sábado, 12 de fevereiro de 2011

Vida, Moral e Cultura

A razão da realização da Vigília pela vida nascente nas Igrejas do mundo inteiro – convocada recentemente pelo Papa Bento XVI - está no centro do horizonte da sociedade contemporânea, desafiada diante de uma nova necessidade de sentido para a vida. A questão do sentido é desafiadora porque não se vale materialmente em si. Sua falta revela-se no esgarçarmento da cultura que sustenta a vida, ameaçada em todas as suas dimensões e direções em todo o planeta Terra.

Vida, morte e atividades humanas exigem clareza a respeito do significado que têm. São questões que não se explicam unicamente no âmbito do progresso científico e tecnológico. Em questão está a pergunta acerca da aventura humana de compreender seu sentido e seu destino.

A Igreja, por missão recebida de seu mestre e senhor, Jesus Cristo, sabe e deve ajudar cada ser humano a descobrir Deus - significado último da existência. Tarefa árdua. Em meio a tantos apelos, a Igreja sabe que só Deus responde as aspirações mais profundas do coração humano. Quando o homem contemporâneo não alcança essa meta, sua vida se resume a um horizonte estreito, destituído de valores. Assim, a cultura se enfraquece e dá lugar à violência, à falta de solidariedade e de sensibilidade social.

A perda dos valores produz a decomposição da cultura que sustenta o tecido da vida. Falta-lhe a consistência indispensável que só vem da moral articulada pela força de valores éticos e de princípios inegociáveis. O caos se instala facilmente comprometendo condutas individuais que, por sua vez, comprometem contextos culturais que precisarão de longo tempo para voltar a defender e promover o dom da vida. Assiste-se, então, lamentavelmente, a instalação da cultura da violência, da desordem, da corrupção, da traficância de todo tipo.

Esgarçar uma cultura pela perda de valores é muito mais rápido do que retificá-la com a absorção, a obediência e a vivência desses mesmos valores. Essa tarefa, incluída na missão da Igreja, razão que faz o Papa levantar a voz com uma decisiva convocação há de ser assumida com urgência por diferentes segmentos da sociedade. Culturas comprometidas por violência, droga, corrupção retardam providências para que seja restaurada a moralidade, e recuperados os princípios e valores éticos. A situação da atual sociedade é deplorável, pois justifica respostas de ontem deixando-as para o amanhã, atrasando processos e comprometendo a solidariedade. Falar, promover e educar não pode, absolutamente, ser considerado um atentado à liberdade e à autonomia, direitos insubstituíveis no contexto pós-moderno.

A liberdade e a autonomia precisam respeitar e obedecer a princípios e valores, para que, de fato, sejam sustentáculos da vida. É preciso, mesmo que aos poucos, com coragem e destemor, conscientizar a todos que “A vida é presente gratuito de Deus, dom e tarefa que devemos cuidar desde a concepção, em todas as suas etapas, até a morte natural, sem relativismos”, conforme afirma o Documento de Aparecida.

“A liberalização e banalização das práticas abortivas são crimes abomináveis, como também a eutanásia, a manipulação genética e embrionária, ensaios médicos contrários à ética, a pena de morte e tantas outras maneiras de atentar contra a dignidade e a vida do ser humano” (DA) - esta afirmação dos bispos chama a atenção de todos para o desafio do diálogo entre a fé, a razão e as ciências. Esse caminho é exigente e requer boa vontade e superação de todo tipo de preconceito. Não se pode desejar a vida, a paz, a fraternidade e a felicidade sob a lógica do lucro e da eficácia.

É urgente a superação da indiferença diante do sofrimento alheio e dos ataques à vida - desde a fase intrauterina até a que configura exclusão social. A vida depende, na sua sustentabilidade e sentido, da cultura edificada sobre valores e princípios advindos da ética e da moral.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo é Arcebispo Metropolitano da Arquidiocese de Belo Horizonte.
Belo Horizonte, 03 de dezembro de 2010.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Pedofilia e Igreja Católica

O crime de pedofilia é o assunto do momento.
E, por causa do envolvimento de pouquíssimos
padres, chegaram a atribuir à Igreja Católica a responsabilidade pelos crimes.

É comum ouvirmos posições e julgamentos simplistas. Deste tipo:fulano de tal, da pastoral, me ofendeu, não volto mais para a Igreja. O padre tal foi mal educado, vou mudar de religião. O padre tal cometeu um erro qualquer, o Bispo não fez nada. A Igreja não toma atitudes. Essa posição simplista, de generalizar tudo, é um grande erro.

A Igreja Católica, fundada por Jesus Cristo, não comete erros. Quem comete erros são as pessoas. A Ordem dos Advogados não comete erros. Quem comete erros são alguns advogados. O Conselho de Medicina não comete erros. Quem comete erros são alguns médicos. No Brasil, há cerca de 18.000 padres. Há uma meia dúzia de acusados e presos por pedofilia.

Os erros não são da Igreja Católica, cujas regras e mandamentos devem ser seguidos por todos os católicos, sejam padres ou leigos. O erro, o pecado, é individual. O crime de pedofilia praticado por um padre, por um pai, por um padrasto, por um amigo, é pessoal e individual. A responsabilidade por um crime é de quem o pratica. E a penalidade, a punição cabe somente a ele. O crime não se transfere às instituições, como a Igreja, a Ordem dos Advogados, o Conselho de Medicina.

Estabelecido isso, vem a questão da punição. O que podem o Bispo, o Presidente da Ordem dos Advogados, o Presidente do Conselho de Medicina fazer ? As legislações internas de todas essas instituições permitem, no máximo, a suspensão do direito de continuar atuando na área. O médico deixa de ser médico, o advogado deixa de ser advogado e o padre volta ao laicato.

As instituições não têm o poder de polícia ou justiça. Não podem prender ninguém nem mandar uma pessoa para a cadeia. Então, fica parecendo que os representantes das instituições não fizeram nada. Fica parecendo que o Bispo não fez nada, que o Presidente da OAB não fez nada e que o Presidente do CRM não fez nada. A questão criminal deve ser apurada pela Polícia e julgada pela Justiça.

No âmbito interno, o Papa Bento XVI determinou que sejam apuradas, em qualquer parte do mundo, desde os anos 40, todas as denúncias que forem levadas à Igreja. No Brasil, os Bispos responsáveis pelos padres acusados de pedofilia os afastaram imediatamente. Os padres serão julgados pela Justiça.

Existem aspectos negativos e positivos desses fatos. É um fato negativo ter um padre cometendo um crime. Mas, para a sociedade, há um aspecto positivo. O fato de ter um padre denunciado é um motivo para toda a imprensa – jornal, rádio, televisão - divulgar a existência do crime de pedofilia, muitas vezes com o objetivo de atingir a Igreja. Mas, também noticia outros casos. Outro dia, foi denunciado um homem que mantinha a sobrinha, de 13 anos, presa num porão há 5 anos, com dois filhos dele, no meio de ratos, com sarna, numa situação de indignidade total. A mulher do denunciado tinha conhecimento. Os vizinhos fizeram a denúncia. Diariamente, estão surgindo novos casos, de pais, padrastos, vizinhos, cometendo crimes contra crianças, sejam do sexo masculino ou feminino.

A grande maioria desses crimes é cometida dentro da família. Embora a Igreja Católica não seja a responsável por atos criminosos de alguns de seus membros, ela está servindo de luz para iluminar e livrar muitas crianças desses crimes horrorosos.

A Igreja Católica está sofrendo com a existência de crimes até dentro dela. Mas, também, está sendo instrumento de alerta aos católicos e a todas as pessoas do mundo: é preciso vigiar e cuidar das crianças, com muito mais atenção, em qualquer ambiente que elas estejam.

E, também, denunciar todas as pessoas que estiverem cometendo crimes, independentemente de serem pais, professores, padres, médicos, advogados, políticos ou de qualquer outra identidade social.

Cem anos de pedofilia (o cristianismo no combate à pedofilia)

Cem anos de pedofilia
Na Grécia e no Império Romano, o uso de menores para a satisfação sexual de adultos foi um costume tolerado e até prezado. Na China, castrar meninos para vendê-los a ricos pederastas foi um comércio legítimo durante milênios. No mundo islâmico, a rígida moral que ordena as relações entre homens e mulheres foi não raro compensada pela tolerância para com a pedofilia homossexual. Em alguns países isso durou até pelo menos o começo do século XX, fazendo da Argélia, por exemplo, um jardim das delícias para os viajantes depravados (leiam as memórias de André Gide, “Si le grain ne meurt”).

Por toda parte onde a prática da pedofilia recuou, foi a influência do cristianismo — e praticamente ela só — que libertou as crianças desse jugo temível.

Mas isso teve um preço. É como se uma corrente subterrânea de ódio e ressentimento atravessasse dois milênios de história, aguardando o momento da vingança. Esse momento chegou.

O movimento de indução à pedofilia começa quando Sigmund Freud cria uma versão caricaturalmente erotizada dos primeiros anos da vida humana, versão que com a maior facilidade é absorvida pela cultura do século. Desde então a vida familiar surge cada vez mais, no imaginário ocidental, como uma panela-de-pressão de desejos recalcados. No cinema e na literatura, as crianças parecem que nada mais têm a fazer do que espionar a vida sexual de seus pais pelo buraco da fechadura ou entregar-se elas próprias aos mais assombrosos jogos eróticos.

O potencial politicamente explosivo da idéia é logo aproveitado por Wilhelm Reich, psiquiatra comunista que organiza na Alemanha um movimento pela “libertação sexual da juventude”, depois transferido para os EUA, onde virá a constituir talvez a principal idéia-força das rebeliões de estudantes na década de 60.

Enquanto isso, o Relatório Kinsey, que hoje sabemos ter sido uma fraude em toda a linha, demole a imagem de respeitabilidade dos pais, mostrando-os às novas gerações como hipócritas sexualmente doentes ou libertinos enrustidos.

O advento da pílula e da camisinha, que os governos passam a distribuir alegremente nas escolas, soa como o toque de liberação geral do erotismo infanto-juvenil. Desde então a erotização da infância e da adolescência se expande dos círculos acadêmicos e literários para a cultura das classes média e baixa, por meio de uma infinidade de filmes, programas de TV, “grupos de encontro”, cursos de aconselhamento familiar, anúncios, o diabo. A educação sexual nas escolas torna-se uma indução direta de crianças e jovens à prática de tudo o que viram no cinema e na TV.

Mas até aí a legitimação da pedofilia aparece apenas insinuada, de contrabando no meio de reivindicações gerais que a envolvem como conseqüência implícita.

Em 1981, no entanto, a “Time” noticia que argumentos pró-pedofilia estão ganhando popularidade entre conselheiros sexuais. Larry Constantine, um terapeuta de família, proclama que as crianças “têm o direito de expressar-se sexualmente, o que significa que podem ter ou não ter contatos sexuais com pessoas mais velhas”. Um dos autores do Relatório Kinsey, Wardell Pomeroy, pontifica que o incesto “pode às vezes ser benéfico”.

A pretexto de combater a discriminação, representantes do movimento gay são autorizados a ensinar nas escolas infantis os benefícios da prática homossexual. Quem quer que se oponha a eles é estigmatizado, perseguido, demitido. Num livro elogiado por J. Elders, ex-ministro da Saúde dos EUA (surgeon general — aquele mesmo que faz advertências apocalípticas contra os cigarros), a jornalista Judith Levine afirma que os pedófilos são inofensivos e que a relação sexual de um menino com um sacerdote pode ser até uma coisa benéfica. Perigosos mesmo, diz Levine, são os pais, que projetam “seus medos e seu próprio desejo de carne infantil no mítico molestador de crianças”.

Organizações feministas ajudam a desarmar as crianças contra os pedófilos e armá-las contra a família, divulgando a teoria monstruosa de um psiquiatra argentino segundo a qual pelo menos uma entre cada quatro meninas é estuprada pelo próprio pai.

A consagração mais alta da pedofilia vem num número de 1998 do “Psychological Bulletin”, órgão da American Psychological Association. A revista afirma que abusos sexuais na infância “não causam dano intenso de maneira pervasiva”, e ainda recomenda que o termo pedofilia, “carregado de conotações negativas”, seja trocado para “intimidade intergeracional”.

Seria impensável que tão vasta revolução mental, alastrando-se por toda a sociedade, poupasse miraculosamente uma parte especial do público: os padres e seminaristas. No caso destes somou-se à pressão de fora um estímulo especial, bem calculado para agir desde dentro. Num livro recente, “Goodbye, good men”, o repórter americano Michael S. Rose mostra que há três décadas organizações gays dos EUA vêm colocando gente sua nos departamentos de psicologia dos seminários para dificultar a entrada de postulantes vocacionalmente dotados e forçar o ingresso maciço de homossexuais no clero. Nos principais seminários a propaganda do homossexualismo tornou-se ostensiva e estudantes heterossexuais foram forçados por seus superiores a submeter-se a condutas homossexuais.

Acuados e sabotados, confundidos e induzidos, é fatal mais dia menos dia muitos padres e seminaristas acabem cedendo à geral gandaia infanto-juvenil. E, quando isso acontece, todos os porta-vozes da moderna cultura “liberada”, todo o establishment “progressista”, toda a mídia “avançada”, todas as forças, enfim, que ao longo de cem anos foram despojando as crianças da aura protetora do cristianismo para entregá-las à cobiça de adultos perversos, repentinamente se rejubilam, porque encontraram um inocente sobre o qual lançar suas culpas. Cem anos de cultura pedófila, de repente, estão absolvidos, limpos, resgatados ante o Altíssimo: o único culpado de tudo é... o celibato clerical! A cristandade vai agora pagar por todo o mal que ela os impediu de fazer.

Não tenham dúvida: a Igreja é acusada e humilhada porque está inocente. Seus detratores a acusam porque são eles próprios os culpados. Nunca a teoria de René Girard, da perseguição ao bode expiatório como expediente para a restauração da unidade ilusória de uma coletividade em crise, encontrou confirmação tão patente, tão óbvia, tão universal e simultânea.

Quem quer que não perceba isso, neste momento, está divorciado da sua própria consciência. Tem olhos mas não vê, tem ouvidos mas não ouve.

Mas a própria Igreja, se em vez de denunciar seus atacantes preferir curvar-se ante eles num grotesco ato de contrição, sacrificando pro forma uns quantos padres pedófilos para não ter de enfrentar as forças que os injetaram nela como um vírus, terá feito sua escolha mais desastrosa dos últimos dois milênios.

Olavo de Carvalho - Filósofo Brasileiro - Texto publicado no O Globo, 27 de abril de 2002 Link:
http://www.olavodecarvalho.org/semana/04272002globo.htm

Pastor brasileiro é ameaçado pelo governo por se opor às políticas pró-aborto


Matthew Cullinan Hoffman, correspondente na América Latina

BRASIL, 17 de setembro de 2010 (Notícias Pró-Família) — Um pastor brasileiro está sendo ameaçado com “medidas legais” por autoridades do governo depois de uma pregação que condenou o apoio do PT à descriminalização do aborto, da agenda homossexual e do infanticídio cometido por tribos indígenas na floresta amazônica.
Num vídeo de YouTube que agora foi assistido por mais de 1 milhão e 600 mil vezes, o Pr. Paschoal Piragine da Primeira Igreja Batista de Curitiba, avisa seu rebanho que o PT, que está no governo, está buscando criar “iniquidade institucionalizada” no Brasil.
“Precisamos assumir uma postura e dizer: ‘não queremos isso em nosso país’, e buscar pessoas para nos representar que digam, ‘votarei contra tais coisas’. Caso contrário, a iniquidade será oficial, e Deus não terá opção senão julgar nossa terra”, diz Piragine.
“E eu não só pediria para você orar — penso que todos temos de orar —, mas também para assumir uma postura, e quando você votar, votar por pessoas que assumam uma postura clara contra essas coisas e fazer um compromisso de lutar no Congresso Nacional, e nas instituições do governo, contra a legalização da iniquidade”, acrescenta ele.
Depois de mostrar a seu rebanho uma apresentação de vídeo sobre os movimentos políticos pró-aborto e anti-família que ameaçam legalizar o aborto e destruir o casamento tradicional, Piragine comenta que o PT “fechou questão sobre esse assunto”.
“Em seu congresso desse ano, ele, no seu congresso geral, quando eles indicam seus deputados, [o presidente Lula] fechou questão sobre essas questões. Ou seja, se um deputado, se um senador do PT, se ele votar contra, de acordo com sua consciência, contra qualquer uma dessas leis, ele é expulso do partido. Já dois deputados federais foram expulsos do PT, por se manifestarem contra o aborto.”
Comentando que alguns bispos católicos já haviam exortado os brasileiros a votar contra o PT, Piragine acrescenta: “Eu diria para você a mesma coisa. Algumas pessoas não vão gostar do que eu estou falando, mas estou falando bem claramente”.
“Como pastor eu nunca fiz isso. Eu não estou dizendo para você votar em A ou B. Eu vou dizer para você em quem não votar: em pessoas que estejam trabalhando pela iniquidade em nossa terra. Porque senão queridos, Deus vai julgar a nossa terra.”

Reação irada

Aparentemente alarmados com a distribuição em massa do vídeo, elevadas autoridades do governo Lula estão atacando Piragine.
Numa entrevista a Rádio CBN do Brasil, o membro do PT e deputado Enio Verri expressou revolta com o vídeo.
“Com suas próprias palavras ele cometeu um grande pecado e terá de responder à sua comunidade”, disse Verri. “Mas o PT vai tomar as providências legais cabíveis o mais rápido possível, tenha certeza disso”.
O líder do governo na Câmara dos Deputados respondeu com uma carta pública negando as acusações de Piragine e afirmando que os membros do PT têm o direito de discordar da linha partidária baseados em motivos de consciência.
“Não é a verdade que deputados do PT foram expulsos por se manifestarem contra o aborto”, escreve o deputado federal Gilmar Alves Machado. “É verdade que eles tiveram conflitos com movimentos de mulheres sobre questões relacionadas ao aborto, mas não houve expulsão. Em função desses problemas, eles foram punidos pelo PT, o que os levou a mudarem de partido”.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O POLÍTICO CATÓLICO, LAICISMO E CRISTIANISMO

Por Dom Giampaolo Crepaldi*
ROMA, domingo, 30 de janeiro de 2011 (ZENIT.org) - Para o político católico, o laicismo é um valor adquirido que deve ser defendido. Isto significa que a esfera política é independente da eclesiástica, que a política e a religião pertencem a âmbitos diferentes.
O cristianismo contribuiu bastante para o estabelecimento do laicismo autêntico. O cristianismo não é uma religião fundamentalista. O texto sagrado em que ele se inspira não deve ser lido ao pé da letra, e sim interpretado; a autoridade universal do Papa libera os cristãos das excessivas sujeições políticas nacionais; Deus confiou a construção do mundo à livre e responsável participação do homem. Não significa que a sociedade e a política sejam totalmente alheias à religião cristã, que não tenham nada a ver com ela. A sociedade precisa da religião de maneira concreta para manter um nível sadio de laicismo.

O cristianismo colabora com este objetivo, porque não impede a sociedade de ser legitimamente autônoma e ao mesmo tempo a sustenta e ilumina com sua própria mensagem religiosa. Poderíamos até dizer que o cristianismo a impulsiona a ser ela mesma, por explicitar a sua plena vocação e pedir-lhe o máximo das suas capacidades, sem se fechar em si mesma.

A sociedade que fecha as portas para a religião e para o cristianismo fecha portas para si mesma: ela não permite que as pessoas e as relações sociais respirem, sufocando as suas possibilidades com uma suposta autossuficiência. O cristianismo não teme enfrentamentos com outras religiões neste ponto: é no Deus feito homem que reside a valorização máxima da dimensão humana, familiar, social e ao mesmo tempo a sua total iluminação por Deus. Quando a razão política teme o cristianismo, é porque já decidiu optar pela própria autossuficiência, fechando-se para uma mensagem que na verdade a valorizaria.

Tende-se hoje a considerar que o laicismo é a neutralidade do espaço público aos absolutos religiosos. Um espaço em que os absolutos religiosos não deveriam intervir por dois motivos: primeiro, porque numa democracia não haveria espaço para os absolutos; segundo, porque os absolutos religiosos seriam irracionais, ao passo que o espaço público deveria alimentar-se de um discurso racional. Ocorre que este espaço permaneceria vazio, e nesse vazio haveria lugar para novos absolutos inimigos do homem, para novos deuses.

Mas examinemos antes os dois princípios vistos até agora: a democracia é incompatível com os princípios absolutos? A religião é irracional? Não é verdade que a democracia pressuponha o relativismo moral e religioso, nem é verdade que os princípios absolutos sejam necessariamente violentos e opressivos. Mas poderíamos dizer o contrário: a falta de referências absolutas gera uma luta de todos contra todos, onde tem razão quem é mais forte. A democracia também se arrisca a reduzir-se à força da maioria. Por isso existe a necessidade de que os cidadãos acreditem em princípios absolutos, como por exemplo a dignidade de cada pessoa humana, a liberdade, a justiça, etc. Por outro lado, a democracia se torna apenas um procedimento, mas estes podem mudar facilmente se não estão repletos do que é substancial.

A substância da democracia não é o procedimento, mas a dignidade da pessoa, que deveria ser considerada um valor absoluto. E como pode ser considerada um valor absoluto se não se baseia em Deus? Como bem observou Tocqueville a respeito da jovem democracia americana, a religião está estreitamente conectada com a liberdade, e a liberdade pode diminuir inclusive nos regimes democráticos.

Passamos ao segundo ponto: a religião é irracional? Não há dúvida de que existem formas de religião irracionais, total ou parcialmente. Mas não é o caso do cristianismo.Existem as religiões do mito, que entendem a divindade como uma união de forças obscuras e indecifráveis, arbitrárias e estranhas, que a religião tenta tornar suas aliadas. Há também as religiões do Logos, como a judaico-cristã, que crê num Deus que é Verdade e Amor.
Esta religião é razoável e não contradiz nenhuma verdade racional; antes, vincula-se a elas omplementando-as, e não exige do homem a renúncia a tudo o que o torna verdadeiramente homem, para ser cristão. Não é aceitável, portanto, a idéia de que a religião, seja qual for, é, pela sua natureza, irracional. Isto certamente não vale para o cristianismo. Apesar disso, muitos entendem o laicismo como neutralidade, como uma expulsão da religião do espaço público. A ideia de eliminar a celebração do Natal, de impedir a exposição de símbolos religiosos em espaços públicos, de proibir a ação missionária que divulga aos outros a própria fé, são algumas expressões dessa visão do laicismo como espaço neutro, o que é visto especialmente no modelo francês. Nestes casos não se demonstra absolutamente a mencionada neutralidade.

Uma parede sem um crucifixo não é neutra: é uma parede sem crucifixo. Um espaço público sem Deus não é neutro: ele não tem Deus. O estado que impede a toda religião manifestar-se em público, talvez com a desculpa de defender a liberdade de religião, não é neutro, porque se posiciona a favor do laicismo ou do ateísmo e assume a responsabilidade de relegar a religião ao âmbito privado. Em muitos casos, nasce a religião do estado, a religião da antirreligião. Entre a presença ou ausência de Deus no espaço público não há meio termo; não há neutralidade. Eliminar a Deus do espaço público significa construir um mundo sem Deus. Qualquer um diferencia um laicismo forte de um laicismo fraco. O primeiro se limitaria a admitir no espaço público todas as opções, compreendida a não religiosa; a segunda admite também formas de oposição à religião. Mas esta diferenciação não convence, porque um mundo sem Deus já é um mundo contra Deus. Excluir a Deus, mesmo que Ele não seja combatido, significa construir um mundo sem referências a Ele.

Por este motivo, o político católico não pode admitir nem colaborar com o laicismo entendido como neutralidade, porque isto significa dar espaço a uma nova razão do estado que, prejudicando a religião, prejudicará a si mesma. O político católico se oporá a esta visão, seja por razões religiosas, das quais ele não pode separar-se, seja por razões políticas, para impedir que nasça uma nova religião do estado prejudicial à liberdade das pessoas.
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*Dom Giampaolo Crepaldi é arcebispo de Trieste, presidente da Comissão "Caritas in Veritate" do Conselho das Conferências Episcopais da Europa (CCEE) e presidente do Observatório Internacional "Cardeal Van Thuan" sobre a Doutrina Social da Igreja.

Fonte: Zenit.org - ZP11013002 - 30-01-2011
Permalink: http://www.zenit.org/article-27120?l=portuguese

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Bento XV pede aos fiéis que lutem em defesa da vida

Papa pede fortalecimento da cultura da vida

O doente não é “só um corpo marcado pela fragilidade”

CIDADE DO VATICANO, domingo, 6 de fevereiro de 2011
Bento XVI pediu hoje que os fiéis se comprometam a fazer crescer a cultura da vida, especialmente em relação às pessoas doentes e aos não-nascidos.

Durante sua introdução ao Angelus, o Papa recordou o Dia Mundial do Enfermo, que se celebra a 11 de fevereiro, festividade da Virgem de Lourdes, e o Dia pela Vida, que se celebrava na Itália.

Segundo Bento XVI, o Dia do Enfermo é “ocasião propícia para refletir, para rezar e para fazer crescer a sensibilidade das comunidades eclesiais e da sociedade civil para com os irmãos e irmãs enfermos”.

O Papa convidou todos a, neste contexto, “contemplar Jesus, o Filho de Deus, que sofreu, morreu, mas ressuscitou”.

“Deus se opõe radicalmente à prepotência do mal. O Senhor cuida do homem em cada situação, partilha o sofrimento e abre o coração à esperança.”

O Papa exortou “todos os agentes de saúde a reconhecer no doente não só um corpo marcado pela fragilidade, mas antes de tudo uma pessoa, a quem dedicar toda solidariedade e oferecer respostas adequadas e competentes”.

Ao referir ao Dia pela Vida, Bento XVI desejou “que todos se comprometam em fazer crescer a cultura da vida, para colocar no centro, em qualquer circunstância, o valor do ser humano”.

“Segundo a fé e a razão, a dignidade da pessoa é irredutível a suas faculdades ou às capacidades que possa manifestar e, portanto, não diminui quando a própria pessoa é frágil, inválida e necessitada de ajuda”, disse."