quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O inferno: uma possibilidade real para mim!


Dom Henrique Soares

Já afirmei que a Morte eterna, a condenação ou inferno consiste fundamentalmente em viver longe de Deus, que é a Vida, a fonte da nossa vida. Gostaria ainda de propor algumas reflexões.
Ao pensarmos no inferno é necessário insistir sempre que o único fim da história e da humanidade é a salvação. Quem coloca no mesmo nível a promessa do céu com a ameaça do inferno, como se ambas as coisas tivessem os mesmos direitos e fizessem parte da mesma forma do plano de Deus, deturpa gravemente a fé cristã e elimina seu caráter de Evangelho, de alegre e boa notícia! Por isso mesmo, a Igreja, que testemunha a salvação definitiva de muitos santos, jamais emitiu um juízo de condenação eterna para alguém, jamais disse que há alguém no inferno!
No entanto, é necessário não banalizar a convicção sobre a existência do inferno! Certamente o estado de perdição não é criação de Deus nem é por ele desejado: é fruto da livre opção da criatura, da nossa liberdade quando usada contra Deus. Deus não criou o inferno, como também não criou o pecado. O inferno é possível porque é possível o nosso “não” a Deus, “não” que Deus respeita, porque fruto de uma liberdade criada, mas que tem sua real consistência e autonomia. Muita gente pensa: Deus é bom demais para admitir o inferno! Este argumento é superficial e muito irresponsável! A possibilidade do inferno existe realmente porque existe realmente a possibilidade do céu: se eu não pudesse dizer um “não” autêntico a Deus, tampouco poderia dizer um “sim”; se não há inferno, tampouco há céu!
Pode-se perguntar se o inferno é somente uma possibilidade ou se é algo que realmente pode ocorrer para o homem. A resposta depende de outra questão: alguém pode viver coincidentemente, em pleno uso de sua liberdade, fechado para Deus? Certamente é difícil imaginar alguém vivendo num “não” explícito e consciente a Deus, já que aquele que não crê não tem consciência de dar um não explícito a Deus e o que crê não se atreveria a dar esse não! No entanto, não é impossível! Aqui estamos diante do mistério do homem e da profundidade de seus sentimentos e consciência! Estamos também diante do mistério de Deus, na sua misericórdia justa e na sua justiça misericordiosa! Além do mais, o Novo Testamento conhece um outro tipo de negação de Deus: aquela que se concretiza na negação do irmão, quer individual, quer socialmente (cf. Mt 25,31): sempre houve pessoas animadas por uma vontade demoníaca de negação do próximo, pisando nos outros, mentindo, corrompendo, oprimindo, provocando sofrimento! Quem prejudica gravemente o irmão diz não a Deus! Além do mais, se o homem não pudesse dizer um “não” radical a Deus, tampouco poderia dizer um “sim” que seja expressão plena de si mesmo e da sua vida!
O importante é notar que a escolha por Deus ou contra Deus dá-se na vida, nas nossas ações e opções de cada dia. Essas ações nossas, tomadas em seu conjunto, vão deixando uma marca indelével, que formam a nossa história e que será selada com a morte! Assim, o inferno revela-se como uma terrível possibilidade que não é uma teoria, mas um convite a uma decisão! O inferno, portanto, é possível! A humanidade será salva... Mas eu, pessoalmente, posso ficar fora dessa salvação! É preciso, portanto, decidir-me por Deus, abrir para ele meu coração! É importante não se colocar levianamente diante desta questão! A Escritura e a constante Tradição da Igreja afirmam a existência do inferno e sua real possibilidade para quem se fecha para Deus no pecado! Não brinquemos nunca com a santa Revelação! Não tentemos enquadrar Deus na nossa lógica e nos nossos modismos! Mais ainda: se Jesus e as Sagradas Escrituras alertaram para essa tremenda realidade, nós devemos meditar sobre ela e a Igreja, na sua pregação, deve falar sobre ela claramente aos fieis e a todas as pessoas. Não nos é lícito deturpar ou mutilar a verdade que o Senhor nos confiou!
Quanto à teoria da apocatástasis (de que todos, no final, vão ser salvos) é um exagero, que não está de acordo com a Escritura Sagrada: é verdade que a humanidade como um todo será salva, mas isso não garante que todos os indivíduos serão salvos (porque nem todos aceitarão essa salvação). O que é válido para a humanidade como um todo não tem que ser válido necessariamente para todos e cada um dos indivíduos, sob pena de destruir qualquer respeito pela liberdade humana.
É necessário ainda perguntar pela essência da morte eterna: o que é essa morte eterna, morte segunda ou morte da alma? Trata-se do definitivo distanciamento em relação a Deus; perdê-lo eternamente. Nesta vida é impossível imaginar em que consista realmente o inferno porque ainda não temos experiência real do que significa perder a Deus, já que, enquanto peregrinamos, ele nunca está tão distante que não possamos alcançá-lo! O inferno é, portanto, um modo de existência completamente inédita: uma existência que já não tem sentido nem objetivo! É exatamente por esta não experiência atual do inferno que a Escritura fala por imagens. E pensemos: estar fora da comunhão com Deus deixará os condenados eternamente em desarmonia com eles mesmos, com os outros, com o mundo! O inferno é eterna frustração, profunda solidão e falta de sentido para tudo!
Aí a única linguagem possível é a não-linguagem do “ranger de dentes”; aí ninguém conhece ninguém, ninguém está em comunhão com ninguém. O inferno é o não-povo (contrário do Povo eleito), a não-cidade (contrário da Jerusalém celeste), a negação de toda comunhão! Em uma palavra, é viver na contradição visceral: criado para a comunhão com Deus, com os outros e com o mundo, o homem torna-se pura contradição, negação de si mesmo... alguém que vive na morte! Não é por acaso que o Apocalipse denomina tal estado de “segunda morte” (cf. 21,8).
Ainda um última questão: quantos estão no inferno? Para dar uma resposta, é necessário levar em conta duas coisas: (1) nada de apocatástasis (a restauração de todas as coisas, de modo que até Satanás seria convertido). Já vimos que o inferno é uma possibilidade bem real! (2) por outro lado, é necessário levar em conta o desígnio salvífico universal de Deus: Deus que a salvação de toda a humanidade; criou-nos para a salvação! No entanto, é preciso não banalizar! Jesus advertia: “...se não vos converterdes, todos vós morrereis...” (Lc 13,4). “Alguém lhe perguntou: ‘Senhor, são poucos os que vão se salvar?’ Ele lhes disse: ’Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque eu vos digo que muitos tentarão entrar e não conseguirão’” (Lc 13,23s).
Afirmar, portanto, que não há ninguém no inferno seria uma irresponsabilidade gritante e contrária à revelação! No entanto, levando em conta o desígnio salvífico universal de Deus, vale a pena considerar a seguinte reflexão: a esperança é uma virtude cristã, fundamentada na ressurreição de Cristo e no dom do Espírito. Ora, se devemos esperar na nossa salvação, será que a caridade não nos obriga também a esperar na salvação dos irmãos? Esta esperança universal é profundamente cristã! Temos a obrigação cristã de esperar que todos se salvem! Contudo, atenção: esperar não significa ter segurança! A esperança é uma virtude teologal que fundamenta tudo em Deus; a segurança apoia-se presunçosamente no homem. Permanecemos, portanto, em profunda esperança de que todos sejam salvos, dizendo “sim” ao apelo salvífico de Deus em Cristo, esperança que coloca tudo nas mãos de Deus e não se funda na nossa presunção! Sabemos, no entanto, que o homem é livre e pode dizer não...
Dom Henrique Soares
Bispo Auxiliar de Aracaju

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