domingo, 24 de abril de 2011

Sexta Feira Maior. Sexta-feira da Paixão. Paixão de Cristo.






Homilia pronunciada pelo reverendíssimo Padre Vladimir Barbosa Hergert, reitor da Basílica de Nossa Senhora do Patrocínio, de Araras (SP), Brasil, por ocasião da Procissão do Senhor Morto:

22 de abril de 2011.
Sexta-feira Maior.
Sexta-feira da Paixão.


Paixão de Cristo. Que homem foi esse que passados 1978 anos ainda reúne multidões para pensar naquilo que Ele foi e fez? Quem mais conseguiu tal façanha? Só um homem-Deus ou um Deus-homem é capaz de nos atrair assim, de nos fazer viver sua paixão.

A “paixão” em português tem dois significados: sofrer e amar. De tal modo que o apaixonado pode ser tanto um amante como um sofredor. No caso de Jesus, acontecem as duas realidades. Ele sofre a paixão e ao mesmo tempo a ama. Sofre a dor, a morte e ama os inimigos a ponto de dar a vida por eles.

Hoje a igreja nos convida ao silêncio, a pensar na morte, na paixão. Bastaria-nos o silêncio diante do mistério da morte. Seria respeitoso. Talvez até mais profundo. Contudo me atrevo a falar para ajudá-los a pensar nesta realidade que só tateamos... O mistério da morte é mais que nossa razão possa compreender. Por isto Jesus pouco falou, ele morreu para nos ensinar. De tal modo que seu exemplo fala. Sua cruz ensina. Não as palavras, mas sua vida! Entretanto é preciso educar os olhos para ver, os ouvidos para escutar e o coração para sentir. Resgatar a força do amor e a capacidade de sofrer por ele. Morrer por amor.

O que é a morte? Por que ela nos atemoriza? Que experiências temos da morte? É certo pensarmos que a morte é um “fato” que acontecerá no final da nossa existência? Não se morre um pouco todo dia? Não se nasce, morrendo? Há muitas faces da morte...

Morte física. Quando o corpo não suporta o peso da vida, ele falece. Quer por doença, por violência, por velhice... a morte física é a mais visível das mortes. O corpo esfria, para de respirar, paralisa-se. A pessoa não está mais ali...

Morte social. Quando a pessoa não é estimada em seu grupo. Quando sofre preconceitos, difamações, calúnia, bullying, não é reconhecida como membro, como parte... a pessoa é cortada fora, excluída. São inúmeros irmãos e irmãs nossos que não têm chance de viver no nosso meio. Estão mortos socialmente: mendigos, desempregados, pobres...

Morte psíquica. Esta acontece quando a pessoa não encontra a paz interior. A angústia e a depressão são suas companheiras. Não se sente amada, valorizada nem por si nem por ninguém. O desespero toma conta, a tristeza arrasta a pessoa para o fundo do poço. Não se sente amada e não quer mais amar. Morre na solidão interior. Morre angustiada.

Morte espiritual. A pessoa não consegue enxergar nada para além dos seus interesses. Só existe o que lhe dá prazer ou o que lhe traz vantagens. É um cético. É um pragmático. É um utilitarista. Sua vida se reduz a curtir a vida aqui e agora. Não existe nada maior que ele, nem mais interessante. Morre vazio. Morre sem sentido.

A morte pode ser antecipada. É quando a violência exerce seu poder. Muitos são assassinados, vingados, eliminados vítimas de armas, do trânsito, da agressividade, do ciúmes...

A morte pode ser prematura. Uma doença que impede alguém de crescer, ter filhos. Um acidente grave que leva os sonhos e as vidas de tantos jovens.

Atualmente, os estudiosos chamam nosso modo de viver de“Cultura de morte”, porque, mais do que nunca, estamos ampliando o potencial de matar: armas mais possantes, drogas mais poderosas e alucinantes, ambições mais desmedidas, desigualdades mais profundas, pobreza, miséria, exploração, poluição e degradação do meio ambiente...

Com tantas faces, a morte é sempre morte. Ela nos assusta. Tem um poder sobre nós. Lembra-nos que somos frágeis, impotentes, mortais... então, de que adianta termos fé se vamos morrer? O que pode a fé?

Com sua morte, Jesus deu um novo significado ao viver e ao morrer. Ele foi vítima de várias mortes: mataram-no socialmente (chamaram-no de beberrão amigo de cobradores de impostos e prostitutas...) mataram-no fisicamente (colocaram-no na cruz, pregaram seus pés, suas mãos...). Apesar disso Ele diz: “Ninguém tira a minha vida, eu a dou livremente”. Sua morte é consequência de sua vida. Podemos dizer que à medida que sabemos viver, sabemos morrer.

Por isto é preciso dizer que a morte nos ensina a viver. “De que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro se perde a própria vida?” “O que pode o homem pagar pela sua própria vida?”.

Ninguém será poupado da morte. Mas todos nós temos a chance de viver a vida de tal modo que a morte não seja a última palavra. Acreditar em Jesus é acreditar na vida. Todos nós temos a chance de sermos melhores. Todos podemos ser mais justos, mais verdadeiros, mais amorosos... todos podemos ser mais solidários, cuidadores do planeta Terra que “geme em dores de parto”. Todos podemos, no nosso espaço, por menor que seja, colaborarmos com Deus.

Jesus diz que somos capazes de controlar nossa vida mesmo quando outros querem dominá-la. Sua liberdade interior, seu amor, o leva a entender a morte não como humilhação, submissão, fracasso, mas como lugar da doação. Ninguém pode manipular o amor. O amor é incontrolável. Escapa a todas as formas de violência porque é maior, mais abrangente. Sejamos instrumentos Dele a favor da vida! 

Enviado por Luiz Carlos Turatti

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