania. Por isso, estamos empenhados na Campanha “São Paulo pela Vida” (http://www.diocesedetaubate.org.br/portal/?p=824 ), que visa incluir o direito a vida, desde a fecundação, na Constituição do estado de São Paulo, via iniciativa popular. Dessa forma, poderemos com as assinaturas que estamos colhendo, mostrar aos poderes constituídos que o povo é soberano porque detém a legitimidade do poder constituinte, que o STF tem o dever de fazer respeitar.
Prossegue o lobby pró-vida
No Congresso Nacional, em meio ao ir e vir de tanta gente pelos corredores, a agitação era ainda maior porque o Ministro da Agricultura estava em uma das Comissões dando satisfação aos parlamentares sobre as denúncias de corrupção de sua pasta. Detive-me um certo tempo na sala, acompanhando as suas explicações, negando tudo e respondendo a todos com precisão técnica. Do lado de fora, próximo à porta de saída do plenário, abarrotavam-se jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas para entrevistarem o ministro, ao término da sabatina, que terminou quase ao meio da tarde. Encontrei mais tarde o ministro, já livre dos holofotes, em outro corredor, com passo rápido e com alguns assessores, quando dois deputados lhe acenaram dizendo: “E então, como foi? Conseguiu dar uma surra neles?” Ao que o ministro respondeu: “Acho que me sai bem. Vamos ver amanhã o que a imprensa dirá!”

Na Comissão de Seguridade Social e Família, com o Deputado Federal Eros Biondini, da bancada católica
Na Comissão de Seguridade Social e Família, no intervalo da sessão, conversei com o deputado mineiro da bancada católica, Eros Biondini, reforçando a necessidade de busca de iniciativas que intensifiquem a mobilização popular, especialmente na próxima marcha de 31 de agosto. “É importante a soma de esforços entre a bancada católica e evangélica”, para que realmente haja uma frente capaz de deter o rolo compressor da agenda abortista. Tivemos o mesmo tom de conversa com o Deputado Federal João Campos,  Presidente da Frente Evangélica, solicitando apoio ao Movimento Brasil Sem Aborto, e a convergência de ações para o êxito da marcha, ocasião em que será entregue o abaixo-assinado de apoio ao Estatuto do Nascituro. Ficou evidente o consenso da necessidade deste esforço conjunto, para que os cristãos mais unidos possam alavancar outras iniciativas para deter o PNDH3, especialmente no afã de legalizar o aborto como estratégia de controle social.
No retorno ao aeroporto, foi possível ver novamente pela janela, já começo da noite, a vastidão do planalto central, e os pontilhados de luz de Brasília, irem sumindo aos poucos, até a aeronave alcançar a altitude da rota rumo a São Paulo.
Ação de graças em Aparecida pelo arquivamento definitivo do PL 1135/91

Fátima Lima, Mariangela Consoli de Oliveira e Prof. Hermes Rodrigues Nery diante da imagem de Nossa Senhora, na Basílica de Aparecida
Dias depois pudemos celebrar, no domingo, festa da Assunção de Nossa Senhora, o prazo para o rearquivamento do PL 1135/91 se extinguir, consolidando assim a grande vitória pró-vida no campo legislativo nacional, após a histórica votação do 33 x 0, em 7 de maio de 2008, na Comissão de Seguridade Social e Família (http://juliosevero.wordpress.com/2008/05/11/“foi-uma-vitoria-e-tanto-nunca-vi-isso-acontecer-no-congresso-nacional”/ ). No dia seguinte, em 16 de agosto, estivemos na Basílica de Nossa Senhora da Conceição Aparecida (SP), em oração de Ação de Graças, pela intercessão de Nossa Senhora, que permitiu o arquivamento definitivo do PL 1135/91, lembrando as palavras da Evangelium Vitae, 105, em que o papa João Paulo II exclamou: “Maria, a Vós confiamos a causa da vida!”. Vencida a batalha no campo legislativo, resta agora reforçarmos as orações e o trabalho intensificado para evitar a aprovação da ADPF54 pelo Supremo Tribunal Federal.

Abortos espontâneos

                                           
Dr. Drauzio Varella
Dr. Drauzio Varella entrevista o Dr. Mário Burlacchini


Dr. Mario Burlacchini é médico, especialista em Medicina Fetal e assistente do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.


Depois de um atraso menstrual, algumas mulheres perdem sangue e acham que finalmente menstruaram. Estavam enganadas. Na verdade tinham engravidado e estavam eliminando o embrião recém-formado. Depois, engravidam novamente e levam a gestação a termo, muitas vezes sem saber que tiveram um abortamento silencioso que não deixou sequelas.  


Dr. Mário Burlacchini
De certo modo, parece haver uma espécie de seleção natural associada ao abortamento espontâneo, especialmente se ocorreu até a oitava semana da gravidez. Em torno de 60% dos casos, os embriões apresentavam alguma malformação ou alteração genética e foram eliminados naturalmente.
Há mulheres, no entanto, que apresentam abortamentos sucessivos, o que pode abalá-las emocionalmente e interferir no relacionamento do casal. Muitas são as causas que explicam essa interrupção espontânea da gravidez. Embora em alguns casos seja impossível determiná-las, para a grande maioria existe tratamento.
CONCEITO DE ABORTAMENTO
Drauzio – Qual o conceito médico que define um episódio de abortamento?
Mario Burlacchini – Considera-se abortamento a interrupção da gravidez até a 20ª, 22ª semana, ou seja, até o quinto mês de gestação. Além disso, é preciso que o feto esteja pesando menos de 500 gramas para definir o episódio como aborto espontâneo ou provocado.
Drauzio – Vamos imaginar que a gravidez seja interrompida na 15ª semana e o feto ultrapasse os 500 gramas. Embora isso seja quase impossível de acontecer, o episódio ainda seria definido como abortamento?
Mario Burlacchini – É muito difícil um feto normal pesar mais de 500 gramas nessa fase da gravidez, a não ser que apresente um aumento de peso patológico, como ocorre nos casos de hidropsia, por exemplo. De qualquer modo, só é considerado abortamento se o feto não ultrapassar os 500 gramas.
Drauzio – A partir de 20, 22 semanas e 500 gramas de peso, como se classifica a interrupção da gravidez?
Mario Burlacchini – Entre a 22ª e a 36ª semana de gravidez, concentra-se a faixa de prematuridade.  Nesse caso, a interrupção da gravidez é considerada parto prematuro que pode ser espontâneo ou eletivo e iatrogênico, quando o médico precisa interromper a gestação por algum motivo especial.
PATOLOGIA FREQUENTE
Drauzio – Os abortamentos espontâneos são muito mais frequentes do que se imagina, porque existem aqueles que são silenciosos e contrariam o conceito geral de que ocorrem depois de dois ou três meses de gravidez, quando a mulher tem um sangramento importante.
Mario Burlacchini – O aborto é uma patologia muito freqüente no ser humano. Desde o momento em que a mulher percebe que está grávida, ou seja, em que tem um atraso menstrual e o teste de gravidez dá positivo, a taxa de abortamento fica em torno de 15%. No entanto, se considerarmos período anterior ao teste positivo, porque demora algumas semanas para isso acontecer, esses números podem chegar a 30% ou 40%.
Drauzio – Quer dizer que se considerarmos o total de gestações a partir do momento em que ocorre e fecundação, de 30% a 40% terminam em abortamento espontâneo? Por quê?
Mario Burlacchini – As causas são muito variáveis. Para boa porcentagem dos abortos, em torno de 30% ou 40%, não se consegue definir nenhuma etiologia, nenhuma causa específica. Para os 60% restantes, é possível identificar a causa, em geral considerando o momento em que ocorreu o abortamento, se foi precoce ou mais tardio.
Drauzio – Poderíamos dizer que existiria, durante a gestação, uma espécie de seleção natural e que esse número expressivo de mulheres que perde espontaneamente os filhos seria sinal de gestações inadequadas e de fetos malformados?
Mario Burlacchini – Com certeza, a seleção natural existe e esse é um argumento que utilizamos para consolar o casal diante da decepção da gravidez interrompida. Quanto mais precoce o aborto, maior a possibilidade de o feto não estar bem formado. Estudos mostram que em 60% das gestações que não ultrapassam a oitava semana, há alguma alteração genética, principalmente cromossômica, como a que está presente na síndrome  de Down, por exemplo.
Drauzio – ­Os abortamentos são mais comuns em que fase da vida reprodutiva?
Mario Burlacchini – São mais comuns principalmente acima dos 35 anos da mulher. É também nessa faixa etária que aumenta a possibilidade de malformações e anomalias fetais que levam ao abortamento espontâneo.
Drauzio – Há alguma relação com a idade paterna?
Mario Burlacchini – Não há nenhum estudo que comprove haver relação entre abortamento espontâneo e a idade paterna. Atualmente, alguns estudos levantam a suspeita de que a idade paterna possa estar relacionada com malformação fetal, principalmente com displasia esquelética, ou seja, malformação de ossos e do tamanho do tórax.
ABORTAMENTOS HABITUAIS
Drauzio – O que diferencia o abortamento esporádico do habitual?
Mario Burlacchini – O abortamento pode ser esporádico. A mulher engravida e sofre um abortamento, mas depois tem duas ou três gestações normais. Para ser classificada como abortadora habitual, precisa ter três ou mais abortos sucessivos, os chamados de abortos de repetição, e é uma paciente que merece ser investigada. No passado, só se pensava em estudar essas pacientes depois do terceiro episódio. Hoje, com o desenvolvimento da medicina, acha-se muito cruel esperar que ocorram três abortos para começar a investigação. Por isso se preconiza que, havendo disponibilidade de exames, a pesquisa comece depois do segundo aborto sucessivo.
Em se tratando de saúde pública, porém, isso não é fácil de realizar e a investigação das causas de abortamento começa, em geral, depois de três ou mais abortamentos.
Drauzio – Bem no início da gravidez, podem ocorrer abortamentos silenciosos difíceis de serem identificados. A menstruação ocorre depois de uns dias, às vezes, uma ou duas semanas depois da data prevista e o fato é interpretado como atraso menstrual e não como abortamento espontâneo.
Mario Burlacchini – Em geral, esses abortamentos não são diagnosticados. São abortos subclínicos, muito precoces, e não há como comprovar que realmente ocorreram. Atualmente se acredita que sejam ligados à linha imunológica, à rejeição do hospedeiro contra o antígeno, ou seja, imunologicamente a mulher rejeita a gravidez porque o embrião é um corpo novo que se instala no organismo materno, que o reconhece como estranho e provoca sua eliminação.
Drauzio – Em medicina, existe uma analogia entre gravidez e tumor maligno, porque o feto não é igual à mãe. Na verdade, se retirarmos um fragmento de pele de um bebê recém-nascido e o enxertarmos na mãe, ela rejeitará a pele do filho. Como, então, o feto consegue crescer no interior de um organismo diferente sob o ponto de vista imunológico sem ocorrer rejeição?
Mario Burlacchini – No momento da implantação do embrião, certos linfócitos e macrófagos do sistema imunológico são ativados. De um lado, são ativadas células que potencializam a resposta imunológica (linfócitos T helper ou auxiliadores) e de outro, o próprio embrião produz fatores supressores que vão estimular a produção de células imunologicamente competentes, capazes de bloquear a resposta da mãe contra o embrião. Do balanço entre esses mecanismos de ações opostas, resulta o sucesso ou o fracasso da gestação.
Drauzio – Qual é o procedimento para investigar a causa de três abortamentos consecutivos numa mulher?
Mario Burlacchini – A primeira medida é inteirar-se da época em que ocorreu o abortamento, que é considerado precoce até a 12ª semana de gravidez, e tardio entre a 12ª e a 20ª semana. Se foi precoce, as principais causas são as genéticas, as infecciosas ou as imunológicas. Já os mais tardios estão relacionados com a dificuldade de expansão, de crescimento do útero, como as malformações uterinas e a incompetência cervical, isto é, a incapacidade de manter o colo do útero fechado para levar a gravidez a termo.
Nos abortamentos precoces, o casal passa por uma avaliação genética para verificar se há casos de malformação e de problemas genéticos na família e pode ser pedido o cariótipo do casal.
Drauzio – Você poderia explicar o que é cariótipo?
Mario Burlacchini – Cariótipo é o mapa dos cromossomos. Homens e mulherestêm 23 pares de cromossomos. Quando há abortamentos habituais, é comum encontrar no casal o que chamamos de translocação balanceada, ou seja, existe a mudança de posição de algum cromossomo, que é transferido de forma não balanceada para o filho. Isso acontece em 3%, 4% dos casais abortadores habituais que só ficam sabendo do fato quando ocorrem os abortamentos.
Drauzio – Na gravidez que ultrapassa 10 ou 12 semanas, as causas de aborto mecânicas e anatômicas passam a ser as mais importantes?
Mario Burlacchini – É claro que não existe uma parede separando as doze primeiras semanas das subseqüentes, mas usamos essa data como referência. Em geral, os abortos mais tardios estão relacionados com malformações uterinas, como o útero didelfo (dois úteros formados por dois cornos uterinos e dois colos), o útero bicorno (dois corpos uterinos em um só colo), o útero septado (com um fenda na cavidade uterina) e incompetência cervical.
Drauzio – Essa diversidade de formas uterinas são variações anatômicas encontradas com frequência?
Mario Burlacchini – Principalmente o útero bicorno é muito frequente.
ALTERAÇÕES IMUNOLÓGICAS
Drauzio – Quais são as possibilidades de resolver o problema de um casal com alterações cromossômicas, uma vez que não se pode mudar a genética?
Mario Burlacchini – A alteração cromossômica é a mais complicada de todas. Se o casal tem translocação balanceada, o risco de transmiti-la de forma não balanceada para o feto é de 25%. É um índice elevado, uma vez que em cada quatro gestações uma apresentará a alteração.
Como não há tratamento que consiga modificar a genética, a única saída é partir para a fertilização assistida com a doação de oócitos ou de espermatozóides, dependendo do lado que venha o problema.
Drauzio – Qual a conduta quando o aborto ocorre por alteração imunológica, ou seja, a mãe elimina o feto porque o reconhece como um corpo estranho?
Mario Burlacchini – Esse tipo de aborto se chama alo-imune, e o problema deve ser identificado e tratado antes de a mulher engravidar. A genotipagem, ou seja, a pesquisa genética, mostra se há compatibilidade entre marido e mulher. Quanto maior for a compatibilidade genética, maior o risco de aborto. O ideal é que os dois sejam bastante incompatíveis.
Drauzio – Esse é um conceito muito importante. Você poderia repeti-lo?
Mario Burlacchini – Fazendo a genotipagem, identifica-se o grau de compatibilidade entre o homem e a mulher. Quanto maior o número de alelos compatíveis, maior o risco de abortamento. Alelos incompatíveis diminuem a possibilidade de abortos.
Drauzio – Exatamente o contrário do que se deseja nos transplantes.
Mario Burlacchini – É exatamente o contrário do que se deseja nos transplantes. Em vista disso, o tratamento consiste em sensibilizar a mãe com os antígenos do marido, por meio da infusão de leucócitos paternos antes da gravidez, para que ela crie anticorpos e reconheça o embrião quando for implantado em seu útero, já que ele carrega características genéticas do pai. Essa é a causa alo-imune da reação antígeno-hospedeiro. A outra causa imunológica de abortamento é a auto-imune, ou seja, a mulher começa a produzir anticorpos contra si própria. Não é necessário que um corpo estranho se instale dentro dela para desencadear a reação. É o caso da chamada síndrome antifosfolípedes.
Existem também as trombofilias, alterações imunológicas muito valorizadas atualmente, e que podem ser tratadas no caso das abortadoras habituais.
CAUSAS INFECCIOSAS
Drauzio – Quais são as causas infecciosas de abortamento?
Mário Burlacchini – Embora algumas infecções sejam consideradas como causa de abortamento habitual, é muito difícil uma paciente ter três abortos provocados pela mesma infecção. Veja o que acontece com a toxoplasmose, por exemplo, uma infecção que pode ser transmitida da mãe para o feto e que, na fase aguda, quando acontece muito precocemente, leva ao abortamento. No entanto, se a mulher já contraiu essa doença numa gravidez, provavelmente ela não se repetirá na gestação seguinte.
Algumas infecções vaginais, como a clamídea e a vaginose bacteriana, também podem ser causa de abortamento, mas tratadas de forma adequada deixam de representar problema.
Drauzio – Que cuidados a mulher grávida deve ter para não pegar toxoplasmose?
Mario Burlacchini – De preferência antes de engravidar, a mulher deve consultar o obstetra ou ginecologista para uma avaliação pré-concepcional e colher algumas sorologias para infecções como toxoplasmose, rubéola e citomegalovírus. Exceção feita ao citomégalo, se houve contato prévio com os agentes dessas patologias, ela está protegida. Se não houve, contra a rubéola existe vacina.
Contra a toxoplasmose não existe, mas há como prevenir o contágio. Os primeiros cuidados se referem à alimentação. Carnes mal cozidas, verduras cruas e mal lavadas, sanduíches preparados sem a devida higiene não devem fazer parte do cardápio. Ovo cru e casca de ovo, que muitas pessoas comem porque acreditam que tem cálcio e faz bem para os ossos, podem representar também uma fonte de transmissão da doença. É aconselhável, ainda, que a pessoa use luvas quando manipula carnes que podem estar contaminadas.
O mais importante, porém, é evitar o contato com gatos, porque eles são os grandes transmissores da toxoplasmose. Em São Paulo, alguns anos atrás, ocorreram casos da doença adquirida na areia dos parques infantis, onde gatos eliminam dejetos durante a noite liberando o agente transmissor da toxoplasmose. No dia seguinte, não só as crianças, mas todas as pessoas que mexiam nos tanques de areia contaminada adquiriam a infecção.
Drauzio – Quando você diz que se deve evitar o contato com gatos, está se referindo também ao gatinho de estimação?
Mario Burlacchini – Também ao gatinho de estimação. Se a pessoa vai manipular material que contenha fezes ou urina de seu gato, deve pelo menos usar luvas porque as mãos podem ter pequenas escoriações que servem de porta de entrada para a contaminação.
Drauzio – E os pombos, também representam perigo na transmissão da toxoplasmose?
Mario Burlacchini – Acredita-se que o pombo também seja transmissor dessa doença, mas não é tão importante quanto o gato. Na verdade, se não existissem gatos, provavelmente não teríamos toxoplasmose. Talvez o pombo adquira o toxoplasma porque cisca nos lugares em que o gato liberou o agente infectante.
ANOMALIAS ANATÔMICAS
Drauzio – Em relação às variações anatômicas, qual a conduta mais indicada para evitar o abortamento?
Mario Burlacchini – Inicialmente nós sempre tentamos evitar a cirurgia. Se de um lado ela visa à correção de uma anomalia para o útero expandir-se, por outro pode criar um fator de dificuldade para manter a gravidez e até mesmo para a mulher engravidar. São as aderências que aparecem no local do corte onde se forma a cicatriz.
Por isso, é preferível que ela engravide e comece o pré-natal precocemente, pois existem substâncias que facilitam o relaxamento uterino para que ele cresça sem problemas. A progesterona, por exemplo, é um bio-relaxante fácil de administrar que favorece a distensão da fibra muscular uterina e prolonga a gravidez.
Nos casos em que o colo do útero dá sinais de incompetência cervical, ou seja, de que não é capaz de se manter fechado até o final da gravidez, a indicação é uma cirurgia simples chamada circlagem realizada no terceiro mês (12ª, 13ª, 14ª semana). Por via vaginal, são dados pontos no colo do útero para fixá-lo até o final da gestação, quando os pontos são tirados e a mulher entra em trabalho de parto espontâneo.
PERFIL PSICOLÓGICO
Drauzio – Dizem que mulheres mais estressadas e com problemas de ansiedade estariam mais propensas a abortamentos espontâneos. O que existe de científico nisso?
Mario Burlacchini – Pacientes abortadoras de repetição ou habituais têm um perfil de estresse acentuado. Na verdade, trata-se de um circulo vicioso: a mulher fica ansiosa porque teme não conseguir levar a gravidez a termo e isso acarreta dificuldades de manter a gravidez e até mesmo de engravidar.
A gente sabe que a mente comanda o corpo dentro de certos limites. Se a paciente começa o pré-natal muito ansiosa, com muito medo e muito negativismo, vai desencadear fenômenos biopsíquicos que podem levá-la a novo abortamento.
Por isso, o atendimento da paciente abortadora habitual precisa ser multidisciplinar. Ginecologista, obstetra, geneticista, assim como o laboratório e os profissionais que nele trabalham são fundamentais no acompanhamento dessas pacientes.
O apoio psicológico também é muito importante e deve incluir o casal e não só a mulher. É preciso que ela se tranqüilize, tenha confiança no tratamento proposto e esteja disposta a segui-lo direitinho. Não adianta o médico prescrever a medicação, se ela não acredita que seguir o tratamento vai ajudá-la.
Drauzio – Falamos do impacto do psiquismo na gravidez. Agora vamos falar do impacto causado pela repetição dos abortos na psicologia da mulher e na vida do casal que quer ter filhos?
Mario Burlacchini – Não existem estatísticas a respeito do número de mulheres abortadoras habituais que desistem de engravidar, mas são muitas. O abortamento repetido pode levar a problemas familiares e até mesmo à separação do casal. A impossibilidade de ter filhos leva a uma frustração muito grande, uma vez que está arraigada nas pessoas a tradição de casar, ter filhos, criá-los.
Às vezes, a mulher nos procura sozinha e percebe-se que ela está sofrendo pressões por não conseguir engravidar, embora nem sempre seja a causadora do problema. Nas clínicas de esterilidade, não é raro o homem recusar-se a ser avaliado, temendo ser a causa do problema.
Drauzio – O homem sempre acha que a causa está na mulher?
Mario Burlacchini – Na grande maioria das vezes, acha. A situação ainda é pior para as pacientes que engravidam e não mantêm a gravidez, porque fica patente que ele é capaz de engravidá-la e é ela que não consegue manter a gravidez.
Muitos casais chegam ansiosos. Felizmente, no local onde exerço mais o acompanhamento de gestantes com abortamento, temos um serviço de psicologia competente, acostumado a lidar com o casal com esse problema ou com qualquer outro que surja na gravidez.
ACOMPANHAMENTO MÉDICO
Drauzio – A mulher com abortamentos frequentes que tipo de médico deve procurar?
Mario Burlacchini – Inicialmente deve procurar o seu ginecologista que com certeza vai recorrer a outros profissionais. O geneticista fará uma avaliação do casal e, se for localizado algum problema genético, providenciará um encaminhamento para os setores apropriados ou até mesmo para o setor de esterilidade, de reprodução humana para fazer uma fertilização in-vitro, se for essa a opção.
Sob o ponto de vista imunológico, o ginecologista e o obstetra precisarão também de orientações hematológicas, porque os aspectos imunes mexem com a via sangüínea provocando infartos e tromboses que repercutem durante a gravidez.
No caso de malformações, acredito que um ginecologista com experiência seja capaz de lidar com o problema. Hoje, existem médicos que se especializam numa linha específica de abortamento e que podem dar suporte ao ginecologista.