sexta-feira, 29 de abril de 2011

Mudança de paradigma na Doutrina social da Igreja (Cardeal Paul Josef Cordes)


Cardeal Paul Josef Cordes
A minha conferência terá por tema a Mudança de paradigma na Doutrina Social da Igreja – da “Rerum novarum” (1891) à “Caritas in veritate” (2009). E exatamente tal matéria constitui o terreno vital sobre o qual articula-se o Dicastério do Papa Cor Unum, até há pouco tempo, o âmbito do meu trabalho no Vaticano.

Naturalmente, os presentes conhecem o contexto histórico-social e as idéias que basearam a primeira encíclica social da Igreja Católica. Rerum novarum quer dar uma resposta às dramáticas tensões econômicas do ocidente, determinadas pela, assim dita, revolução industrial. Baste mencionar alguns nomes indicativos: Karl Marx e o bispo Emmanuel Von Ketteler (+1877) para a Alemanha, “Os miseráveis” de Victor Hugo, a “Narração de duas cidades” de Charles Dickens, “Tom Sawyer” de Mark Twain. Contra toda esta miséria, a Igreja levantou a própria voz.

Os inícios

A encíclica social de Leão XIII começa com um memorando que resumia reflexões e idéias, entre elas diversas, de vários grupos europeus. A argumentação está orientada à praxe, não é derivada de um programa global científico. Ela tenta determinar uma mudança através de raciocínios capazes de obter um consenso geral – para o bem de todos. Ela se serve de idéias neoescolásticas e jusnaturalísticas e retoma propostas resolutivas teóricas e práticas já pré-existentes.

A Encíclica condena a idéia de luta de classe. Escreve: “... nem o capital pode estar sem o trabalho, nem o trabalho sem o capital. A concórdia faz a beleza e a ordem das coisas...”. Tal relação vem depois pontuada para o âmbito da Igreja, do Estado e dos trabalhadores. O papa se opõe claramente a posições capitalístico-liberais, que ao Estado não reconhecem tarefas reguladoras, mas uma simples função de “guarda-noturno”. O texto trata, além disso, da regulamentação dos contratos de trabalho, porquanto diz respeito aos horários de trabalho, salários e condições de trabalho, e propõe reflexões sobre temas do direito e da justiça.

Com semelhantes linhas-guia, um tanto generalizadas, a Igreja se propõe não como instância diretiva, mas preferencialmente como mestra. Esta é uma primeira conclusão, que um olhar retrospectivo sobre Rerum novarum nos consente tirar. A doutrina social da Igreja visa a sensibilização e responsabilização a respeito de uma precisa situação histórica. Todavia, as questões centrais mencionadas na primeira encíclica papal dizem respeito a temas relacionados à falta de tempo para a vida social dos homens; essas, portanto, não seriam fixáveis com uma única decisão magistral. Se cairia, por isso, no equívoco lá onde se quisesse equiparar a doutrina social da Igreja, por exemplo, à dogmática, ou a assuntos centrais da teologia moral. As suas indicações se concretizam, ao invés, a nível de consciência do sujeito singular.

Há um segundo ponto na Rerum novarum sobre o qual devemos prestar atenção. Em princípio, a doutrina eclesial, nas próprias argumentações, apela primeiramente à inteligência e a razões seculares. As suas instâncias tiveram, por modelo, direitos e deveres do homem universalmente aceitos, e, portanto, apoiados prevalentemente sobre princípios derivados do direito natural. Vemos, por isso, que o enfoque da doutrina social da Igreja, porquanto diz respeito à descrição do ordenamento social, foi inspirado fundamentalmente pela filosofia, e mais precisamente por uma antropologia filosófica. Foi nesta ótica que ela tratou a natureza e o ordenamento da sociedade humana e expôs novos princípios ordenadores. Os re-envios, a elementos de fé e às Sagradas Escrituras, permaneceram antes marginais.

Novos impulsos ricos de desenvolvimentos apareceriam somente na segunda metade do século passado. Tais impulsos tornam-se manifestos durante o pontificado de João XXIII. Em 1963, ele publicou a sua encíclica dedicada à paz, Pacem in terris. Nela, ele não se limita a colocar prevalentemente os clássicos argumentos da filosofia, para por à luz a dignidade do homem, fundando, ao invés, a própria argumentação sobre a Revelação divina. A última base pela dignidade da pessoa humana – assim ele ensina – consta na filiação divina do ser-humano, salvo por meio do sangue derramado por Cristo sobre a cruz.

Através de enquadramentos como aquele atuado por João XXIII, a doutrina social da Igreja se enriquece de um novo elemento de análise. O magistério papal, de uma posição meramente filosófico-racional, passou a abraçar uma perspectiva derivada diretamente da vontade de Deus revelada, e, portanto, da fé. Verificou-se uma passagem da perspectiva filosófica àquela teológica. Trata-se, aqui, de ter presente tal mutação de perspectiva e de tomar consciência.

Quase contemporaneamente aos primeiros passos no campo teológico do Papa João XXIII, no âmbito do Concílio Vaticano II os padres conciliares estavam empenhados com a elaboração da Constituição Pastoral “A Igreja no mundo contemporâneo – Gaudium et spes (GS)”. Nela, encontramos referências a elementos de fé para a compreensão da sociedade e as categorias da doutrina social se aproximam das linhas-guia da fé. A Constituição esclarece em várias formulações como é Cristo, o novo Adão, a “revelar plenamente o homem ao homem e lhe faz conhecer a sua altíssima vocação” (GS-22).

Tais palavras atestam como a doutrina social da Igreja tenha se colocado inteiramente entre um novo horizonte de pensamento: a orientação filosófica se relativiza, enquanto se vai reforçando em seu perfil teológico. Revelação e razão constituem juntas o fundamento da doutrina social da Igreja, as duas posições se determinam mutuamente nas relações da Igreja, seja no seu interior, como no exterior.

Uma nova palavra-chave

Sem dúvida, estas mudanças de perspectiva não aconteceram de um dia para o outro. Já aos tempos do Vaticano II, foram acompanhadas de extenuantes e controversas discussões. Um primeiro, significativo impulso, para uma maior consideração de verdades teológicas no âmbito da doutrina social da Igreja, chegou pelo dominicano francês Marie-Dominique Chenu. A sua argumentação estava centrada sobre a expressão bíblica dos “sinais dos tempos” (Mateus 16, 4). Neles, no seu dizer, se manifestaria onde Deus, aqui e agora e na história da civilização humana, está atualmente presente. Por este motivo, Chenu, a tais sinais, atribui o papel de um “lugar teológico – locus teologicus”. Quer dizer: um dado no qual Deus se revela. As suas idéias foram prontamente publicadas dentro e fora do Concílio.

O impulso de Chenu influenciou profundamente a doutrina social da Igreja até aos nossos dias. Sem mais, alguns teólogos quereriam servir-se do seu uso em sede conciliar da expressão “sinal dos tempos”, para uma leitura completamente nova das fontes teológicas. Afirmam que deveria – qual âncora para uma compreensão mais clara das indicações da Igreja – dar garantias sobre a natureza revelatória.

No entanto, algumas observações de Joseph Ratzinger de 1968[1], em mérito à Constituição, teria podido alertar quanto a tais propostas. De fato, lemos ali que:

“A expressão ‘sinais dos tempos’ remonta, a uma prova preliminar, o ‘texto de Zurique’ (1964). À época da sua individuação, com ela, se quer exprimir como o tempo seja sinal e voz, sendo manifestação da presença ou da ausência de Deus; enquanto tal, a voz do tempo seria, portanto, interpretada como voz de Deus”. Mas tal afirmação, assim nos refere Joseph Ratzinger, foi objeto de acesas críticas no curso das reuniões sucessivas: “A aproximação do provérbio romano (sc. ‘vox temporis – vox Dei’), que no tempo quer reconhecer a voz de Deus, a admoestação escatológica de Jesus diante da cegueira de seu povo – o qual, em busca de sinais, não soube reconhecer nem o seu ensinamento, nem ele mesmo, como sinal escatológico enviado por Deus à sua época – tal aproximação, portanto, foi percebida não só como inadmissível, do ponto de vista exegético, mas também objetivamente problemática”.

Esta crítica de Joseph Ratzinger à Constituição GS revela, ainda uma vez, como o enquadramento da doutrina social católica na Revelação apresenta-se como uma tarefa extremamente complexa, mas que tem que ser enfrentada. Portanto, não se pode senão concordar com Pe. Chenu, quando, durante as reuniões conciliares, admoestou que a análise social contemporânea não podia continuar a basear-se exclusivamente sobre princípios da filosofia natural.

Todavia, o novo fundamento, que ele quer dar à doutrina social, revela um duplo equívoco teológico. O primeiro diz respeito ao próprio conceito de Revelação. A Constituição do Vaticano II Dei verbum ensina que, depois da morte e da ressurreição de Cristo, “não é para esperar-se alguma outra revelação pública” (nº. 4). Com isto, é, portanto, para excluir-se que Deus faça chegar à humanidade, através de determinados acontecimentos na vida dos singulares indivíduos ou de mais pessoas, novas Revelações (“loci theologici”). Pelo mesmo motivo, determinadas formas da Teologia da Libertação carecem de uma legitimação teológica, lá onde estas entendam substituir acontecimentos atuais com a Revelação.

O segundo equívoco teológico reside na anulação da única voz que distingue os ensinamentos sociais da Igreja, afirmando que não se possa mais falar de uma única “doutrina”, mas somente de “doutrinas” pontuais e diferenciadas. Não surpreende, então, que aos tempos e no contexto de tais teses²[2] - depois do Concílio – identidade e carisma da doutrina social se tenham fortemente obscurecidos no pensamento e na catequese da Igreja: uma interpretação inexata do Vaticano II tinha tornado supérfluo uma doutrina social da Igreja. No fim dos anos 60, nós, jovens padres, não nos interessávamos por esta disciplina. A “doutrina social da Igreja” estava morta.

Parece, portanto, óbvio que a Constituição vaticana, sobre “Igreja no mundo contemporâneo”, deixou à doutrina social da Igreja a missão de pensar a própria disciplina. E foi o próprio Magistério que continuou o trabalho de esclarecimento. Mas, antes de referir sobre o Magistério, precisa de uma...

Delimitação epistemológica

Não há dúvida que a doutrina social da Igreja deve referir-se a dados empíricos, ela tem o que fazer com ordenamentos de caráter econômico, social e político. Por estes âmbitos, ela estabelece determinadas normas aptas a garantir-lhe a justiça, que por sua vez deve derivar o próprio meio de medida da verdade do homem e do bem comum. Em conseqüência, a doutrina social tem necessidade de uma exata cognição da realidade constituída, como também de saber filosófico inerente ao ser humano e à justiça. A lei natural não perdeu a atualidade, e a própria Constituição, da qual nos estamos ocupando, continua a fazer referência a ela, indicando-a aos cidadãos, como aquele limite, dentro do qual, é lícito defender os próprios direitos (cf. GS N. 74).

Pode um ensinamento eclesial, todavia, contentar-se com um fundamento, exclusivamente, filosófico? A “pura razão” é suficiente? Uma primeira resposta negativa, encontramos no simples fato de que, hoje, não existe mais “uma” filosofia universalmente válida. E ainda: é legítimo renunciar a um eventual contributo da Revelação ao fundamento de um importante ensinamento da Igreja? Podemos, portanto, reter que o empenho social para a Igreja e o mundo seja inspirado por convicções meramente filosóficas ou políticas?

A tradição da doutrina social da Igreja remonta ao Papa Leão XIII, que a fundou sobre a “reta razão” e sobre sua certeza, imediatamente evidente a qualquer um. Ele acreditava na evidência dos argumentos reconhecíveis à “reta razão”, à exatidão da razão, à sua “verdade”.

A recepção da doutrina social no curso da história confirmou o ponto de vista do Papa Leão – mas só em parte. Já que as dolorosas experiências com a realidade do “pecado das origens” – por exemplo, com o nacional socialismo, com o comunismo-marxismo, com o islamismo – nos constrangem a admitir que a evidência da “reta razão” não é acessível a todos, e que a pura razão não é suficiente para um consenso geral sobre verdade e justiça.

Por este motivo, a doutrina social da Igreja não pode renunciar à verdade da Revelação – não obstante a irrenunciável e firme correlação a verdades empíricas. Qual Igreja do LOGOS, que se fez homem indubitavelmente, ela não esquecerá a “ratio” da razão e, antes, buscará o confronto com ela. Mas nem ao menos calará a origem da luz que lhe confere certeza e capacidade de julgar. Até hoje, acontece que alguns enunciados eclesiais dêem a impressão que, para a realização de um mundo justo, seja suficiente o consenso dos homens de boa vontade e inspirados pela reta razão. A fé, assim, aparece como um delicioso ornamento, um segundo plano – decorativo, mas supérfluo. Além disso, dificilmente se poderá negar que o consenso de razão e boa vontade é sempre obscuro e obstaculado pelo pecado original – não é somente a fé a sugerir isso, mas também a experiência dos séculos passados. 


Não podemos, portanto, fazer menos que reconhecer que a Revelação é indispensável também para a doutrina social da Igreja: só assim, a origem da nossa certeza da “justiça” continuará a ser um LOGOS feito homem.

João Paulo II

Durante o Concílio, o arcebispo de Cracóvia, Karol Wojtyla, interveio resolutamente na assembléia sobre os trabalhos preliminares para a Constituição GS. Ele foi também membro da subcomissão “Sinais dos tempos”, que deu uma significativa contribuição à formação de tal esquema. Todavia, as passagens da Constituição, evidentemente, não lhe pareceram suficientes para o enquadramento da doutrina social nas verdades de fé da Igreja. Como papa, na sua encíclica Sollicitudo rei socialis (SRS; 1987), ele deu um enérgico impulso a fim de que fossem colocados, novamente em relevo, alguns dados teológicos irrenunciáveis.

Em SRS 35-40, as suas intenções assumem contornos claros, a partir do título programático “Uma leitura teológica dos problemas modernos”. O Papa se sente chamado a retomar a temática, pois, no momento da publicação da Encíclica Populorum progressio, quer dizer do ano 1967, os males e os sofrimentos no mundo, evidentemente, não diminuíram. João Paulo II chega à conclusão que a origem de tais males devem ser considerados razões de natureza não somente econômica. Assim fazendo, ele ensina a considerar categorias não mais centradas prevalentemente sobre temas intra-mundanos, técnicos e concretos. Mais vezes ele se lamenta pela falência dos responsáveis. Com as suas ações, eles teriam criado as “estruturas de pecado”, em razão das quais a voz dos pobres não encontrou modo de fazer-se valer. Ele, depois, prossegue mencionando conceitos e enunciados claramente pertencentes ao âmbito da Revelação: os dez mandamentos, o Mal, as formas de idolatria.

Diante de tanta miséria, o Papa conclama com uma exortação: “Para os cristãos, como para todos aqueles que reconhecem o preciso significado teológico da palavra ‘pecado’, a mudança de conduta ou de mentalidade ou do modo de ser se chama, como linguagem bíblica, ‘conversão’ (Mc 1,15)” (Nº 38). Segundo o Papa, ela diz respeito ao indivíduo como também às comunidades. João Paulo II não confia na eficácia somente de apelos à boa vontade e à compreensão humana. Ele vai além da argumentação estreitamente filosófico-naturalística e funda uma solução desejada sobre atos salvíficos divinos, lá, onde diz: “é Deus, em ‘cujas mãos estão os corações dos potentes’, (67) e aqueles de todos, que pode, segundo a sua própria promessa, transformar, por obra do seu espírito, os ‘corações de pedra’ em ‘corações de carne’ (Ez 36,26)”. Mais adiante, o texto indica o próprio Evangelho como fonte dos ensinamentos eclesiais para a doutrina social, e fala da missão evangelizadora da Igreja, frente a qual, às pessoas e instituições, é reconhecido caráter profético. À doutrina social, ele atribui um “lugar” bem preciso no interior das categorias teológicas canônicas: ela “pertence, (...), não ao campo da ideologia, mas da teologia e especialmente da teologia moral” (cf. n. 41 seg.).

As referências teológicas, a quem tivesse noção só pontual das indicações papais em mérito à doutrina social, podem, sem dúvida, parecer esporádicas. Quem, todavia, se dedica ao estudo aprofundado da evolução intelectual da doutrina social, não pode fazer menos do que notá-las. Com o sucessor de João Paulo II no trono papal, a mudança de perspectiva se tornará, enfim, evidente.

Bento XVI

Bento XVI, já no seu primeiro texto doutrinal, a Encíclica “Deus é amor”, tinha dado originais e profundos temas para o empenho da Igreja para a salvaguarda e garantia da dignidade do homem. Ele excluiu que tarefa da Igreja seria aquela de fazer valer um ensinamento político. O Papa lhe desconhece uma identidade política e releva como seu dever central aquele da evangelização, seguindo também, aqui, as pegadas do seu predecessor. Um anúncio com toda clareza da salvação do homem não pode prescindir do Evangelho. O anúncio da morte e ressurreição de Cristo, que constitui a missão de fundo da Igreja, é de grande relevo também para a vida social.

A doutrina social da Igreja, por conseqüência, não representa uma “terceira via”; ela não reivindica algum programa político, a ser realizado, para chegar a uma sociedade perfeita. “A sociedade justa não pode ser obra da Igreja, mas deve ser realizada pela política. Todavia, o empenhar-se pela justiça, trabalhando pela abertura da inteligência e da vontade às exigências do bem, interessa à Igreja profundamente” (DCE, 28a). Quem entendesse a Igreja de outra maneira correria paradoxalmente o risco de encorajar uma “teocracia”, na qual os princípios de fé se tornariam inevitavelmente princípios ordenadores da vida social – válidos tanto para crentes como para não crentes, e a impor, se necessário, com a violência. Frente a semelhantes teses, já o Vaticano II se expressou a favor da liberdade religiosa e pela justa autonomia da ordem criada.

Papa Bento, além disso – em contrapartida, em respeito aos apelos dos papas precedentes, voltados quase, exclusivamente, aos grupos e classes – fez apelo significativamente à responsabilidade de cada indivíduo. Ele se exprime contra a ilusão de que um “estado de providência”, como é praticado por algumas ditaduras, possa erradicar todo o mal deste mundo; nem assim ele releva, “jamais existirá uma situação na qual não ocorra a caridade de cada cristão em particular, para que o homem, além da justiça, tem e terá sempre necessidade do amor” (conforme DCE 29). Do mesmo modo, ele se dirige aos colaboradores das organizações Caritas como indivíduos, descartando, assim, a priori, qualquer coletivismo enganoso (ibid, 33). Se a Igreja necessariamente cria instituições comunitárias para combater miséria e injustiça, não quer isentar cada pessoa do seu empenho específico e individual.

Bento XVI, com a sua encíclica social, publicada em 2009, se religa ao seu primeiro texto doutrinal. Em “O amor na verdade”, ainda uma vez, ele faz do amor o elemento central e mantém, também, o ponto de vista teocêntrico. “Da caridade de Deus tudo provém, por ela tudo toma forma, e a ela tudo tende” (2). Ele fundamenta, como já fez na sua primeira obra doutrinal – o “amor” ao qual faz alusão já na abertura da história da salvação atuada em Cristo.

A sua obra salvífica é habilitadora e inspiradora do pensar e agir do Cristão, no mundo. Verdade e amor são condições duma da outra. “Só na verdade a caridade resplandece e pode ser autenticamente vivida”; e o papa nos ensina que na verdade “a caridade reflete a dimensão pessoal e, ao mesmo tempo, pública da fé no Deus bíblico, que é, ao mesmo tempo, ‘Agápe’ e ‘Lógos’: Caridade e Verdade, Amor e Palavra” (CIV 3).

Na sua explicação da caridade, ainda, uma vez, reconhecemos a intenção do Papa de atribuir, também à perspectiva da doutrina social, parâmetros teológicos inequívocos:

“A caridade é amor recebido e doado. Ela é ‘graça’ (cháris). A sua fonte é o amor que vem do Pai pelo Filho, no Espírito Santo. É amor que do Filho desce sobre nós. É amor criador, pelo qual nós somos; é amor redentor, pelo qual somos recriados. Amor revelado e realizado por Cristo (cf. Jo 13,1) e ‘derramado nos nossos corações por meio do Espírito Santo’ (Rm 5,5). Destinatários do amor de Deus, os homens são constituídos sujeitos de caridade, chamados a fazer-se eles mesmos instrumentos da graça, para infundir a caridade de Deus e para tecer redes de caridade” (5).

O amor do Pai, do Deus criador, e do Filho, o Redentor, infundido em nós por meio do Espírito Santo, nos habilita à vida social sobre a base de determinados princípios. A encíclica releva como fundamental, para o desenvolvimento do ser humano, seja “a centralidade da caridade” (19). O saber – assim continua o texto – capaz de orientar o homem “deve ser ‘temperado’ com o ‘sal’ da caridade” (30). Tais afirmações, de aparências simples e evidentes, trazem, em si, implicações importantes: desvinculada da experiência cristã, a doutrina social degenera em utópica ideologia ou até mesmo em um manifesto político sem alma. A doutrina social, ao invés, empenha, em primeiro lugar, o cristão a concretizar, a encarnar a própria fé, no interior da sociedade, como recita a encíclica: “a caridade manifesta sempre também nas relações humanas o amor de Deus, ela dá valor teologal e salvífico a todo empenho de justiça no mundo” (6). E, mais adiante, o Papa sublinha, ainda uma vez, que, olhando à missão da Igreja, não obstante a sua importância pela realidade terrena, não se pode prescindir das suas metas transcendentais (9).

E, ainda uma vez, não obstante à perspectiva pragmática de apelos dirigidos a grupos, de encorajamentos à política, à legislação e ao empenho comunitário, a palavra é dirigida ao indivíduo. De fato, as mudanças desejadas devem principiar no singular, e só quem dirige a própria atenção, sobre os atores diretos, age de maneira pedagogicamente correta. Vemos, de fato, que os problemas da justiça social nunca tratam somente das relativas questões, mas sempre, também, do homem – e, precisamente, ao singular. Assim, inevitavelmente, a perspectiva se desloca daquela, de um objetivo neutro, àquela, da exortação pastoral.

Estilo e tom da parte final, por isso só surpreendem em um primeiro momento. Seguramente, o gênero literário das reflexões doutrinárias em torno dos problemas no mundo, sobre a justiça entre homens e povos, além de impulsos concretos para uma sociedade melhor, normalmente assume outras formas. Quem, porém, soube reconhecer a intenção de fundo do Papa, não pode, senão, atuar, também ele, naquele voltar-se para Deus, com o qual Bento XVI conclui a sua encíclica social: “o desenvolvimento tem necessidade de cristãos com os braços levantados para Deus no gesto da oração, cristãos movidos pela consciência de que o amor, cheio de verdade, caritas in veritate, do qual procede ao autêntico desenvolvimento, não é por nós produzido, mas nos vem doado. (...) A aspiração do cristão é que toda família humana possa invocar Deus como ‘Pai nosso!’” (nº 79).

Ressonância

À publicação da encíclica social do Papa Bento XVI, seguiram as costumeiras expressões de descontentamento e irritação. Sobretudo ao norte dos Alpes, as tomadas de posições papais são pontualmente pretexto para manifestações críticas. Assim, por exemplo, o “Süddeutsche Zeitung”, de 8 de julho de 2009, escreveu que “estamos em presença de uma mistura infusa de coisas já ditas”. As perfídias de outros jornais europeus nem merecem ser aqui reportadas. Tais jornalistas velozes redigem as suas páginas sem ter uma visão de conjunto e sem raciocinar. Como poderiam, portanto, individuar, naquele texto, o fio condutor do progresso intelectual da doutrina social da Igreja? Quem, ao invés, conhece a fundo a matéria ali, reconhece o prosseguimento e a conclusão de um importante processo: o vínculo de elementos da filosofia natural com dados da Revelação. E em tal progresso intelectual reconhece também uma feliz aproximação da doutrina social católica à ética social protestante.

Aplauso inesperado à encíclica chegou, ao invés, de outra fronte. Seguramente, ninguém poderá suspeitar o “New York Times: de servilismo ou rufianismo nos confrontos da Igreja Católica. Repetidos e pontuais ataques contra o Papa e os bispos católicos deixam supor, antes, animosidade e adversidade. Contudo, o NYT reagiu à encíclica com um comentário extremamente positivo, publicado em 13 de julho de 2009, na primeira página:

“Seja para os liberais como para os conservadores, a Caritas in veritate representa um convite à reflexão a respeito das próprias alianças papéis tornassol. Por que ser a favor da proteção do ambiente deveria excluir, a priori, a proteção do embrião? Por que os republicanos não deveriam denunciar injustiças econômicas? Por que os democratas não deveriam contemplar maiores poderes para instituições e estados? A oposição à guerra no Iraque implica talvez que tudo é permitido, no que concerne aos programas de bioética? Apoiar o livre mercado requer, talvez, ser a favor da pena de morte?

Estas perguntas, e muitas outras semelhantes, são daquele gênero que a eleitores e políticos, em um sistema político sadio, seria consentido explorar.

Por ora, porém, vemos que pô-las é antes o Vaticano de Bento XVI, que não Washington e Barack Obama”.

O claro teocentrismo, com o qual o Papa Bento formula as próprias indicações à doutrina social até agora, conheceu escassa atenção; os próprios estudiosos de ética social católicos demonstraram pouco interesse pela abertura das suas argumentações à Revelação divina e às suas instâncias. Vemos, porém, também que políticos, sociedade e opinião pública não ficaram nada incomodados com a centralização da existência humana e do ensinamento eclesial sobre a fé. A Igreja é novamente aceita, baseando a sua mensagem sobre real e vinculante fundamento da Revelação. Não parece mais forçada a negar, na sua luta pela justiça, o Pai de Jesus Cristo, como fonte de salvação, que transcende a terra.

Um “salto qualitativo”

Gaudium et spes, João Paulo II e Bento XVI indicaram, à doutrina social da Igreja, o caminho para a realidade pós moderna. Eles postulam uma correlação entre razão e fé[3]. Tal relação, no caso do atual papa, é individuada a partir de algumas das suas primeiras indagações teológicas[4]. A mudança de direção paradigmática se cumpre na inequívoca colocação dos enunciados doutrinais à luz da fé. As declarações eclesiais, em mérito a problemáticas sociais, não podem ser lidas ou pronunciadas, prescindindo da palavra salvífica de Deus. Elas se completam somente à luz da Revelação e nesta luz são interpretadas. Contemporaneamente, a luz da Revelação ilumina os aspectos naturalísticos. Ela doa maior realismo às esperanças terrenas, porquanto diz respeito às mudanças sociais desejadas. A consciente aproximação da doutrina social e mensagem bíblica esclarecem que o ser humano não será mais percebido qual mero objeto, mas qual portador de um futuro melhor. E qualquer progresso humano poderá originar unicamente de uma humanidade mais humana. O singular indivíduo, porém necessita não somente de projetos melhores e maiores possibilidades; necessita, também, da salvação e santificação na Igreja.

Teocentrismo vivido

Assim, nós, hoje, não poderemos limitar-nos a uma perspectiva extrínseca no ocuparmos da doutrina social – interessando-nos somente pela questão sobre a sua atualidade. Perguntando-nos se ela aborde temas políticos e econômicos atuais; se oferece, realmente, respostas à miséria do mundo; se ela tenha tendências de esquerda ou de direita. Assim fazendo, praticaremos um acadêmico “l’art pour l’art”. E poderemos estar certos do desprezo do filósofo dinamarquês Sören Kierkegaard, que apostrofou os discursadores de salão como “existências estéticas”. Assim, ele definiu aqueles intelectuais que não aplicam a verdade à própria pessoa. Com este termo, condena aqueles indivíduos que, por toda parte, não reconhecem senão possibilidades; que não se empenham pessoalmente em decisões e relações, mantendo uma relação ambígua a respeito da seriedade do mundo real.

Se, portanto, desejamos deixar para trás a doutrina social como “l’art pour l’art”, devemos pedir-nos qual possa ser o seu ponto de conexão existencial para nós. Quais responsabilidades nos pede de assumirmos aqui e agora? O olhar retrospectivo, sobre o seu percurso histórico, nos mostra, claramente, tal ponto focal: ele diz respeito ao peso que damos a Deus na nossa vida e no nosso empenho – não qual fator descontado, já que somos cristãos praticantes; mas movidos, no centro do nosso coração, pelo Espírito Santo. Mais uma vez é o nosso papa a abrir-nos os olhos.

Por ocasião da celebração do Natal, na sua pregação, ele comentou dos “pastores que se apressam do Evangelho”: “a maioria dos homens não considera prioritárias as coisas de Deus, elas não nos perseguem de modo imediato. E, assim, nós, na grande maioria, estamos bem dispostos a protelar. Antes de tudo, se faz aquilo que aqui e agora parece urgente. No elenco das prioridades, Deus se encontra, freqüentemente, quase que no último lugar. Isto – se pensa, se poderá fazer sempre. O Evangelho nos diz: Deus tem a máxima prioridade. Se qualquer coisa na nossa vida merece pressa sem dúvida, isto é, então, somente a causa de Deus. (...) O tempo empregado para Deus e a partir d’Ele, para o próximo, nunca é tempo perdido. É o tempo, no qual vivemos verdadeiramente, no qual vivemos o próprio ser pessoas humanas”.

[1] Cfr. Das Zweite Vatikanische Konzil, Bd. III, Freiburg 1968, 313ff.

[2] Cfr. ad ES. O. von Nell-Breuning, Krise der katholischen Soziallehre? (Crise da doutrina social da Igreja? Ndt), in StZ 189 (1972), pag. 86-98.

[3] Cfr. in mérito Caritas in veritate n. 31. [4] Com espírito agudo analisa por exemplo a relação recíproca em “Die Bedeutung religiöser und sitlicher Werte in der pluralistichen Gesellschaft”, in Wahrheit,Werte, Macht, Friburgo 1993, 63 ss. Também em Deus caritas est, nº 28, afronta novamente o argumento de maneira aprofundada. Segundo a sua interpretação, entre as duas formas de percepção da verdade não existe uma alternativa; daí deriva que a doutrina social iluminada pela fé não pode renunciar aos ensinamentos da filosofia natural.

Fonte: 31.03.2011 - Arquidiocese-RJ

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