quinta-feira, 31 de março de 2011

VIDA ARTIFICIAL

A Campanha da Fraternidade sobre a “vida no planeta” refere-se à qualidade de vida humana.
Nada a ver com a idolatria da natureza, como “mãe gaia”, uma deusa. A vida no planeta prioriza e enfoca a dignidade da vida humana, ameaçada ou negada por vários fatores. Entre tantos vetores complexos estão as falsas necessidades que nós criamos e que, cedo ou tarde, acabam sendo uma carga insuportável.

A propaganda massificadora da sociedade de consumo nos tenta e nos alicia. Não raro desviam-nos dos ideais e dos valores humanitários, antigos marcos indispensáveis para a formação do caráter ético, moral, cívico, religioso. Muitas crianças, adolescentes e jovens, hoje, adotam estilos de vida esvaziados de valores referenciais que, aliás, nem conhecem porque não lhos transmitimos pelos exemplos de vivência profunda.

O quadro referencial da família é substituído pela “galera” que adota modas bizarras. Tatuagens, piercings e brincos conferem-lhes a sensação de nova identidade. Shoppings tornam-se seus espaços de convívio livre e seguro. Abocanhar por lá um “super x” saturado qualquer lhes garante sabor, vitalidade, energia. Quanto mais longe da presença e controle dos pais (ou de novo arranjo familiar), sentem-se descomplexados. Entretanto, pai ou mãe é obrigado a patrocinar os arbítrios dos novos inventores do mundo.

Para muita gente nova, ambiente natural, de fato, deve ser artificial. Até o local deve ter aquele cheirinho típico de ar-condicionado misturado com gordura trans, chicletes e (não nos horrorizemos) erva ou pó. O padrão de felicidade é imposto de forma artificial. Por dentro estão vazios. Vivem de conversas supérfluas, fúteis. Dificilmente leem algum livro formativo ou artigo crítico e construtivo. Está criado um novo “habitat”.

Questionemos a soma da desconstrução da vida natural e criação de um ambiente artificial. Quem representa qual papel para agradar a quem? A malhação deve continuar para um corpo sarado. Demonstre que você está feliz. Imagem é tudo! A aparência é o segredo da felicidade. A sociedade de consumo se impõe entre a futilidade e a mediocridade. Como meta e resultado o apurado é um “déficit” situado entre a infantilização das mentes e o despreparo para assumir responsabilidade com capacitação.

Quando vierem as provações, as cruzes e as contradições inevitáveis que Deus manda para que todos aprendam, cresçam e amadureçam, talvez procurem alguma forma de espiritualidade. Levemos o Evangelho de Jesus aos que precisam de esclarecimento. Cuidado com oportunistas vendendo o céu, sem cruz. O preço é salgado porque hoje, até a religião virou business.

Dom Aldo Pagotto
Arcebispo da Paraíba

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