sábado, 30 de abril de 2011

Cerca de 200.000 pessoas na Vigília pela beatificação de João Paulo II


ROMA — Cerca de 200.000 pessoas assistem neste sábado à noite no Circo Máximo, coração de Roma, à Vigília de orações e testemunhos dedicada à beatificação de João Paulo II, no domingo, indicaram fontes da polícia local.
"Sinto sua presença aqui, sinto fortemente", disse o cardeal polonês Stanislaw Dziwisz, que por mais de 40 anos foi o secretário pessoal de Karol Wojtyla e considerado seu "filho adotivo".
Dziwisz, que o acompanhou até a sua morte, no dia 2 de abril de 2005, contou diante da multidão silenciosa e respeitosa que na noite que faleceu o pontífice polonês entoou o Te Deum de ação de graças e não o Réquiem de morte "porque estava convencido de que morreu santo", disse.

"Deu dignidade à morte, morreu como deve morrer um cristão", acrescentou.
Foto da vigília em Roma
A Vigília, que começou às 20h00 locais, é acompanhada por muitos jovens, religiosos e peregrinos provenientes de diversos países, principalmente da Europa, exibindo bandeiras, em sua maioria polonesas, ou iluminando com tochas a esplanada, uma pista para corridas de bigas do Império Romano.
Uma série de vídeos com imagens importantes da vida do novo beato foi exibida no imenso telão instalado atrás do palco sobre o qual convidados emocionados narram seus testemunhos.
"Diante da beatificação de João Paulo II sinto o mesmo que senti depois de sua morte: o profundo sentimento de ter que agradecer a essa pessoa, a esse Papa, por ter dito durante toda a vida sim a Deus", declarou Joaquín Navarro Walls, porta-voz por 21 anos do pontífice polonês, uma das pessoas mais próximas, que o acompanhou na maioria de suas 104 viagens ao exterior.
"Obrigado João Pablo II por essa obra-prima que, com a ajuda de Deus, você fez de sua vida", clamou com a voz embargada Navarro Walls.
"A Igreja não cria santos, apenas os reconhece. João Paulo II já era santo", acrescentou.
Depois, contou a incrível história da cura milagrosa da freira francesa Marie Simon-Pierre, com a qual foi aberto o caminho para a beatificação do primeiro Papa eslavo da história.
"Agradeço a todos estes jovens que estão aqui, João Paulo II está lá em cima com vocês", disse.
Apesar do frio e da umidade, a vigília de orações foi realizada em um ambiente de tranquilidade e foi animada pelo Coro da Diocese de Roma e pela Orquestra do Conservatório de Santa Cecília acompanhados pelo coro da comunidade filipina de Roma e pelo coro Gaudium Poloniae.
Após a Vigília, começa a chamada "noite branca" de orações, durante a qual serão mantidas abertas até o amanhecer oito igrejas do centro de Roma, situadas ao longo do trajeto (cerca de 3 quilômetros) do Circo Máximo à Basílica de São Pedro, onde será celebrada a beatificação no domingo.
Os fiéis poderão se confessar em vários idiomas e se preparar para a cerimônia no Vaticano, que será acompanhada por 86 delegações de todo o mundo.

Fonte: AFP

João Paulo II o "João de Deus" do Brasil

Brasil, 1980, a visita mais esperada e marcante da época sem dúvida foi a de João Paulo II. Cerca de 50 milhões de pessoas acompanhavam pelos meios de comunicações, o famoso beijo do Santo Padre no chão da base aérea de Brasília, por volta das onze da manhã, ao pisar em solo brasileiro. O espaço de aproximadamente 20 centímetros do solo "sagrado", foi marcado a giz e, mais tarde, cuidadosamente recortado como recordação.



A vinda do Papa ao Brasil reuniu nada mais nada menos, que a maior multidão já atraída em toda a história do país ao longo dos tempos. A menção "João de Deus" surgiu a partir de uma canção composta especialmente por ocasião da estadia de João Paulo II no país. Por onde ia, ele era recebido com grande alegria, músicas e rimas; embalava os corações de homens mulheres, jovens e idosos, sempre muito sorridente.


Foram 13 dias inesquecíveis que impressionaram as pessoas que puderam vê-lo e até partilhar com ele alguns momentos de paz e alegria. Na Esplanada dos Ministérios (Brasília), 2,5 milhões de pessoas assistiram e se emocionaram com sua primeira missa no país. Até mesmo alguns presos de comportamento pacífico receberam cinco dias de liberdade por ocasião desse acontecimento.


João Paulo II começou sua peregrinação pelo Brasil, em Brasília; partindo para Belo Horizonte, onde passou algumas horas; em seguida no mesmo dia, para o Rio de Janeiro, onde Sua Santidade ficou comovido ao ver tanta pobreza e, num gesto de amor profundo, doa um de seus anéis a um padre que o acompanhava, dizendo: "Venda este anel pelo preço mais elevado que conseguir e distribua o dinheiro entre favelados." No dia seguinte rumou à cidade de São Paulo, onde celebrou uma missa no Campo de Marte, debaixo de muita chuva, reunindo cerca de 4 milhões de pessoas. Também ele esteve em Aparecida, na Basílica de Nossa Senhora, proferindo as bênçãos sobre a imagem da Mãe Maria.
Suas viagens pelo Brasil terminaram na capital amazônica, onde ele visitou comunidades indígenas e brincou com as crianças de uma das tribos. Ao despedir-se, demonstrou profundo carinho pelo Brasil, dizendo que estaria de volta brevemente, se Deus assim o permitisse.


ELE ESTÁ DE VOLTA!
Pela segunda vez, em 1991, João Paulo II visita a Terra de Santa Cruz a convite da CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Dessa vez foi entre 12 e 21 de outubro, data especialmente escolhida pelo Sumo Pontífice por ocasião do XII Congresso Eucarístico Nacional.


Seu agradecimento a Deus foi especial por poder aceitar o convite feito pelo Episcopado brasileiro. No encerramento do XII Congresso Eucarístico Nacional, que aconteceu na cidade de Natal-RN aos 13 de outubro, o Santo Padre celebrou uma missa, expressando verdadeira satisfação por estar novamente neste país:
"Agradeço a Deus Todo-Poderoso que me permitiu atender ao fraterno convite do Episcopado brasileiro, bem como ao que foi feito por Vosso Presidente, dando-me novamente a oportunidade de beijar o solo e abraçar emocionado esta Terra da Santa Cruz."


O objetivo do Papa foi de renovar o ardor da Evangelização e, na cidade de Florianópolis, pode-se presenciar fortemente um exemplo vivo do assumir a missão, com a beatificação de Madre Paulina. Com isso, fez suscitar em muitos corações a vocação religiosa.


BEM VINDO AO PAPA CARIOCA
João de Deus retorna ao Brasil em 1997, dessa vez desembarcando na cidade do Rio de Janeiro, cidade que já não visitava há 17 anos. Acontecia o II Encontro Mundial do Papa com as Famílias, ocasião essa que foi dada como vitoriosa para a nação católica.


Embora com uma saúde mais debilitada, o Papa demonstrou grande alegria, arrancando risadas dos fiéis na celebração de encerramento do II Encontro Teológico Pastoral, onde proferiu algumas frases de improviso, como: "Se Deus é brasileiro o Papa é carioca; em Porto Alegre dizem que o Papa é gaúcho; na Bahia também".


Sua visita ao Rio de Janeiro durou quatro dias e milhões de pessoas puderam ouvir as várias mensagens de fé e amor que o Sumo Pontífice dava a todos por onde passava. Uma das mensagens mais profundas do Papa foi ao condenar o aborto como um crime abominável e uma vergonha para a sociedade, sendo também causa de destruição para as famílias.


Ao retornar para Roma, o Papa João Paulo II desejou ardentemente que o Brasil se voltasse com olhares especiais para a evangelização das famílias e também da sociedade.


Fonte: Canção Nova

Beatificação de João Paulo II

O Papa João Paulo II será beatificado neste 1º de maio de 2011.  A data foi oficializada no dia 14 de janeiro, com a assinatura do decreto de beatificação pelo Papa Bento XVI, que recebeu em audiência o prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, Cardeal Angelo Amato.

Papa João Paulo II



 O que vem a ser uma Beatificação?

É o reconhecimento oficial que a Igreja faz de que uma pessoa encontra-se no Paraíso, em estado de beatitude, podendo interceder por aqueles que, em oração, recorrem a ela. Ela passa a ser considerada um Beato. (Beato vem do latim beatus e significa abençoado.)

A Beatificação é, pois, uma das etapas existentes no processo que deve culminar com a declaração da santidade de alguém, feita pelo Papa, para todos os fiéis.

Existe uma etapa anterior à Beatificação que também faz parte desse processo que é rigoroso e, na maioria das vezes, longo: Servo de Deus. Nessa primeira etapa deve ser provada pelas investigações que o candidato à beatificação praticou em grau heroico todas as virtudes cristãs.

O candidato ao ser canonização recebe automaticamente o título de Servo de Deus, assim que é a Santa Sé concede licença para a abertura do chamado Processo de Canonização.

Quando o Papa João Paulo II for beatificado, seu processo terá percorrido a etapa inicial e caminha para seu desfecho na canonização.

Para chegar à Beatificação é necessário que um milagre, alcançado através da intercessão do candidato à beatificação, seja reconhecido pela Igreja. Só valem milagres acontecidos após a morte do Beato.  No caso de João Paulo II, houve a cura da religiosa francesa Marie Simon-Pierre Normand, do Mal de Parkinson.    A religiosa Marie Simon-Pierre Normand, do Instituto das Pequenas Irmãs das Maternidades Católicas foi diagnosticada com Mal de Parkinson em 2001. Segundo o testemunho da freira, a cura do Mal, pela intercessão de João Paulo II, aconteceu entre 2 e 3 de junho de 2005, quando ela tinha 44 anos.

João Paulo II já tem um milagre atribuído à intercessão dele. E, quem já fez um, pode fazer outros mais...

A melhor lição que recebemos dos santos, canonizados ou não, é o exemplo de vida e o amor a Deus que nos mostram quando seguem os conselhos do evangelho: "Sede santos como vosso Pai é santo!" (1 Ts 4.3) (JG)

O Rito de Beatificação será presidido pelo próprio Santo Padre, na Basílica de São Pedro, no Vaticano, no II Domingo da Páscoa - conhecido como da Divina Misericórdia, Festa litúrgica instituída pelo próprio João Paulo II.

"A sua vida e o seu Pontificado foram percorridos pelo desejo de dar a conhecer ao mundo todo [...] a consoladora e entusiasmante grandeza da misericórdia de Deus", afirma o diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, padre Federico Lombardi.

Relíquia de sangue

A relíquia que será exposta para veneração dos fiéis em ocasião da Beatificação do Papa João Paulo II é uma pequena ampola com sangue colocada num relicário feito especialmente pelo Escritório de Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice.
Segundo informações divulgadas dia 26 de abril, pelo Boletim da Santa Sé, “nos últimos dias de doença do Santo Padre, o médico pessoal realizou a coleta de sangue para colocar a disposição do Centro de Transfusão de Sangue do Hospital Menino Jesus, em vista de uma eventual transfusão”.

Porém, não houve nenhuma transfusão e o sangue permaneceu conservado em quatro pequenos recipientes. “Dois desses permaneceram à disposição do secretário particular do Papa João Paulo II, Cardeal [Stanisław] Dziwisz [atual Arcebispo de Cracóvia]. E os outros dois permaneceram no Hospital Menino Jesus, devotamente mantido pelas irmãs do hospital”, esclarece a Santa Sé.

Com a beatificação, duas dessas mostras de sangue foram colocadas em dois relicários: a primeira será preservada para veneração dos fiéis durante a cerimônia de beatificação, neste domingo, 1º de maio, e depois será conservada numa pequena urna aos cuidados do Escritório de Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice junto a outras importantes relíquias. 

Já a segunda ampola de sangue, segundo o Vaticano, será concedida ao Hospital Menino Jesus sob os cuidados das religiosas que já durante estes anos preservam a relíquia.

“O sangue se encontra no estado líquido, circunstância que se explica pela presença de substâncias anticoagulantes que estavam presentes nos tubos no momento da coleta”, explica o Boletim da Santa Sé. 




Mensagem da CNBB

Por ocasião da beatificação do Papa João Paulo II

“Deus nos chamou à santidade” (1 Ts 4,7)
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) dirige-se aos católicos e a todas as pessoas de boa vontade para manifestar sua alegria e gratidão a Deus pela beatificação do Servo de Deus, João Paulo II, no próximo dia primeiro de maio. O Papa João Paulo II amava muito o Brasil e visitou nosso País por três vezes. Entre nós, ele foi carinhosamente acolhido e aclamado como “João de Deus”.
A beatificação nos incentiva a aprofundar nossa vocação universal à santidade. Na sua primeira mensagem, ele convidou a todos: “abri as portas a Cristo Jesus!” Sua vida foi um testemunho eloquente de santidade, pela grande fé, amor à Eucaristia, devoção filial a Maria e pela prática do perdão incondicional. A Palavra de Deus foi por ele intensamente vivida e anunciada aos mais diferentes povos. A espiritualidade da cruz o acompanhou na experiência da orfandade e da pobreza, nas atrocidades da guerra e do regime comunista, mas principalmente no atentado sofrido na Praça de São Pedro. De maneira serena e edificante, suportou as incompreensões e oposições, as limitações da idade avançada e da doença.
O mundo inteiro foi edificado pelo seu empenho em favor da vida, da família e da paz, dos direitos humanos, da ecologia, do ecumenismo e do diálogo com as religiões. Revelou-se um grande líder mundial, um verdadeiro “pai” da família humana. Pediu várias vezes perdão pelas falhas históricas dos filhos da Igreja. Ele mesmo foi ao encontro do seu agressor, na prisão, oferecendo-lhe o perdão. Pela encíclica Dives in Misericordia e na instituição do “Domingo da Divina Misericórdia”, manifestou seu compromisso com a reconciliação da humanidade.
Foi um papa missionário. Numerosas viagens apostólicas marcaram seu pontificado e incentivaram, na Igreja, o ardor missionário e o diálogo com as culturas. No Grande Jubileu conclamou e encorajou a Igreja a entrar no terceiro milênio cristão, “lançando as redes em águas mais profundas”. Afirmou e promoveu a dignidade da mulher; ampliou o ensino Social da Igreja e confirmou que a promoção humana é parte integrante da evangelização. Valorizou os meios de comunicação social a serviço do Evangelho. A todos cativou pelo seu afeto e sensibilidade humana; crianças, jovens, pobres, doentes, encarcerados e trabalhadores foram seus preferidos.
O Papa João Paulo II estimulou, especialmente, as vocações sacerdotais, religiosas e missionárias. Aos sacerdotes dirigiu, todos os anos, na Quinta-Feira Santa, sua Mensagem pessoal. Leigos e consagrados foram valorizados e encorajados nos Sínodos a eles dedicados, para promover sua dignidade, vocação e missão na Igreja.
Convidamos, portanto, todo o povo a louvar e agradecer a Deus pela beatificação do Papa João Paulo II. “O Brasil precisa de santos”, proclamou ele na beatificação de Madre Paulina. Sensibilizados por essas palavras, confiamos à sua intercessão a santificação da Igreja e a paz no mundo. Fazemos votos de que seu testemunho e seus ensinamentos continuem a animar a grande família dos povos na construção de uma convivência justa, solidária e fraterna, sinal do Reino de Deus, entre nós.
Brasília, na Solenidade da Anunciação do Senhor,
25 de março de 2011
Dom Geraldo Lyrio Rocha
Arcebispo de Mariana



 Várias fontes

FAMÍLIA EM "CHEQUE"

A mais importante instituição humana,  a família,  vem sendo alvo de ataques, sempre velados, por alguns órgãos da imprensa, como também por iniciativa de alguns políticos ( nem todos,  é verdade), que se dizem representantes da comunidade nacional e que,  de modo velado, procuram atingir as bases dessa instituição que tem seu fundamento na própria palavra de Deus (cf. Gn 1,28).

Um fator, potente destruidor da família e também do ser humano como pessoa, é a liberação do tráfico e do uso de drogas.  É fato inconteste que o uso de drogas simplesmente destrói a família. Digam-nos aqueles que, a duras penas, conseguiram libertar-se de seu uso.

Pois bem, o líder de sua Excelência, a presidente do Brasil,  disse que a  maconha é droga recreativa  , como seu uso só trouxesse recreação para os que a usam.  Mais: o mesmo deputado declarou que iria solicitar apoio para esse infame projeto ao senhor ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e ao governador do Rio de Janeiro, que se tornou tristemente famoso ao afirmar  "...quem não teve uma namoradinha que teve que abortar?",   num total desrespeito à mulher.

Sugiro a esse deputado que antes de pleitear a aprovação de seu projeto que visite a Fazenda da Esperança ,  em Guaratinguetá, onde poderá constatar "ao vivo" a força destruidora de toda e qualquer droga, seja ela qual for.

Acima de tudo, sugiro ao ilustre deputado que consulte a Sagrada Escritura-Bíblia, onde Deus nos manda conservar a vida, respeitá-la, condenando tanto o homicídio quanto o suicídio.

O uso da droga é um suicídio lento, disfarçado.

Dom Luiz Gonzaga Bergonzini
Bispo de Guarulhos


A Religião Contraceptiva: a Reprodução Humana na Mira do Esoterismo e do Socialismo

A Bíblia não tem razão quando diz que o povo de Deus sofre destruição porque lhe falta o conhecimento?  Quantos, no meio do povo de Deus, sabem que Margaret Sanger (1879-1966), que inventou o termo “controle da natalidade”, tinha ligações fortes com a Nova Era, com o socialismo e com a libertinagem sexual?
Em seu primeiro jornal, The Woman Rebel (A Mulher Rebelde), ela confessou: “O controle da natalidade atrai os radicais mais avançados do socialismo porque sua prática mina a autoridade das igrejas cristãs. Algum dia espero ver a humanidade livre da tirania do Cristianismo…” [1]
Sanger também tinha ligações profundas com o nazismo. Antes da 2 Guerra Mundial, Sanger mantinha estreita relação com autoridades da Alemanha nazista, porque o sistema nazista de total planejamento e controle social era muito mais aberto às idéias dela de controle total sobre a reprodução humana.
Enquanto Sanger lutava para promover o polêmico conceito de controle da natalidade nos EUA, na Alemanha não havia nenhuma oposição. O nazismo acolheu de braços abertos a ideologia do planejamento familiar promovida por Sanger. Com sua visão brutalmente baseada na teoria da evolução, o governo nazista via o controle da natalidade como item normal de sua política de planejamento e controle sobre o “animal” humano.
Na Alemanha nazista, a medicina estava a serviço da ideologia do chamado “bem coletivo”. Qualquer medida era válida para se alcançar um bem maior. Podia-se sacrificar vidas “insignificantes”, desde que o resultado fosse melhorar a qualidade de vida de seres humanos produtivos. O nazismo era semelhante ao comunismo em que ajudou a inspirar a cultura materialista de hoje, onde a chamada ciência e avanço tecnológico ignoram o intrínseco valor da vida humana.
Embora os governos atuais não imponham todas as políticas nazistas de controle social, é inegável o papel e empenho dos governos na doutrinação das massas para que vivam conforme um planejamento contraceptivo. O nazismo morreu, porém não morreram nos governos as intenções de controle na área da reprodução.
Os modernos sistemas tecnocráticos de controle populacional e planejamento familiar têm raízes muito profundas nos movimentos ocultistas do século XIX. Antes de Margaret Sanger, Annie Besant (1847-1933), a famosa teósofa inglesa, já distribuía panfletos ensinando os casais a ter menos filhos. Não, ela não atuava na África pagã ou na Índia pagã, mas na Inglaterra majoritariamente evangélica. Com sua nova ideologia, Besant pregava que bênção era ter uma família menor.
Besant, cujo trabalho influenciou Sanger, havia vindo de um casamento fracassado com um pastor evangélico, se envolvendo em seguida com o socialismo, a teosofia, a Nova Era e o lesbianismo. Mas a Inglaterra dita cristã não se importou com o lesbianismo dela, nem com o ocultismo dela nem com o fato de que na Bíblia Deus diz que filhos são bênçãos e que abençoado é o homem que se enche deles.
A religião contraceptiva de Besant, com todas as suas conseqüências, prevaleceu sobre o Cristianismo superficial do povo inglês. A heresia dela não começou nas igrejas cristãs nem atingiu primeiramente as igrejas cristãs.
O alvo dela era um lugar intocável pelos púlpitos das igrejas: a cama dos casais cristãos. Dessa intimidade, longe dos púlpitos, propagou-se uma nova ideologia, uma nova religião que com o tempo engoliu a verdade proclamada a partir dos púlpitos, jogando para o esquecimento a idéia bíblica de que uma família grande é uma bênção grande.
Não é a toa que Sanger fundou na Índia (a mesma Índia venerada pelos místicos esotéricos como Besant) a Federação Internacional de Planejamento Familiar (conhecida pela sigla inglesa IPPF), a maior e mais antiga organização de aborto no mundo inteiro. Hoje, a ONU e a IPPF trabalham juntas para implantar políticas de planejamento contraceptivo nas nações. 
Essas organizações tratam o aborto e o homossexualismo não como assassinato e perversão, mas como direitos humanos inalienáveis. Tal trabalho está em plena sintonia com os objetivos e vontades de ideologia socialista.
Na visão de Besant, de Sanger, do socialismo, da ONU e da IPPF, a contracepção é a rejeição dos “indesejados” e a aceitação do planejamento teosófico, tecnológico, nazista e socialista sobre a reprodução humana. 
Na visão da Bíblia, a contracepção é a rejeição do planejamento de Deus na vida sexual do casal, numa autonomia moderna onde prega-se orgulhosamente a independência do indivíduo — à custa de Deus, mas nunca à custa do Estado.
Fonte e autor: Júlio Severo

sexta-feira, 29 de abril de 2011

João Paulo II mudou o mundo


'Não tenham medo', disse o Papa que mudou o mundo
GDANSK, Polônia — A intervenção do Papa João Paulo II foi decisiva para devolver a confiança aos poloneses, ante a ameaça do regime comunista, e mudar o mundo, relembrou o chefe histórico do sindicato Solidariedade, Lech Walesa.
"Ele nos acordou", declarou em uma entrevista à AFP o ex-presidente polonês, 67 anos, que estará em Roma no dia 1º de maio para a beatificação de João Paulo II.
"Ele disse 'Não tenham medo, mudem a cara do mundo'. Nosso país acordou e outros fizeram o mesmo", acrescentou, mencionando a mensagem do papa feita em sua primeira viagem a Varsóvia em junho de 1979.
Em seu escritório em Gdansk, porto do Mar Báltico onde o primeiro sindicato livre do bloco soviético foi criado, no verão de 1980, o ex-eletricista, que se tornou especialista em cibertecnologia, tirava fotos com seus convidados usando seu tablet e colocando diretamente as imagens em seu blog (lechwalesa.blip.pl), antes de começar a contar suas memórias.
Na época da eleição de João Paulo II, em 1978, poucos militantes estavam ativos nos estaleiros de Gdansk.
"Nós éramos cerca de cinquenta de um total de 17 mil operários, talvez nem isso! E após a eleição do Santo Padre, quase todo mundo se uniu ao movimento quando criamos o Solidariedade", relembrou o Prêmio Nobel da Paz de 1983.
Em 16 meses, o Solidariedade reuniu 10 milhões de membros entre os 36 milhões de habitantes da Polônia, no momento em que o general Wojciech Jaruzelski impunha a lei marcial, em dezembro de 1981.
Lech Walesa não deixou, no entanto, de recordar o papel crucial que ele mesmo desempenhou nesses acontecimentos.
Em Cuba, país que recebeu a visita do papa em 1998, não ocorreu nada "porque não havia ninguém para organizar a oposição", destacou.
A mesma coisa poderia ter acontecido na Polônia "se não tivesse alguém capaz de transformar tudo aquilo em um movimento bem-sucedido. O Santo Padre nos deu o Verbo e nós o transformamos em Carne", acrescentou.
Essa é a visão de um papa que contribuiu para a derrubada da primeira peça do dominó, que futuramente levaria o muro de Berlim à ruína e à queda da União Soviética.
"Como polonês, estou inclinado a admitir que tudo começou com o Solidariedade, do outro lado da barricada", declarou o ex-dirigente comunista à AFP, em agosto de 2005.
"Mas a situação geral precisava amadurecer, também. O aparecimento de 'um papa polonês, em 1978, desempenhou um papel de grande importância, que não teria se fosse 20 anos antes", frisou.
Em 1983, quando João Paulo II foi novamente à Polônia insistiu, junto ao general Jaruzelski para encontrar Lech Walesa, uma figura, então, abominada pelo poder comunista.
Foi "um encontro privado" entre o papa e "o simples cidadão Walesa" acompanhado da família, organizado num refúgio descreto nas montanhas Tatras.
"Os comunistas não queriam. Fizeram tudo para impedir. Mas o Santo Padre estava determinado e me ajudou", contou Lech Walesa.
Fonte: AFP

Instituições católicas conquistam excelência e reafirmam valores


Natalino Ueda / Canção Nova
O Arcebispo de São Paulo, Cardeal Odilo Pedro Scherer destaca que as universidades e faculdades católicas precisam manter sua identidade
A jovem Mariana Guimarães completou o ensino fundamental e médio numa instituição de ensino católica, o que, para ela, foi fundamental na construção de sua formação humana e social. “A educação que recebi lá mudou a minha vida. Todos os valores que aprendia em casa eram vistos na prática com os professores e colegas. Minha formação católica foi um diferencial na minha vida”, destaca Mariana.

O nome de uma universidade católica fez a jovem pensar que lá poderia ter a mesma qualidade de ensino e reafirmação de seus valores onde teoricamente seria a última formação, mas para Mariana, suas expectativas não foram correspondidas.

“Quando entramos numa faculdade católica acreditamos que ela fará jus ao nome. Mas minhas expectativas foram frustradas. Se eu não tivesse me inserido numa pastoral, se quer me daria conta que estudava numa faculdade católica”, conta.

Segundo Mariana, na sala de aula não se via nenhum referencial católico e, por vezes, ela se sentiu até mesmo ferida em discussões com colegas e pela forma como os professores conduziam essas discussões. “Quando havia alguma discussão em relação à Igreja, os próprios professores criticavam ou se omitiam. O que nos era passado é que religião não faria diferença em nossa vida. Quando entramos numa universidade, esperamos que ela corresponda com aquilo que ela se intitula”, ressalta a recém graduada em Direito.

Para a jovem católica, os professores deveriam entender que muitos alunos chegam na universidade com essa expectativa e que eles esperam ao menos respeito aos valores e à religião que professam. “Eles deveriam tomar cuidado para preservar o título da instituição. No mínimo os valores e os alunos católicos deveriam ser respeitados. A universidade deveria ser coerente com aquilo que ela ostenta”, enfatiza.

O Arcebispo de São Paulo, Cardeal Odilo Pedro Scherer, reconhece que as instituições católicas, especialmente as de ensino superior, estão perdendo sua característica cristã devido à inserção de linhas de pensamento relativistas.

“É preciso um esforço para que isso seja superado. Nossas universidades e faculdades católicas precisam manter sua identidade. Os estudantes buscam essa instituições por isso e esperam delas determinados valores e referenciais. E é isso que insistimos junto às organizações de ensino superior e aos colégios católicos: que sejam boas, mas não deixem de ser católicas, que manifestem claramente sua identidade naquilo que propõe como ideais e referenciais de educação”, ressalta o cardeal.

Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro
''Dentro do desenvolvimento da pessoa humana existem valores transcendentes que dão sentido para a vida humana, dentro disso está o relacionamento com Deus'', ressalta padre Jesus Hortal Sànchez.

Formação integral

Ex-reitor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), padre Jesus Hortal Sànchez destaca que o desenvolvimento humano é a primeira preocupação dentro da formação católica, em seguida, a formação da cidadania e, por fim, científica para a realização das atividades profissionais.

“Dentro do desenvolvimento da pessoa humana, existem valores transcendentes que dão sentido para a vida humana, dentro disso está o relacionamento com Deus”, ressalta o padre.

Para o ex-reitor e docente, as instituições católicas sempre primaram pela qualidade de ensino e, hoje, definitivamente são reconhecidas por isso, atraindo não apenas alunos católicos, mas aqueles que professam outras religiões e até mesmo ateus. “Isso mostra que a Igreja está em diálogo com a ciência e a cultura, construindo uma verdadeira união entre fé e ciência”, esclarece.

O reitor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Dirceu de Mello, destaca que os valores fundamentais transmitidos aos alunos são aqueles ligados à pessoa humana, direitos de cada cidadão: direito à vida, ao trabalho, à liberdade de expressão, de ação e do respeito mútuo dentro de uma sociedade republicada e democrática. “Não são apenas valores que transmitimos, mas que praticamos”, enfatiza.

A  estudante Mariana Guimarães destaca que “faz parte também da formação, não ter apenas um pensamento relativista, onde só a formação humana basta, é preciso uma referencial, especialmente numa universidade que se intitula católica”.

Educação católica e as transformação históricas sociais
A Pontifícia Universidade Católica de São Paulo é atualmente uma das principais universidades do Brasil e teve grande papel na defesa dos direitos humanos durante a ditadura militar.

O advogado Pedro Henrique Fiorelli, escolheu para realizar sua graduação numa instituição católica principalmente por seu renome e por ser umas das melhores do país em excelência de ensino.

“O fato de ser católica também motivou minha escolha, mas depois constatei que muitos desses preceitos, em função da característica histórica da universidade, haviam sido deturpados um pouco”, conta Pedro Fiorelli.

Para o jovem advogado, os valores humanos foram transferidos na educação, mas os católicos propriamente não. “Todos os cursos tem em sua grade uma disciplina denominada Introdução ao Pensamento Teologístico, mas até o momento em que eu cursei ela era muito vaga, mas soube que ela foi restruturada”, afirma.

Para Pedro, essa "linha católica" se perdeu devido à  história da instituição, mas a parte humanista foi conservada contrapondo ao prisma positivista da faculdade do Largo São Francisco, em São Paulo.

“O contexto histórico 'laiquizou' a universidade tendo em vista seu posicionamento na época da ditadura”, diz o advogado recordando que muitos pensadores socialistas perseguidos eram acolhidos pela universidade. Porém, segundo ele, a instituição manteve a título "pontifícia" em alguns aspectos. “Houve mesmo uma transformação humanista, mas que ela não fere os valores cristãos”, diz Pedro Fiorelli.

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
O reitor Dirceu de Mello lembra que, como instituição pontifícia, a PUC-SP  tem como grã-chanceler sempre o Arcebispo de São Paulo, presente em diversos eventos.

“As atividades acadêmicas são inteiramente desobrigadas de qualquer compromisso com a religião católica, isso está inserido no estatuto da universidade. Temos aqui  alunos e professores ateus, judeus... Todos estão aqui. O valor fundamental prestigiado pela universidade é o valor católico, pois ela se criou sob a imposição, iniciativa de um cardeal. Mas todos tem liberdade, desde que no magistérios, por exemplo, os professores não agridam esse valores básicos que são prestigiados em nosso estatuto. Mas a liberdade de cátedra é franca”, ressalta o reitor da PUC-SP.

Dirceu de Mello afirma ainda que se um docente não respeitasse tais valores estariam não só desrespeitando o estatuto da própria instituição, mas “estaria contra a instituição que assegura a liberdade”.


O papel da educação católica no Brasil

O Arcebispo de São Paulo recorda que a Igreja Católica foi pioneira no campo da educação escolástica, antes que o Estado admitisse essa função.

Em todo o Brasil, destaca o cardeal, existem escolas e faculdades católicas que trazendo uma educação de forma integral de acordo com os princípios da antropologia cristã, com o objetivo de oferecer um ensino de bom nível para formar pessoas de forma integral.

“A Igreja possui um organismo que acompanha as instituições católicas, a Congregação para Educação Católica e, no Brasil, temos a Anec (Associação Nacional de Ensino Cristãos) que agrega não apenas instituições católicas, mas todas aquelas cristãs”, esclarece Dom Odilo.


Quinta-feira, 28 de abril de 2011, 14h05
Nicole Melhado - Da Redação - Canção Nova



Mudança de paradigma na Doutrina social da Igreja (Cardeal Paul Josef Cordes)


Cardeal Paul Josef Cordes
A minha conferência terá por tema a Mudança de paradigma na Doutrina Social da Igreja – da “Rerum novarum” (1891) à “Caritas in veritate” (2009). E exatamente tal matéria constitui o terreno vital sobre o qual articula-se o Dicastério do Papa Cor Unum, até há pouco tempo, o âmbito do meu trabalho no Vaticano.

Naturalmente, os presentes conhecem o contexto histórico-social e as idéias que basearam a primeira encíclica social da Igreja Católica. Rerum novarum quer dar uma resposta às dramáticas tensões econômicas do ocidente, determinadas pela, assim dita, revolução industrial. Baste mencionar alguns nomes indicativos: Karl Marx e o bispo Emmanuel Von Ketteler (+1877) para a Alemanha, “Os miseráveis” de Victor Hugo, a “Narração de duas cidades” de Charles Dickens, “Tom Sawyer” de Mark Twain. Contra toda esta miséria, a Igreja levantou a própria voz.

Os inícios

A encíclica social de Leão XIII começa com um memorando que resumia reflexões e idéias, entre elas diversas, de vários grupos europeus. A argumentação está orientada à praxe, não é derivada de um programa global científico. Ela tenta determinar uma mudança através de raciocínios capazes de obter um consenso geral – para o bem de todos. Ela se serve de idéias neoescolásticas e jusnaturalísticas e retoma propostas resolutivas teóricas e práticas já pré-existentes.

A Encíclica condena a idéia de luta de classe. Escreve: “... nem o capital pode estar sem o trabalho, nem o trabalho sem o capital. A concórdia faz a beleza e a ordem das coisas...”. Tal relação vem depois pontuada para o âmbito da Igreja, do Estado e dos trabalhadores. O papa se opõe claramente a posições capitalístico-liberais, que ao Estado não reconhecem tarefas reguladoras, mas uma simples função de “guarda-noturno”. O texto trata, além disso, da regulamentação dos contratos de trabalho, porquanto diz respeito aos horários de trabalho, salários e condições de trabalho, e propõe reflexões sobre temas do direito e da justiça.

Com semelhantes linhas-guia, um tanto generalizadas, a Igreja se propõe não como instância diretiva, mas preferencialmente como mestra. Esta é uma primeira conclusão, que um olhar retrospectivo sobre Rerum novarum nos consente tirar. A doutrina social da Igreja visa a sensibilização e responsabilização a respeito de uma precisa situação histórica. Todavia, as questões centrais mencionadas na primeira encíclica papal dizem respeito a temas relacionados à falta de tempo para a vida social dos homens; essas, portanto, não seriam fixáveis com uma única decisão magistral. Se cairia, por isso, no equívoco lá onde se quisesse equiparar a doutrina social da Igreja, por exemplo, à dogmática, ou a assuntos centrais da teologia moral. As suas indicações se concretizam, ao invés, a nível de consciência do sujeito singular.

Há um segundo ponto na Rerum novarum sobre o qual devemos prestar atenção. Em princípio, a doutrina eclesial, nas próprias argumentações, apela primeiramente à inteligência e a razões seculares. As suas instâncias tiveram, por modelo, direitos e deveres do homem universalmente aceitos, e, portanto, apoiados prevalentemente sobre princípios derivados do direito natural. Vemos, por isso, que o enfoque da doutrina social da Igreja, porquanto diz respeito à descrição do ordenamento social, foi inspirado fundamentalmente pela filosofia, e mais precisamente por uma antropologia filosófica. Foi nesta ótica que ela tratou a natureza e o ordenamento da sociedade humana e expôs novos princípios ordenadores. Os re-envios, a elementos de fé e às Sagradas Escrituras, permaneceram antes marginais.

Novos impulsos ricos de desenvolvimentos apareceriam somente na segunda metade do século passado. Tais impulsos tornam-se manifestos durante o pontificado de João XXIII. Em 1963, ele publicou a sua encíclica dedicada à paz, Pacem in terris. Nela, ele não se limita a colocar prevalentemente os clássicos argumentos da filosofia, para por à luz a dignidade do homem, fundando, ao invés, a própria argumentação sobre a Revelação divina. A última base pela dignidade da pessoa humana – assim ele ensina – consta na filiação divina do ser-humano, salvo por meio do sangue derramado por Cristo sobre a cruz.

Através de enquadramentos como aquele atuado por João XXIII, a doutrina social da Igreja se enriquece de um novo elemento de análise. O magistério papal, de uma posição meramente filosófico-racional, passou a abraçar uma perspectiva derivada diretamente da vontade de Deus revelada, e, portanto, da fé. Verificou-se uma passagem da perspectiva filosófica àquela teológica. Trata-se, aqui, de ter presente tal mutação de perspectiva e de tomar consciência.

Quase contemporaneamente aos primeiros passos no campo teológico do Papa João XXIII, no âmbito do Concílio Vaticano II os padres conciliares estavam empenhados com a elaboração da Constituição Pastoral “A Igreja no mundo contemporâneo – Gaudium et spes (GS)”. Nela, encontramos referências a elementos de fé para a compreensão da sociedade e as categorias da doutrina social se aproximam das linhas-guia da fé. A Constituição esclarece em várias formulações como é Cristo, o novo Adão, a “revelar plenamente o homem ao homem e lhe faz conhecer a sua altíssima vocação” (GS-22).

Tais palavras atestam como a doutrina social da Igreja tenha se colocado inteiramente entre um novo horizonte de pensamento: a orientação filosófica se relativiza, enquanto se vai reforçando em seu perfil teológico. Revelação e razão constituem juntas o fundamento da doutrina social da Igreja, as duas posições se determinam mutuamente nas relações da Igreja, seja no seu interior, como no exterior.

Uma nova palavra-chave

Sem dúvida, estas mudanças de perspectiva não aconteceram de um dia para o outro. Já aos tempos do Vaticano II, foram acompanhadas de extenuantes e controversas discussões. Um primeiro, significativo impulso, para uma maior consideração de verdades teológicas no âmbito da doutrina social da Igreja, chegou pelo dominicano francês Marie-Dominique Chenu. A sua argumentação estava centrada sobre a expressão bíblica dos “sinais dos tempos” (Mateus 16, 4). Neles, no seu dizer, se manifestaria onde Deus, aqui e agora e na história da civilização humana, está atualmente presente. Por este motivo, Chenu, a tais sinais, atribui o papel de um “lugar teológico – locus teologicus”. Quer dizer: um dado no qual Deus se revela. As suas idéias foram prontamente publicadas dentro e fora do Concílio.

O impulso de Chenu influenciou profundamente a doutrina social da Igreja até aos nossos dias. Sem mais, alguns teólogos quereriam servir-se do seu uso em sede conciliar da expressão “sinal dos tempos”, para uma leitura completamente nova das fontes teológicas. Afirmam que deveria – qual âncora para uma compreensão mais clara das indicações da Igreja – dar garantias sobre a natureza revelatória.

No entanto, algumas observações de Joseph Ratzinger de 1968[1], em mérito à Constituição, teria podido alertar quanto a tais propostas. De fato, lemos ali que:

“A expressão ‘sinais dos tempos’ remonta, a uma prova preliminar, o ‘texto de Zurique’ (1964). À época da sua individuação, com ela, se quer exprimir como o tempo seja sinal e voz, sendo manifestação da presença ou da ausência de Deus; enquanto tal, a voz do tempo seria, portanto, interpretada como voz de Deus”. Mas tal afirmação, assim nos refere Joseph Ratzinger, foi objeto de acesas críticas no curso das reuniões sucessivas: “A aproximação do provérbio romano (sc. ‘vox temporis – vox Dei’), que no tempo quer reconhecer a voz de Deus, a admoestação escatológica de Jesus diante da cegueira de seu povo – o qual, em busca de sinais, não soube reconhecer nem o seu ensinamento, nem ele mesmo, como sinal escatológico enviado por Deus à sua época – tal aproximação, portanto, foi percebida não só como inadmissível, do ponto de vista exegético, mas também objetivamente problemática”.

Esta crítica de Joseph Ratzinger à Constituição GS revela, ainda uma vez, como o enquadramento da doutrina social católica na Revelação apresenta-se como uma tarefa extremamente complexa, mas que tem que ser enfrentada. Portanto, não se pode senão concordar com Pe. Chenu, quando, durante as reuniões conciliares, admoestou que a análise social contemporânea não podia continuar a basear-se exclusivamente sobre princípios da filosofia natural.

Todavia, o novo fundamento, que ele quer dar à doutrina social, revela um duplo equívoco teológico. O primeiro diz respeito ao próprio conceito de Revelação. A Constituição do Vaticano II Dei verbum ensina que, depois da morte e da ressurreição de Cristo, “não é para esperar-se alguma outra revelação pública” (nº. 4). Com isto, é, portanto, para excluir-se que Deus faça chegar à humanidade, através de determinados acontecimentos na vida dos singulares indivíduos ou de mais pessoas, novas Revelações (“loci theologici”). Pelo mesmo motivo, determinadas formas da Teologia da Libertação carecem de uma legitimação teológica, lá onde estas entendam substituir acontecimentos atuais com a Revelação.

O segundo equívoco teológico reside na anulação da única voz que distingue os ensinamentos sociais da Igreja, afirmando que não se possa mais falar de uma única “doutrina”, mas somente de “doutrinas” pontuais e diferenciadas. Não surpreende, então, que aos tempos e no contexto de tais teses²[2] - depois do Concílio – identidade e carisma da doutrina social se tenham fortemente obscurecidos no pensamento e na catequese da Igreja: uma interpretação inexata do Vaticano II tinha tornado supérfluo uma doutrina social da Igreja. No fim dos anos 60, nós, jovens padres, não nos interessávamos por esta disciplina. A “doutrina social da Igreja” estava morta.

Parece, portanto, óbvio que a Constituição vaticana, sobre “Igreja no mundo contemporâneo”, deixou à doutrina social da Igreja a missão de pensar a própria disciplina. E foi o próprio Magistério que continuou o trabalho de esclarecimento. Mas, antes de referir sobre o Magistério, precisa de uma...

Delimitação epistemológica

Não há dúvida que a doutrina social da Igreja deve referir-se a dados empíricos, ela tem o que fazer com ordenamentos de caráter econômico, social e político. Por estes âmbitos, ela estabelece determinadas normas aptas a garantir-lhe a justiça, que por sua vez deve derivar o próprio meio de medida da verdade do homem e do bem comum. Em conseqüência, a doutrina social tem necessidade de uma exata cognição da realidade constituída, como também de saber filosófico inerente ao ser humano e à justiça. A lei natural não perdeu a atualidade, e a própria Constituição, da qual nos estamos ocupando, continua a fazer referência a ela, indicando-a aos cidadãos, como aquele limite, dentro do qual, é lícito defender os próprios direitos (cf. GS N. 74).

Pode um ensinamento eclesial, todavia, contentar-se com um fundamento, exclusivamente, filosófico? A “pura razão” é suficiente? Uma primeira resposta negativa, encontramos no simples fato de que, hoje, não existe mais “uma” filosofia universalmente válida. E ainda: é legítimo renunciar a um eventual contributo da Revelação ao fundamento de um importante ensinamento da Igreja? Podemos, portanto, reter que o empenho social para a Igreja e o mundo seja inspirado por convicções meramente filosóficas ou políticas?

A tradição da doutrina social da Igreja remonta ao Papa Leão XIII, que a fundou sobre a “reta razão” e sobre sua certeza, imediatamente evidente a qualquer um. Ele acreditava na evidência dos argumentos reconhecíveis à “reta razão”, à exatidão da razão, à sua “verdade”.

A recepção da doutrina social no curso da história confirmou o ponto de vista do Papa Leão – mas só em parte. Já que as dolorosas experiências com a realidade do “pecado das origens” – por exemplo, com o nacional socialismo, com o comunismo-marxismo, com o islamismo – nos constrangem a admitir que a evidência da “reta razão” não é acessível a todos, e que a pura razão não é suficiente para um consenso geral sobre verdade e justiça.

Por este motivo, a doutrina social da Igreja não pode renunciar à verdade da Revelação – não obstante a irrenunciável e firme correlação a verdades empíricas. Qual Igreja do LOGOS, que se fez homem indubitavelmente, ela não esquecerá a “ratio” da razão e, antes, buscará o confronto com ela. Mas nem ao menos calará a origem da luz que lhe confere certeza e capacidade de julgar. Até hoje, acontece que alguns enunciados eclesiais dêem a impressão que, para a realização de um mundo justo, seja suficiente o consenso dos homens de boa vontade e inspirados pela reta razão. A fé, assim, aparece como um delicioso ornamento, um segundo plano – decorativo, mas supérfluo. Além disso, dificilmente se poderá negar que o consenso de razão e boa vontade é sempre obscuro e obstaculado pelo pecado original – não é somente a fé a sugerir isso, mas também a experiência dos séculos passados. 


Não podemos, portanto, fazer menos que reconhecer que a Revelação é indispensável também para a doutrina social da Igreja: só assim, a origem da nossa certeza da “justiça” continuará a ser um LOGOS feito homem.

João Paulo II

Durante o Concílio, o arcebispo de Cracóvia, Karol Wojtyla, interveio resolutamente na assembléia sobre os trabalhos preliminares para a Constituição GS. Ele foi também membro da subcomissão “Sinais dos tempos”, que deu uma significativa contribuição à formação de tal esquema. Todavia, as passagens da Constituição, evidentemente, não lhe pareceram suficientes para o enquadramento da doutrina social nas verdades de fé da Igreja. Como papa, na sua encíclica Sollicitudo rei socialis (SRS; 1987), ele deu um enérgico impulso a fim de que fossem colocados, novamente em relevo, alguns dados teológicos irrenunciáveis.

Em SRS 35-40, as suas intenções assumem contornos claros, a partir do título programático “Uma leitura teológica dos problemas modernos”. O Papa se sente chamado a retomar a temática, pois, no momento da publicação da Encíclica Populorum progressio, quer dizer do ano 1967, os males e os sofrimentos no mundo, evidentemente, não diminuíram. João Paulo II chega à conclusão que a origem de tais males devem ser considerados razões de natureza não somente econômica. Assim fazendo, ele ensina a considerar categorias não mais centradas prevalentemente sobre temas intra-mundanos, técnicos e concretos. Mais vezes ele se lamenta pela falência dos responsáveis. Com as suas ações, eles teriam criado as “estruturas de pecado”, em razão das quais a voz dos pobres não encontrou modo de fazer-se valer. Ele, depois, prossegue mencionando conceitos e enunciados claramente pertencentes ao âmbito da Revelação: os dez mandamentos, o Mal, as formas de idolatria.

Diante de tanta miséria, o Papa conclama com uma exortação: “Para os cristãos, como para todos aqueles que reconhecem o preciso significado teológico da palavra ‘pecado’, a mudança de conduta ou de mentalidade ou do modo de ser se chama, como linguagem bíblica, ‘conversão’ (Mc 1,15)” (Nº 38). Segundo o Papa, ela diz respeito ao indivíduo como também às comunidades. João Paulo II não confia na eficácia somente de apelos à boa vontade e à compreensão humana. Ele vai além da argumentação estreitamente filosófico-naturalística e funda uma solução desejada sobre atos salvíficos divinos, lá, onde diz: “é Deus, em ‘cujas mãos estão os corações dos potentes’, (67) e aqueles de todos, que pode, segundo a sua própria promessa, transformar, por obra do seu espírito, os ‘corações de pedra’ em ‘corações de carne’ (Ez 36,26)”. Mais adiante, o texto indica o próprio Evangelho como fonte dos ensinamentos eclesiais para a doutrina social, e fala da missão evangelizadora da Igreja, frente a qual, às pessoas e instituições, é reconhecido caráter profético. À doutrina social, ele atribui um “lugar” bem preciso no interior das categorias teológicas canônicas: ela “pertence, (...), não ao campo da ideologia, mas da teologia e especialmente da teologia moral” (cf. n. 41 seg.).

As referências teológicas, a quem tivesse noção só pontual das indicações papais em mérito à doutrina social, podem, sem dúvida, parecer esporádicas. Quem, todavia, se dedica ao estudo aprofundado da evolução intelectual da doutrina social, não pode fazer menos do que notá-las. Com o sucessor de João Paulo II no trono papal, a mudança de perspectiva se tornará, enfim, evidente.

Bento XVI

Bento XVI, já no seu primeiro texto doutrinal, a Encíclica “Deus é amor”, tinha dado originais e profundos temas para o empenho da Igreja para a salvaguarda e garantia da dignidade do homem. Ele excluiu que tarefa da Igreja seria aquela de fazer valer um ensinamento político. O Papa lhe desconhece uma identidade política e releva como seu dever central aquele da evangelização, seguindo também, aqui, as pegadas do seu predecessor. Um anúncio com toda clareza da salvação do homem não pode prescindir do Evangelho. O anúncio da morte e ressurreição de Cristo, que constitui a missão de fundo da Igreja, é de grande relevo também para a vida social.

A doutrina social da Igreja, por conseqüência, não representa uma “terceira via”; ela não reivindica algum programa político, a ser realizado, para chegar a uma sociedade perfeita. “A sociedade justa não pode ser obra da Igreja, mas deve ser realizada pela política. Todavia, o empenhar-se pela justiça, trabalhando pela abertura da inteligência e da vontade às exigências do bem, interessa à Igreja profundamente” (DCE, 28a). Quem entendesse a Igreja de outra maneira correria paradoxalmente o risco de encorajar uma “teocracia”, na qual os princípios de fé se tornariam inevitavelmente princípios ordenadores da vida social – válidos tanto para crentes como para não crentes, e a impor, se necessário, com a violência. Frente a semelhantes teses, já o Vaticano II se expressou a favor da liberdade religiosa e pela justa autonomia da ordem criada.

Papa Bento, além disso – em contrapartida, em respeito aos apelos dos papas precedentes, voltados quase, exclusivamente, aos grupos e classes – fez apelo significativamente à responsabilidade de cada indivíduo. Ele se exprime contra a ilusão de que um “estado de providência”, como é praticado por algumas ditaduras, possa erradicar todo o mal deste mundo; nem assim ele releva, “jamais existirá uma situação na qual não ocorra a caridade de cada cristão em particular, para que o homem, além da justiça, tem e terá sempre necessidade do amor” (conforme DCE 29). Do mesmo modo, ele se dirige aos colaboradores das organizações Caritas como indivíduos, descartando, assim, a priori, qualquer coletivismo enganoso (ibid, 33). Se a Igreja necessariamente cria instituições comunitárias para combater miséria e injustiça, não quer isentar cada pessoa do seu empenho específico e individual.

Bento XVI, com a sua encíclica social, publicada em 2009, se religa ao seu primeiro texto doutrinal. Em “O amor na verdade”, ainda uma vez, ele faz do amor o elemento central e mantém, também, o ponto de vista teocêntrico. “Da caridade de Deus tudo provém, por ela tudo toma forma, e a ela tudo tende” (2). Ele fundamenta, como já fez na sua primeira obra doutrinal – o “amor” ao qual faz alusão já na abertura da história da salvação atuada em Cristo.

A sua obra salvífica é habilitadora e inspiradora do pensar e agir do Cristão, no mundo. Verdade e amor são condições duma da outra. “Só na verdade a caridade resplandece e pode ser autenticamente vivida”; e o papa nos ensina que na verdade “a caridade reflete a dimensão pessoal e, ao mesmo tempo, pública da fé no Deus bíblico, que é, ao mesmo tempo, ‘Agápe’ e ‘Lógos’: Caridade e Verdade, Amor e Palavra” (CIV 3).

Na sua explicação da caridade, ainda, uma vez, reconhecemos a intenção do Papa de atribuir, também à perspectiva da doutrina social, parâmetros teológicos inequívocos:

“A caridade é amor recebido e doado. Ela é ‘graça’ (cháris). A sua fonte é o amor que vem do Pai pelo Filho, no Espírito Santo. É amor que do Filho desce sobre nós. É amor criador, pelo qual nós somos; é amor redentor, pelo qual somos recriados. Amor revelado e realizado por Cristo (cf. Jo 13,1) e ‘derramado nos nossos corações por meio do Espírito Santo’ (Rm 5,5). Destinatários do amor de Deus, os homens são constituídos sujeitos de caridade, chamados a fazer-se eles mesmos instrumentos da graça, para infundir a caridade de Deus e para tecer redes de caridade” (5).

O amor do Pai, do Deus criador, e do Filho, o Redentor, infundido em nós por meio do Espírito Santo, nos habilita à vida social sobre a base de determinados princípios. A encíclica releva como fundamental, para o desenvolvimento do ser humano, seja “a centralidade da caridade” (19). O saber – assim continua o texto – capaz de orientar o homem “deve ser ‘temperado’ com o ‘sal’ da caridade” (30). Tais afirmações, de aparências simples e evidentes, trazem, em si, implicações importantes: desvinculada da experiência cristã, a doutrina social degenera em utópica ideologia ou até mesmo em um manifesto político sem alma. A doutrina social, ao invés, empenha, em primeiro lugar, o cristão a concretizar, a encarnar a própria fé, no interior da sociedade, como recita a encíclica: “a caridade manifesta sempre também nas relações humanas o amor de Deus, ela dá valor teologal e salvífico a todo empenho de justiça no mundo” (6). E, mais adiante, o Papa sublinha, ainda uma vez, que, olhando à missão da Igreja, não obstante a sua importância pela realidade terrena, não se pode prescindir das suas metas transcendentais (9).

E, ainda uma vez, não obstante à perspectiva pragmática de apelos dirigidos a grupos, de encorajamentos à política, à legislação e ao empenho comunitário, a palavra é dirigida ao indivíduo. De fato, as mudanças desejadas devem principiar no singular, e só quem dirige a própria atenção, sobre os atores diretos, age de maneira pedagogicamente correta. Vemos, de fato, que os problemas da justiça social nunca tratam somente das relativas questões, mas sempre, também, do homem – e, precisamente, ao singular. Assim, inevitavelmente, a perspectiva se desloca daquela, de um objetivo neutro, àquela, da exortação pastoral.

Estilo e tom da parte final, por isso só surpreendem em um primeiro momento. Seguramente, o gênero literário das reflexões doutrinárias em torno dos problemas no mundo, sobre a justiça entre homens e povos, além de impulsos concretos para uma sociedade melhor, normalmente assume outras formas. Quem, porém, soube reconhecer a intenção de fundo do Papa, não pode, senão, atuar, também ele, naquele voltar-se para Deus, com o qual Bento XVI conclui a sua encíclica social: “o desenvolvimento tem necessidade de cristãos com os braços levantados para Deus no gesto da oração, cristãos movidos pela consciência de que o amor, cheio de verdade, caritas in veritate, do qual procede ao autêntico desenvolvimento, não é por nós produzido, mas nos vem doado. (...) A aspiração do cristão é que toda família humana possa invocar Deus como ‘Pai nosso!’” (nº 79).

Ressonância

À publicação da encíclica social do Papa Bento XVI, seguiram as costumeiras expressões de descontentamento e irritação. Sobretudo ao norte dos Alpes, as tomadas de posições papais são pontualmente pretexto para manifestações críticas. Assim, por exemplo, o “Süddeutsche Zeitung”, de 8 de julho de 2009, escreveu que “estamos em presença de uma mistura infusa de coisas já ditas”. As perfídias de outros jornais europeus nem merecem ser aqui reportadas. Tais jornalistas velozes redigem as suas páginas sem ter uma visão de conjunto e sem raciocinar. Como poderiam, portanto, individuar, naquele texto, o fio condutor do progresso intelectual da doutrina social da Igreja? Quem, ao invés, conhece a fundo a matéria ali, reconhece o prosseguimento e a conclusão de um importante processo: o vínculo de elementos da filosofia natural com dados da Revelação. E em tal progresso intelectual reconhece também uma feliz aproximação da doutrina social católica à ética social protestante.

Aplauso inesperado à encíclica chegou, ao invés, de outra fronte. Seguramente, ninguém poderá suspeitar o “New York Times: de servilismo ou rufianismo nos confrontos da Igreja Católica. Repetidos e pontuais ataques contra o Papa e os bispos católicos deixam supor, antes, animosidade e adversidade. Contudo, o NYT reagiu à encíclica com um comentário extremamente positivo, publicado em 13 de julho de 2009, na primeira página:

“Seja para os liberais como para os conservadores, a Caritas in veritate representa um convite à reflexão a respeito das próprias alianças papéis tornassol. Por que ser a favor da proteção do ambiente deveria excluir, a priori, a proteção do embrião? Por que os republicanos não deveriam denunciar injustiças econômicas? Por que os democratas não deveriam contemplar maiores poderes para instituições e estados? A oposição à guerra no Iraque implica talvez que tudo é permitido, no que concerne aos programas de bioética? Apoiar o livre mercado requer, talvez, ser a favor da pena de morte?

Estas perguntas, e muitas outras semelhantes, são daquele gênero que a eleitores e políticos, em um sistema político sadio, seria consentido explorar.

Por ora, porém, vemos que pô-las é antes o Vaticano de Bento XVI, que não Washington e Barack Obama”.

O claro teocentrismo, com o qual o Papa Bento formula as próprias indicações à doutrina social até agora, conheceu escassa atenção; os próprios estudiosos de ética social católicos demonstraram pouco interesse pela abertura das suas argumentações à Revelação divina e às suas instâncias. Vemos, porém, também que políticos, sociedade e opinião pública não ficaram nada incomodados com a centralização da existência humana e do ensinamento eclesial sobre a fé. A Igreja é novamente aceita, baseando a sua mensagem sobre real e vinculante fundamento da Revelação. Não parece mais forçada a negar, na sua luta pela justiça, o Pai de Jesus Cristo, como fonte de salvação, que transcende a terra.

Um “salto qualitativo”

Gaudium et spes, João Paulo II e Bento XVI indicaram, à doutrina social da Igreja, o caminho para a realidade pós moderna. Eles postulam uma correlação entre razão e fé[3]. Tal relação, no caso do atual papa, é individuada a partir de algumas das suas primeiras indagações teológicas[4]. A mudança de direção paradigmática se cumpre na inequívoca colocação dos enunciados doutrinais à luz da fé. As declarações eclesiais, em mérito a problemáticas sociais, não podem ser lidas ou pronunciadas, prescindindo da palavra salvífica de Deus. Elas se completam somente à luz da Revelação e nesta luz são interpretadas. Contemporaneamente, a luz da Revelação ilumina os aspectos naturalísticos. Ela doa maior realismo às esperanças terrenas, porquanto diz respeito às mudanças sociais desejadas. A consciente aproximação da doutrina social e mensagem bíblica esclarecem que o ser humano não será mais percebido qual mero objeto, mas qual portador de um futuro melhor. E qualquer progresso humano poderá originar unicamente de uma humanidade mais humana. O singular indivíduo, porém necessita não somente de projetos melhores e maiores possibilidades; necessita, também, da salvação e santificação na Igreja.

Teocentrismo vivido

Assim, nós, hoje, não poderemos limitar-nos a uma perspectiva extrínseca no ocuparmos da doutrina social – interessando-nos somente pela questão sobre a sua atualidade. Perguntando-nos se ela aborde temas políticos e econômicos atuais; se oferece, realmente, respostas à miséria do mundo; se ela tenha tendências de esquerda ou de direita. Assim fazendo, praticaremos um acadêmico “l’art pour l’art”. E poderemos estar certos do desprezo do filósofo dinamarquês Sören Kierkegaard, que apostrofou os discursadores de salão como “existências estéticas”. Assim, ele definiu aqueles intelectuais que não aplicam a verdade à própria pessoa. Com este termo, condena aqueles indivíduos que, por toda parte, não reconhecem senão possibilidades; que não se empenham pessoalmente em decisões e relações, mantendo uma relação ambígua a respeito da seriedade do mundo real.

Se, portanto, desejamos deixar para trás a doutrina social como “l’art pour l’art”, devemos pedir-nos qual possa ser o seu ponto de conexão existencial para nós. Quais responsabilidades nos pede de assumirmos aqui e agora? O olhar retrospectivo, sobre o seu percurso histórico, nos mostra, claramente, tal ponto focal: ele diz respeito ao peso que damos a Deus na nossa vida e no nosso empenho – não qual fator descontado, já que somos cristãos praticantes; mas movidos, no centro do nosso coração, pelo Espírito Santo. Mais uma vez é o nosso papa a abrir-nos os olhos.

Por ocasião da celebração do Natal, na sua pregação, ele comentou dos “pastores que se apressam do Evangelho”: “a maioria dos homens não considera prioritárias as coisas de Deus, elas não nos perseguem de modo imediato. E, assim, nós, na grande maioria, estamos bem dispostos a protelar. Antes de tudo, se faz aquilo que aqui e agora parece urgente. No elenco das prioridades, Deus se encontra, freqüentemente, quase que no último lugar. Isto – se pensa, se poderá fazer sempre. O Evangelho nos diz: Deus tem a máxima prioridade. Se qualquer coisa na nossa vida merece pressa sem dúvida, isto é, então, somente a causa de Deus. (...) O tempo empregado para Deus e a partir d’Ele, para o próximo, nunca é tempo perdido. É o tempo, no qual vivemos verdadeiramente, no qual vivemos o próprio ser pessoas humanas”.

[1] Cfr. Das Zweite Vatikanische Konzil, Bd. III, Freiburg 1968, 313ff.

[2] Cfr. ad ES. O. von Nell-Breuning, Krise der katholischen Soziallehre? (Crise da doutrina social da Igreja? Ndt), in StZ 189 (1972), pag. 86-98.

[3] Cfr. in mérito Caritas in veritate n. 31. [4] Com espírito agudo analisa por exemplo a relação recíproca em “Die Bedeutung religiöser und sitlicher Werte in der pluralistichen Gesellschaft”, in Wahrheit,Werte, Macht, Friburgo 1993, 63 ss. Também em Deus caritas est, nº 28, afronta novamente o argumento de maneira aprofundada. Segundo a sua interpretação, entre as duas formas de percepção da verdade não existe uma alternativa; daí deriva que a doutrina social iluminada pela fé não pode renunciar aos ensinamentos da filosofia natural.

Fonte: 31.03.2011 - Arquidiocese-RJ