quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O inferno: viver eternamente longe de Cristo

Dom Henrique Soares
No Novo Testamento a idéia da condenação eterna exprime-se fundamentalmente como negação daquela comunhão com Deus que constitui a bem-aventurança, a Vida eterna: o inferno é a negação, a ausência da comunhão com o Pai. Daí as expressões como “perder a vida“ ou “perder a alma e o corpo na geena” (cf. Mc 8,35; Mt 10,28; Jo 12,25), “não ser conhecido” (cf. Mt 7,23), “ficar ou ser jogado fora” (cf. Lc 13,23s); “apartai-vos de mim” (cf. Mt 7,23), “não herdar o Reino” (cf. 1Cor 6,9s; Gl 5,21), “não ver a Vida” (cf. Jo 3,36).
Todas estas fórmulas querem indicar a exclusão do acesso imediato a Deus através de Cristo. A conclusão é clara: o inferno não pode ser pensado por si mesmo, como realidade autônoma, mas a partir da negação daquilo que é a bem-aventurança. Somente podemos compreender a gravidade e tristeza do inferno quando percebemos a felicidade e plenitude do céu. Em outras palavras, o inferno é, fundamentalmente, a imagem invertida da Glória, a eventual frustração daquilo que Deus sonhou para o homem.

Portanto, assim como o mistério da salvação, o céu que Deus nos prepara, podem expressar-se simplesmente com a palavra Vida, o inferno, a condenação eterna, pode ser expresso simplesmente pela palavra Morte (cf. Lc 13,3; Jo 5,24; 6,50; 8,51; Jo 3,14; 5,16-17; Ap 20,14; Rm 5,12; 6,21; 7,5.11.13.24; 1Cor 15,21s; Ef 2,1-5; 1Tm 5,6, etc). Este estado de morte é tão definitivo e irrevogável quanto e de vida: é eterno, tanto quanto a felicidade do céu! Ou seja: como o céu, o inferno é para sempre! O Apocalipse fala de um tormento que dura eternamente: “E a fumaça de seu tormento sobe pelos séculos dos séculos. Não terão repouso dia e noite aqueles que adoram a besta e sua imagem e quem quer que receba a marca de seu nome” (14,11s). Além destas imagens negativas, o Novo Testamento oferece várias descrições, em imagens, da morte eterna: fala-se em geena de fogo (cf. Mt 18,9); forno de fogo (cf. Mt 13,50); fogo inextinguível (cf. Mc 9,43.48); pranto e ranger de dentes (cf. Mt 13,42); lago de fogo e enxofre (cf. Ap 19,20); verme que não morre (cf. Mc 9,48).

Todas estas imagens querem mostrar que a privação eterna de Deus supõe para o homem o trágico fracasso de sua existência e, portanto, supremo sofrimento. Se quiséssemos, hoje, dá uma idéia bem atual do inferno, deveríamos dizer que ele é como uma depressão eterna, uma solidão sem fim, uma melancolia sem cura, uma frustração sem remédio! A imagem do fogo, tão comum no Novo Testamento para exprimir a condenação, corresponde exatamente a esta idéia: fora da comunhão com Deus e com os outros, totalmente frustrada, a existência humana não serve para mais nada; é como uma árvore que não deu fruto, imprestável e que, portanto, só serve para ser queimada.
Diante da possibilidade do inferno, muitos se perguntam: como é possível falar no inferno quando se crê num Deus que é bondade e misericórdia? É necessário recordar que o juízo de condenação não é simplesmente um decreto que Deus emite de modo vingativo ou cheio de zanga! Diante da luz da verdade, que é Deus, a própria pessoa se vê como é, vê a verdade de sua vida e se condena ao não aceitar o Cristo e sua palavra de salvação: “Se alguém escuta as minhas palavras e não as guarda, eu não o condeno, porque não vim para condenar o mundo, mas para o salvar. Quem me rejeita e não recebe minhas palavras, já tem quem o condene: a palavra que falei é que o condenará no último dia” (Jo 12,47s).Nesta mesma direção move-se a afirmação de Paulo: “Não sabeis que os injustos não possuirão o reino de Deus? Não vos iludais: nem os imorais, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os pederastas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os beberrões, nem os insultadores, nem os assaltantes, possuirão o reino de Deus” (1Cor 6,9s).

Assim, que fique claro: o inferno é possível porque Deus respeita nossa liberdade, nossas escolhas! Se eu posso dizer um sim verdadeiro ao seu amor, também posso dizer não! E, como Deus respeita o meu sim, também leva a sério o meu não. E o sim e o não são ditos não com palavras, mas com a vida de cada dia! É isto que o Novo Testamento nos ensina! Deus quer a nossa salvação, criou-nos para a glória, para a comunhão com ele... Mas a decisão é nossa e Deus vai respeitá-la. Assim, não é Deus quem nos manda para o inferno como se estivesse irado ou com dor de cotovelo! Não: exatamente porque ele nos ama, respeita-nos, ainda que isto signifique a perdição eterna. Uma coisa é certa: o inferno não é para a glória de Deus: Deus não quer o inferno nem o criou para nós. A possibilidade do inferno é conseqüência do mau uso da nossa liberdade!

A Igreja, em toda a sua história, sempre insistiu na necessidade de levar a sério a nossa liberdade, nosso sim e nosso não! Assim, a convicção da existência do inferno aparece nos documentos mais antigos! Aparece também claramente a consciência, baseada no Novo Testamento, que o inferno é eterno.

Somente Orígenes, o grande teólogo da Igreja antiga, ensinou de modo diferente: ele colocava em dúvida a eternidade do inferno: para ele os textos bíblicos sobre uma morte eterna têm apenas uma função educativa, de modo que as penas são, na verdade, medicinais. A alma teria sempre uma capacidade de reorientar a opção que fez durante a vida, mesmo depois da morte. Assim, Orígenes ensina a “apocatástasis”, ou seja, a “restauração” de todas as coisas. No final, portanto, não haveria ninguém - nem Satanás - no inferno. A Igreja condenou fortemente tal doutrina: “Se alguém afirma ou retém que o castigo dos demônios e dos homens ímpios é temporário e terá fim após um certo tempo, ou seja, que haverá um restabelecimento (apocatástasis) dos demônios e dos homens ímpios, seja anátema”.

Assim fica assentado pela Tradição eclesial a convicção a respeito da duração eterna do inferno. Mais tarde, São João Crisóstomo e Santo Agostinho irão deixar claro que a grande pena do estado de perdição é a exclusão do Reino de Deus, da comunhão com o Senhor: “Desde o momento que alguém é condenado ao fogo, evidentemente perde o Reino, e esta é a desgraça maior. Sei que muitos tremem só de ouvir o nome da geena, mas para mim a perda daquela glória suprema é mais terrível que os tormentos da geena. Acontecerá a morte sempiterna quando a alma não mais puder viver, ao não mais ter Deus”. O Concílio Lateranense IV, contra os albigenses, que defendiam a reencarnação, ensinava: “Todos ressurgirão com os corpos dos quais agora estão revestidos para receber, de acordo com a bondade ou maldade de suas obras, uns a pena eterna com o diabo, outros, a glória eterna com Cristo”. Mais tarde, a Constituição Benedictus Deus, do Papa Bento XII, fazia eco à fé da Igreja: “As almas dos que morrem em pecado mortal atual... descem ao inferno, onde são atormentadas com penas infernais”.

Resumindo bem resumido: (1) a Escritura ensina a existência do inferno, (2) o inferno não é criação de Deus, mas fruto do mal uso da liberdade das criaturas, (3) o inferno é a negação de toda a felicidade do céu, é a frustração radical do homem e (4) o inferno é eterno.
Dom Henrique Soardes
Bispo Auxiliar de Aracaju

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