sexta-feira, 3 de junho de 2011

DETER O PLC 122 É BATALHA DECISIVA NA DEFESA DA FAMÍLIA


Prof. Hermes Rodrigues Nery

Em 24 de maio, as bancadas evangélicas e católicas do Congresso Nacional pressionaram o governo federal e ameaçaram abrir a CPI para investigar o ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, de enriquecimento ilícito e tráfico de influência. Diante disso, a presidente Dilma Roussef suspendeu a distribuição do polêmico Kit “Escola Sem Homofobia” na rede pública de ensino do País. Em sua fala1, quando questionada pela imprensa, a presidente pareceu reviver os momentos mais tensos da campanha eleitoral de 2010, acuada pela pauta “dos valores” trazida pela sociedade, e que tanto a assombrou especialmente na transição do 1º e 2º turno2.

Ao conversar com os jornalistas, Dilma Roussef disse que não irá permitir nenhum órgão do governo fazer “propaganda de opções sexuais”. E mais: “Não podemos interferir na vida privada das pessoas!” Chegou a afirmar que não assistiu aos vídeos polêmicos de doutrinação homossexual, tendo visto apenas alguma coisa do que foi apresentado na televisão. E concluiu dizendo: “Não concordo com o Kit”, mas “nós lutamos contra a homofobia.” Foi uma fala mais uma vez contraditória, sem convicção, muito imediatista, fala para apagar incêndio, sem coerência com o propósito do governo implantar o PNDH3 no País. 

O ex-presidente Lula teve de emergir para os holofotes midiáticos, repentinamente para vir em socorro de sua apadrinhada e pedir aos senadores da base governista que poupem Palocci de uma CPI. O governo perdeu vários aliados e se desgastou muito com a votação do Código Florestal. A presidente então recuou, como fez na campanha eleitoral, para evitar um desgaste ainda maior.

Os episódios recentes demonstraram que é possível os cristãos brasileiros manterem-se firme na defesa dos princípios e valores que buscam salvaguardar a dignidade da pessoa humana e a estrutura natural da família, seriamente ameaçadas pelo ideário do PNDH3, que o governo está disposto a tornar política de Estado, num processo em que o laicismo se torna “uma ideologia irreligiosa ou anti-religiosa”3, para também reforçar a cultura anti-cristã em curso. Os deputados e senadores das bancadas evangélicas e católicas, pressionaram e obtiveram um efeito considerável, neste momento crucial, e se posicionaram inclusive levando a população às ruas, como na Marcha contra o PLC 122, promovida em 1º de junho, em Brasília.4

Deter o PLC 122 é assegurar a liberdade de expressão e religiosa no Brasil, do contrário, aqueles que hoje são minoria vão se impor ainda mais, com mais insolência, pois querem garantir não apenas a tolerância, mas forçar cada vez mais a adesão ao homossexualismo, criando mecanismos, alguns sutis, outros mais ousados, para que um número crescente especialmente de jovens aceitem o homossexualismo, mas – o que é mais grave – sejam estimulados a isso, daí a estratégia do KIT, para efetivar a doutrinação homossexual nas escolas, com material pago com dinheiro público.

Apologia ao que viola a essência e a natureza da pessoa humana

O fato é que “a batalha contra a família está entre as mais graves batalhas contra o cristianismo, em particular contra os católicos”.5 Nesse sentido, “a homossexualidade tornou-se uma arma política e o envolvimento dos homossexuais na vida política, para alcançar seus intentos, tornou-se uma prioridade”.6 E para isso surtir efeito, a médio prazo, faz-se necessário difundir nas escolas a ideologia de gênero, para quebrar as resistências contra a cultura que quer se impor. A educação sexual então está imbuída fortemente desta ideologia contrária à família, com uma visão reducionista da dimensão da pessoa humana. “Ora, existem apenas duas identidades sexuais: masculina e feminina. Não existe identidade homossexual. A homossexualidade pertence ao grupo das tendências sexuais, que são numerosas e variadas no psiquismo humano”7 e “a sua gênese psíquica continua amplamente inexplicada”.8 É certo que permanecem interrogações sobre as causas profundas de tais tendências, mas há sinais evidentes de que institucionalizá-las é desconhecer com mais profundidade a essência e a natureza da pessoa humana, e mais ainda: agravar os fatores da violência contra o ser humano, em todos os aspectos.

A crise da identidade em nosso tempo se explica “numa sociedade sempre mais anônima”.9 Daí o grande mal-estar de muitos diante dos apelos na promoção da homossexualidade, pois sabe-se que se trata de um movimento de apologia e não apenas de não discriminação. Apologia a uma condição contrária ao que vai no âmago da maioria das pessoas, uma condição que torna a pessoa estranha de si mesma, nas circunstâncias em que se sente muito mais vulnerável como objeto e não sujeito de uma relação que tende a ser mais perversa e desumana, pois “o indivíduo não pode se socializar e enriquecer o vínculo social senão a partir de sua identidade (de homem e mulher)”.10 Daí também a crise da identidade (que é também a crise dos vínculos, no melhor sentido da expressão religiosa – que visa re-ligare). “Não é pensável que seja possível socializar-se em função de uma tendência sexual, a não ser sob pena fazer regredir e de perverter o vínculo social”.11 E então, a escola, que deveria complementar, do ponto de vista pedagógico, a integração da pessoa com sua comunidade, passa – com a educação sexual libertária – desagregar a pessoa, a partir das premissas utilitárias, hedonistas e individualistas. O ideário proposto pelo PNDH3 perverte pois a finalidade social das instituições nascidas para defender a pessoa daquilo que a despessoaliza. Com uma educação sexual assim, a escola se torna um lugar perigoso, um barril de pólvora que certamente irá explodir com danos sociais inimagináveis.


Ideologia de gênero”: o pano de fundo cultural do PNDH3

Da mesma forma que a obsessão da supremacia racial motivou a mais dolorosa experiência de dominação política com o nazismo, o afã da sociedade anarco-individualista de transgressão e libertação dos condicionantes biológicos da pessoa, pode nos levar a outras mais terríveis situações de desespero, que muitos ainda ignoram, e cujas conseqüências já estão visíveis em nosso meio, bastante conturbado pela influência do feminismo radical.

Na “perspectiva de gênero”12, “a realidade da natureza incomoda, perturba e, assim, deve desaparecer”.13 Com isso, se espera um tempo novo, em que homem e mulher não sejam mais condicionados por “papéis culturais” e vivam inteiramente livres para usufruir uma vida sem nenhuma espécie de opressão. Tal a promessa da nova ideologia, como as do passado, que fracassaram justamente ao apresentar um topos fora da realidade humana. “'Quando o nacional-socialismo tiver reinado por bastante tempo', declarou Hitler certa vez, após o jantar, 'não será mais concebível uma forma de vida diferente da nossa'”.14 

O anarco-individualismo do feminismo radical é, portanto, a nova manifestação de um idealismo que mais uma vez quer arrastar a humanidade às piores patologias políticas, pois a “crueza sexual” de tal ideologia “vive nos grandes sistemas especulativos do idealismo” (Adorno, p. 77). Uma ideologia que quer desenraizar a pessoa daquilo que a constitui como ser humano, desterritorializá-la da instalação natural da família, imprescindível à sua realização como pessoa, inseri-la em ambientes hostis em que cada vez mais fica difícil se identificar e, portanto, torná-la mais fragilizada e perdida de sua própria realidade como ser humano.

Doutrinação homossexual como estratégia para o desenraizamento cristão

Depois de alguns “anos de preparação, de clarificação ideológica e de experiências táticas”, a exemplo do que disse Joachim Fest sobre Hitler15, percebemos muito nitidamente aspectos da proximidade metodológica do totalitarismo nazista com o que busca os promotores do PNDH3, com uma política de Estado que tem como objetivo o profundo desenraizamento cristão, como realmente nunca houve na história do País. Para isso, a doutrinação homossexual nas escolas faz parte desta tática, que funcionou para consolidar movimentos totalitários políticos do passado e quer agora atualizar a estratégia de alcançar especialmente a juventude para a adesão a um idealismo de evasão da realidade, com conseqüências altamente imprevisíveis para toda a sociedade.

A doutrinação homossexual nas escolas quer reforçar a idéia de que “a inversão é uma coisa tão natural”16, e de que os papéis sexuais são apenas construções culturais do qual é preciso se libertar, para vivenciar uma felicidade euforizante e fugaz, daquela intensidade hedonista exigida pela sociedade de consumo. Trata-se também da antiquíssima estratégia de uma lógica de poder anti-natalista, quando “o legislador (...) obtem baixa taxa de natalidade, mantendo homens e mulheres separados e instituindo relações sexuais entre homens”.17

Estamos outra vez perante um novo começo”18

Na contra-mão deste rolo compressor ideológico, mais uma vez, os cristãos (evangélicos e católicos) são chamados a fazer contraponto, mesmo “quando já não há um ambiente cristão na sociedade”19, e muitas vezes os cristãos mais conscientes se sentirem “a Igreja de uma minoria”.20 “É hora de união de todos os cristãos, deixando de lado o que nos divide, e deixando de nos ferirmos mutuamente, para defender a Lei santa de Deus.”21

Na afirmação de princípios e valores cristãos, numa época como a nossa, de tão grandes apreensões e promissões, o discernimento nos leva à luz de Cristo, pois Ele “é sempre nosso contemporâneo”.22 Somos chamados novamente a dar testemunho da resposta cristã aos complexos desafios e aos impasses agudos da atualidade. A obsessão prometéica de uma felicidade que vem da rebeldia, permanece até hoje, como uma terrível tentação. “E a tentativa de ultrapassar a condição humana exclusivamente por meio do homem fica, em última análise, votada seja à ineficácia, seja à ilusão”.23 A história comprova isso. Daí que há esperança, nos tempos convulsivos em que vivemos, de que há hoje “novas esperanças, novas possibilidades de expressão cristã”24, sabendo que “a Paixão de Jesus é um acontecimento sempre contemporâneo e que deve fazer parte da ação no presente” 25, pois “o Senhor não fala do passado, mas do presente, nos fala hoje, nos dá a luz e nos ensina o caminho da vida”.26 

Nesse sentido, especialmente os leigos cristãos no campo legislativo são chamados a produzir “novas e vigorosas formas de vida do que é cristão”. 27 Por isso que empunhar a bandeira da família e da defesa da vida, desde a concepção, é atualizar a resposta cristã às forças adversas que querem minar na base a força unitiva da família.

“Estamos outra vez perante um novo começo”.28 O século 21, já na segunda década, se vê diante da pauta de valores que certamente norteará o debate e as grandes decisões do nosso tempo. O cristianismo continuará o caminho da vida, e certamente vencerá, como venceu tantos males do passado. “É precisamente uma era de um cristianismo quantitativamente reduzido que pode levar a uma nova vivacidade desse cristianismo mais consciente”.29 

De modo concreto, no aqui e agora, na dimensão da realidade penúltima, a defesa da estrutura natural da família não é uma luta em vão, mas decisiva pelo bem integral da pessoa humana, para assegurar a salvação de todos, na realidade última.

Prof. Hermes Rodrigues Nery é coordenador da Comissão Diocesana em Defesa da Vida e Movimento Legislação e Vida, da Diocese de Taubaté. Professor de Bioética do Instituto Teológico da Diocese de Campo Limpo (SP).

Bibliografia:

  1. Valerio Zanone, Dicionário de Política, (org. Por Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino), Laicismo, p. 670; Editora Universidade de Brasília, Vol. 2, 4ª edição)
  2. Joseph Ratzinger/Bento XVI, Os Apóstolos e os primeiros discípulos de Cristo, p. 22, Editora Planeta do Brasil Ltda, 2010
  3. Jacques Maritain, A Filosofia Moral – Exame histórico e crítico dos grandes sistemas, trad. de Alceu Amoroso Lima, p. 497, Livraria Agir Editora, 1973
  4. Jacques Le Goff, São Luís, p. 148, Editora Record, 2002
  5. Joseph Ratzinger/Bento XVI, Os Apóstolos e os primeiros discípulos de Cristo, p. 22, Editora Planeta do Brasil Ltda, 2010

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