sexta-feira, 24 de junho de 2011

Sacrifício de gêmeos: engodo para os incautos brasileiros

O nobre ex- prefeito de Guarulhos, Elói Pietá, em seu artigo “Para o bispo, a vítima é a culpada” (Diário de Guarulhos, 16/6), faz referência ao Arcebispo de Olinda Dom José Cardoso Sobrinho, que se manifestou contra o sacrifício imposto a dois seres humanos (no caso, os gêmeos) inocentes e indefesos.

A propósito dessa manifestação, transcrevo o que eu publiquei na época: 


1- Por que os médicos de Pernambuco interromperam a gravidez gemelar de uma menina de 9 anos? Por causa da idade? Por causa de sua estrutura física? Ora, a peruana Lina Medina, de estrutura franzina, teve um filho saudável aos 5 anos de idade, por cesariana, em 1939. É a mãe mais jovem já confirmada na História da Medicina. (Jornal o Estado de São Paulo-Opinião).

2- Eu era Médico Residente na Maternidade do Instituto Fernandes Figueira (Hospital do Ministério da Saúde) no Rio de Janeiro, quando lá apareceu uma menina de 10 anos de idade grávida de seu próprio pai, ambos moradores da favela da Rocinha. 

Ela se encontrava no sexto mês de gestação, e em pródromos (início) de trabalho de parto prematuro. Nós a internamos e a medicamos com o fito de segurar mais um pouco a sua gestação. Ficou internada por 4 semanas. Atingido a maturidade fetal, a mesma foi submetida ao parto cesariana. Filho saudável, pesando 2.7 kg.

E agora… será que eles provocariam infanticídio (assassínio de recém-nascido) em nome do estupro? Vamos atinar: fazer cessar a vida dentro do útero ou fora dele, não é a mesma coisa? Não é apenas uma questão cronológica?" (Carta inserida no BLOG de Adalberto Piotto e lida por ele na rádio CBN).

Argumentaram que a evolução desta gravidez gemelar em uma criança de nove anos é incompatível com a vida da gestante e dos fetos, ou seja, se fôssemos ouvir a voz do clero teríamos a mãe e as respectivas crianças mortas. Ora, que vaticínio mais tolo. Isso foi apenas um engodo para os incautos brasileiros. 

O parto da Lina Medina foi em 1939, sem quaisquer condições. Hoje, temos o que se chama de Medicina Fetal que não tínhamos em 1939, justamente para o follow-up de gravidezes de alto risco. Portanto, dizer que a menina não suportaria a gestação é uma deslavada ignorância.

Além do mais, essa menina iria parir aos 10 anos, e cerca de metade dos infantes de gravidez gemelar nasce pretermo, representando cerca de 20-25% de todos os nascimentos prematuros.

Cleomenes Barros Simões 

Médico Obstetra 

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