quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Cardeal católico critica sermões “insossos e cansativos”. E está certíssimo!

O cardeal Gianfranco Ravasi, ministro da Cultura do Vaticano, resolveu botar o dedo naquela que é, entendo, uma das chagas abertas da Igreja Católica, que é a minha igreja. Leiam o que informa a France Presse. Volto em seguida.
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Os sermões feitos por padres católicos tornaram-se “insossos”, denunciou nesta sexta-feira o cardeal Gianfranco Ravasi, ministro da Cultura do Vaticano, pedindo a eles que não temam dizer palavras que “perturbem, questionem e causem preocupação”. O cardeal falou sobre o assunto durante um ciclo de conferências organizado em Roma pelo Instituto francês –Centro São Luís, aberto na quinta-feira na Universidade dos Jesuítas, a Gregoriana. O cardeal italiano convidou os sacerdotes a levarem em conta as novas linguagens para atrair a atenção dos fiéis, além de não temerem o “escândalo” causado pelas palavras da Bíblia.
“Devemos reencontrar esta dimensão da Palavra que ofende, que inquieta, que julga”, afirmou o prelado. É preciso notar que a Bíblia pode “preocupar e, às vezes, desconcerta” o que, segundo ele, é “indispensável”. O cardeal também convidou os padres a acompanharem a “revolução na comunicação”. “A informação transmitida pela televisão e a informática, explicou o ministro da Cultura do Vaticano, demanda ser incisivo, recorrer ao essencial, à cor, à narração”.
A comunicação pode passar também pelo Twitter, o que “obriga a transmitir alguma coisa fulgurante, essencial”, recomendou o prelado que envia ele mesmo mensagens diárias no Twitter. As críticas de Monsenhor Ravasi a homilias ‘mornas” dos padres e a vontade de encontrar uma linguagem adaptada ao mundo moderno representam uma preocupação do papa Bento 16 de revitalizar a mensagem do cristianismo, numa época de descristinização em massa.
Voltei. As palavras de Ravasi são oportunas. E estão certíssimas. Sempre é bom ir com cuidado, claro!, para não se ter a tentação de ensinar a uma instituição de mais de dois mil anos como ela deve se comportar. Mas a crítica é, obviamente, procedente.
Todo católico sabe que o ritual da missa é mais ou menos o mesmo em qualquer lugar do mundo: no ano passado, num intervalo de menos de 30 dias, assisti a celebrações quase idênticas, língua à parte, numa igrejinha onde cabiam 30 pessoas, numa vila aqui no Brasil, e na St. Patrick’s Cathedral, em Nova York. Isso espelha a existência de uma hierarquia e de um comando, que parte do Vaticano. É um dado positivo.
A Liturgia da Palavra já compreende hoje o momento da “Homilia”, que é, vamos dizer, o espaço criativo do sacerdote — dentro, é evidente, dos princípios da fé que ele abraça. É nesse ponto que as coisas vão muito mal nos rituais católicos. Os padres, a exemplo de boa parte dos professores universitários que andam por aí — tudo, afinal de contas, é magistério! —, são, no geral, de uma triste mediocridade, com uma formação intelectual precária. A mensagem católica sofre, de um lado, o assédio dos herdeiros da Escatologia da Libertação, que quer se passar por teologia, e, de outro, dos que confundem a missa com espetáculo circense.
“Devemos reencontrar esta dimensão da Palavra que ofende, que inquieta, que julga”, afirma Ravasi. É isso! O “provoca” certamente traduz melhor o pensamento do cardeal do que o “ofende”. Os sacerdotes católicos, no geral, se contentam com a gestão quase burocrática da Palavra de Deus, ignorando que ela pode e deve ser “palavra aplicada”, a ser vivida.
Convém não confundir isso com “modernização da Igreja”. Ao contrário: eu diria que ela deve voltar a seus primórdios, com uma perspectiva realmente militante, de defesa incondicional de seus princípios, sem abrir mão, obviamente, dos meios de comunicação contemporâneos.
Por Reinaldo Azevedo - 04/11/2011- às 19:33

Texto original em Inglês



Vatican wants 'boring' sermons spiced up(AFP) – 8 hours ago  VATICAN CITY — The Vatican's top cultural official on Friday hit out at sermons he said were too often dreary and bland and urged Catholic priests not to shy away from spicing up their preaching.Speaking at a conference organised by a French institute, Cardinal Gianfranco Ravasi said preaching in churches "was so dull and vapid that it had become quite meaningless."To yank drowsy church-goers to attention, the Italian cardinal urged priests to jazz up their vocabulary and not be afraid of letting the "scandal" contained in the Bible erupt from the pulpit.Ravasi argued that priests needed to be in sync with their time and adapt to a high-paced, tech-savvy world."The advent of televised and computerised information requires us to be compelling and trenchant, to cut to the heart of the matter, resort to narratives and colour," he said.He praised micro-blogging site Twitter as a tool that "forces to deliver something in a flash, something primal."

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