terça-feira, 21 de junho de 2011

Dom Bergonzini: “A Igreja tem o dever de fazer política!”

junho 20, 2011 por Wagner Moura

Dom Luiz Gonzaga Bergonzini em sua primeira palestra pública sobre cultura da vida
Estado laico, política, denúncia do capitalismo selvagem e defesa da vida. Esses foram alguns temas tratados na palestra do bispo de Guarulhos/SP, Dom Luiz Gonzaga Bergonzini, durante evento promovido pelo Instituto Plínio Correa de Oliveira (IPCO), em São Paulo/SP, na noite de ontem, 20. A palestra, proferida no Colégio e Faculdade São Bento, reuniu lideranças de movimentos sociais pró-vida, cientistas, profissionais liberais, estudantes, religiosos e admiradores do bispo.
Assisti à palestra por meio da transmissão via internet e tomei nota de algumas palavras de Dom Bergonzini. O bispo falou com muita serenidade e com a simpatia de sempre, ouvi-lo é como ouvir um senhor bonachão, com personalidade forte, mas sem qualquer exagero em seus gestos! Particularmente destaco as palavras dele sobre política:
Fala-se em politica, mas o que isso significa? Trata-se da promoção do bem! E isso é diferente de politica partidária, na qual se tem em mente interesses e ideias de uma parte, um partido. Um partido não pode nunca substituir o bem comum pelo promoção do bem do partido, de grupos e particulares.
Devemos distinguir partido político de política. Todo ser humano é político! Está na natureza humana fazer política. A Igreja tem o dever de fazer política. Como cidadão eu tenho o direito de fazer política! Porém, como bispo, tenho o dever de ser político. Não partidário! Não seguidor de uma sigla. O chefe de nosso partido é Jesus Cristo e nossa arma, nossa lei, é o Evangelho.”


Auditório do Colégio e Faculdade São Bento repleto de ouvintes atentos
Dom Bergonzini fez um mea culpa ao lembrar da época em que, a exemplo de tantos bispos, não reprovava o nome de um candidato específico nos períodos eleitorais. Nessas ocasiões, como é comum, o bispo limitava-se a orientava os fieis a votarem em políticos honestos, comprometidos com os valores do Evangelho. Nas eleições do ano passado, no entanto, ao saber que o Partido dos Trabalhadores (PT) aprovou a promoção do aborto em um de seus congressos, Dom Bergonzini compreendeu que esse discurso neutro não resolveria o problema:
Eu me lembro… Quantas e quantas vezes nas eleições a gente ouvia (e eu fazia isso no passado): “Escolham bem seus candidatos… Votem em pessoas honestas…” Só que o povo não sabe quem é quem! Então resolvi dar nome aos bois. E se na época da eleição eu não tivesse colocado o nome da então candidata Dilma Rousseff no artigo que escrevi [e que provocou toda essa polêmica], não teria acontecido nada em relação ao aborto. Sou jornalista e sei disso! Apanhei bastante, mas bati mais ainda que apanhei.”
Sobre a defesa da vida, o bispo lembrou que promover a vida significa ao mesmo tempo estar em conflito com a cultura da morte. Essa cultura está presente, inclusive, nas relações de trabalho que muitas vezes são uma forma de escravidão “branca”, na qual o trabalhador encontra grandes dificuldades para viver conforme seus próprios valores. “As condições de trabalho, às vezes subhumanas, também provocam a morte paulatinamente. Todas as situações de desconforto, desalento, problemas de saúde, tudo isso é cultura da morte! Infelizmente existe uma força nesse sentido principalmente colocando a felicidade nos bens materiais. Essa ideia universal do lucro acima de tudo, consumismo acima de tudo, é uma maneira de isolar a pessoa, afastá-la ou dificultar que ela tenha uma religião”, disse Dom Bergonzini.
Em crítica ao sistema de saúde brasileiro, o bispo foi pontual. “A saúde do Brasil está na UTI!”, afirmou ao lembrar que as pessoas menos favorecidas têm dificuldade em conseguir assistência médica. Dom Bergonzini citou o caso de uma pessoa que ficou 4 meses esperando a liberação de uma consulta. “Quando a consulta foi liberada, a pessoa ainda estava viva… Mas há casos em que a liberação chega e a pessoa já está morta!”, disse o bispo.
A condenação à violência contra a mulher também ganhou destaque na palestra. Dom Bergonzini reafirmou seu repúdio e condenação ao estupro, “um crime hediondo”, e citou uma pesquisa da Universidade Estadual de São Paulo (UNIFESP), de 2004, que averigou que 80% das brasileiras grávidas por estupro se recusaram a abortar o bebê.
A questão do aborto por causa de estupro foi tema de uma entrevista recente que o bispo concedeu ao jornal Valor Econômico. As palavras do bispo foram deturpadas por grupos pró-aborto que, afrontados com a postura pró-vida de Dom Bergonzini, iniciaram uma campanha para difamá-lo. “Na entrevista eu usei uma alegoria para chamar atenção sobre estupro e diferenciar a relação sexual consetida da não consetida. Muito embora o meu pensamento não tenha sido bem reproduzido pela repórter, e não a condeno por isso pois sou jornalista e sei que às vezes deixamos escapar algumas palavras importantes do entrevistado, isso reacendeu o debate sobre o aborto e sobre estupro. O estupro é crime hediondo e tem a mesma condenação de homicidio!”.
Ao final da palestra abriu-se espaço para as perguntas da plateia. Por mais de uma vez o bispo foi indagado a respeito da forma como a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) promove o debate contra a legalização aborto. Dom Bergonzini sorriu, evitou qualquer crítica à entidade e afirmou que não poderia falar pela CNBB, mas lembrou que a Conferência não é superior aos bispos. “Meu supervisor direto é o Papa. Na diocese de Guarulhos a cabeça sou eu!”
Questionado sobre o PLC122, projeto que propõe a prisão daqueles que criticarem o comportamento homossexual, Dom Bergonzini foi taxativo: “Eu não tenho medo de ser preso não. Eu não vou deixar de falar o Evangelho por causa de cadeia. Nós devemos ter coragem de enfrentar esse problema! A força dos inimigos é a nossa fraqueza. Devemos enfrentar com coragem e colocar o caso nas mãos de Deus. Nós podemos perder, mas Ele deve ganhar”.
Antes de ser ovacionado pelo auditório lotado, o bispo lembrou as palavras que abriram o pontificado do Papa João Paulo II, “non abbiate paura”, e disse, especialmente às lideranças dos movimentos sociais pró-vida: “Não tenhais medo! Lutemos pela vida humana, contra o aborto.”
Por Wagner Moura 

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