terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O inferno segundo o Antigo Testamento

2) Falar da condenação, da Morte eterna, envolve diretamente cada pessoa. Não se deve falar do inferno para os outros! Para a Escritura Sagrada, deve-se falar do inferno com o seguinte pensamento: na minha vida concreta, no meu dia a dia, com a minha liberdade, eu posso dizer “não” à proposta de salvação que Deus me dirige! Assim, não se pode falar do inferno de modo neutro, como se eu não tivesse nada com isso, como se o inferno fosse para os outros. O inferno faz-me recordar que eu sou capaz de me fechar para Deus e, assim, chama atenção para a minha responsabilidade, para o que eu estou fazendo com minha vida.
(3) Eu disse que Deus não pensou no inferno para nós e que o seu plano é de salvação. No entanto, falar do inferno exige responsabilidade! Tem gente que diz que o inferno não existe porque Deus é amor. Isso é um erro grave! Não se pode banalizar o amor de Deus: seu amor respeita a nossa liberdade: eu posso dizer “sim” e posso dizer “não”. O inferno existe e é possível para mim porque Deus respeita o “não” que eu lhe posso dizer! Se Deus não respeitasse o meu “não” também não respeitaria o meu “sim”; se não há inferno, também não há céu, pois um céu sem liberdade não seria céu nem seria amor nem seria digno do homem! Assim, qualquer tentativa de apresentar um inferno leve, mitigado, qualquer tentativa de insinuar um inferno provisório e passageiro deve ser clara e firmemente rejeitada como contrária à Escritura e à fé católica!
Tendo deixado claro estes três pontos, vamos prosseguir na nossa reflexão.
Eis o que a Escritura afirma sobre o inferno: Tanto o Antigo quanto o Novo Testamento insistem na bondade de Deus e de sua obra (cf. Gn 1): ele não criou nada para a morte (cf. Sb 1,13; 11,24), não quer a morte do pecador (cf. Ez 18,23; 33,11). Mais ainda: Deus revela-se como aquele que é amor (cf. 1Jo 4,8) e deseja que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade (cf. 1Tm 2,4; 2Pd 3,9). O próprio Jesus anuncia somente a salvação - e isto é o Evangelho! Tal misericórdia manifesta-se nas várias parábolas de Jesus (cf. Lc 15). No evangelho de João Jesus afirma claramente que Deus, no seu amor, o enviou para salvar o mundo (cf. 3,17; 12,47). Assim, a doutrina da morte eterna não é parte integrante do Evangelho, ou seja, a morte eterna é um acidente, é um “não” nosso e não uma armadilha que Deus nos preparou!
Contudo, apesar deste sentido marcadamente voltado para a salvação, presente nos textos bíblicos, a Escritura também aponta com toda a seriedade para a possibilidade de fracasso absoluto do homem, de um destino cujo horror ultrapassa qualquer experiência e ruim desta vida!
No Antigo Testamento, numa linguagem figurada aparece claramente o destino negativo dos pecadores. Por exemplo: “Ao sair, poderão contemplar os corpos dos homens que se revoltaram contra mim; pois o seu verme não morre, e seu fogo não se apaga; eles serão objeto de abominação para todos os mortais” (Is 66,4). O livro de Daniel fala claramente do opróbrio e horror eterno no final dos tempos: “Muitos dos que dormem na terra poeirenta, despertarão; uns para a vida eterna, outros para vergonha, para abominação eterna” (12,2).Também o livro da Sabedoria fala, em diversas passagens, do destino dos ímpios: “Sim, a esperança do ímpio é como palha levada pelo vento, como a espuma tênue que a tempestade espalha. Ela se dissipa como a fumaça ao vento, e se apaga como a lembrança do hóspede de um dia” (5,14-23). “Os ímpios receberão o castigo devido por seus pensamentos, pois desprezaram o justo e se afastaram do Senhor” (3,10). “Em breve tornar-se-ão cadáver sem honra, objeto de opróbrio para sempre entre os mortos: o Senhor os precipitará de cabeça para baixo, sem que digam palavra, e os arrancará de seus fundamentos. Serão completamente destruídos, estarão na dor e sua memória perecerá. Virão cheios de medo, quando se fizer a conta de seus pecados; suas iniqüidades se levantarão contra eles para os acusar” (4,19s).
Como se pode ver, o Antigo Testamento afirma claramente a possibilidade de uma condenação eterna para quem tornou-se fechado para Deus. Faz isso, usando imagens que mostram que aqueles que se afastam de Deus ficarão longe dele nesta vida e na outra.

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