quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Pior que a guerra

Passadas as eleições, sem querer reduzir a problemática do Brasil à questão do aborto, aproveito esse espaço para algumas considerações que ajudem a compreender a posição da Igreja Católica e da quase totalidade das Igrejas Cristãs sobre o assunto. Digo “a quase totalidade” por ter ouvido, horrorizado, na Internet, os argumentos nada evangélicos com os quais Edir Macedo defende a legalização do aborto. Tendo visto e ouvido a Presidente eleita, também na Internet, afirmar que a descriminalização-legalização do aborto já deveria ter vindo há mais tempo, tendo ainda ouvido a insinuação de que discutir esta questão era misturar religião com política, como se a defesa da vida desde a concepção fosse, em primeiro lugar, um preceito religioso, julgo-me no direito e no dever de expor o ponto de vista daqueles que defendem a vida sempre, em todas as suas etapas, desde o início até seu fim natural. Faço-o através de algumas afirmações cuja força lhes vem de sua racionalidade. Se o aborto provocado é eticamente possível, não há por que limitá-lo apenas a alguns casos ou, por ex., como o fez a legislação portuguesa, até o quarto mês de gravidez. Por que não até o nono? A máxima de Emmanuel Kant “age sempre de tal maneira que a máxima de tua ação possa ser erigida em norma universal” nos faz pensar. Legalizado, o aborto se torna um direito legal para todas as mulheres. Avançando na reflexão kantiana, perguntemo-nos: e se todas as mulheres do mundo resolvessem usar desse direito? Dirá o leitor abortista: “mas isso não vai acontecer”. Prezado leitor, não pode ser considerado um direito aquilo cujo exercício a reta razão afirma não poder ser posto em prática por todos. Façamos outra hipótese: legalizemos o suicídio, já que há pessoas que se suicidam, com grande sofrimento, por ex., tomando soda cáustica. Teríamos formas suaves de suicídio, à semelhança do histórico suicídio de Petrônio. Estaria assim instituído o direito ao suicídio. O suicídio pode ser um direito? E se todos os seres humanos se suicidassem? A humanidade pode, em uma assembléia geral, mediante votação, decidir-se pelo seu próprio extermínio? Dirá algum leitor, mas só seria permitido em circunstanciais especialíssimas. Mas, quem determinaria essas circunstâncias? Não teria que ser o próprio indivíduo? Há certos princípios de lei natural que não admitem exceção. Se é um direito o suicídio, não pode haver limitação para a liberdade daquele que se decide por ele. Basta o “não quero mais viver.” Não me acuse de estar mudando de assunto, pois entre o aborto e o suicídio só existe uma diferença: no aborto alguém se decide pela extinção da vida incipiente de outro. Foi bom ouvir a presidente eleita dizer que é a favor da vida, que vai se empenhar por melhorar a vida das pessoas, combatendo a miséria. Foi bom também ouvi-la proclamar que o aborto é uma violência, inclusive contra a própria mulher. Foi interessante ouvi-la dizer que nenhuma mulher fica feliz de submeter-se ao aborto... Estou de pleno acordo, pois já ouvi muitas, e dolorosas, confissões a respeito. Só não entendo como se pode pensar em legalizar uma coisa que só produz morte e infelicidade. Até hoje não encontrei nenhuma mulher normal que tenha se arrependido de ter levado até o fim sua gravidez. Existirá alguma que se declare feliz por ter aceitado o aborto que lhe fizeram? A lógica da ausência de valores na cultura atual poderá gerar fatos assim: professores proibidos de lecionar por ensinarem que matrimônio de verdade só é possível entre um homem e uma mulher; médicos expulsos do serviço público por se recusarem a fazer o aborto ou processados por não atenderem o direito ao suicídio assistido, também chamado, em certas circunstâncias, de eutanásia. Escutemos a palavra da Bem-aventurada Tereza que dedicou sua vida a acolher miseráveis a morrer nas ruas de Calcutá:"Temos medo da guerra nuclear e dessa nova enfermidade que chamamos de AIDS; mas matar crianças inocentes não nos assusta! O aborto é pior do que a fome, pior do que a guerra!". É por isso que você, político cristão, tem obrigação de lutar para que não entre no programa de seu partido a proposta de legalização do aborto ou, então, que lhe seja respeitado o direito de votar, quando for o caso, a favor da vida nascente. Caso contrário, saia do partido. Aproveito este espaço para comunicar que, no próximo dia 27, início do Advento, o Santo Padre estará realizando em Roma uma grande “Vigília pela Vida Nascente”. Em todas as paróquias de nossa Arquidiocese realizaremos também essa Vigília atendendo a seu apelo: “Nessa Vigília, celebrada por todas as Igrejas Particulares, pediremos a graça e a luz do Senhor para a conversão dos corações e daremos um testemunho eclesial comum para uma cultura da vida e do amor”.(Bento XVI).

Dom Eduardo Benes de Sales
Arcebispo de Sorocaba

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