sábado, 22 de janeiro de 2011

Acebispo de Belo Horizonte Dom Walmor Azevedo pede fim da lama da corrupção


Uma igreja e a lama

No álbum da triste violência das águas que caíram na região serrana do Rio de Janeiro, produzindo cenário devastador, que clama urgências de solidariedade e atuações com responsabilidades cidadãs, políticas e governamentais, há uma foto mostrando uma Igreja e muita lama. Lama que desceu das encostas devastando tudo e levando vidas.

Há também outro tipo de lama que nos preocupa – a da corrupção existente nas instituições da sociedade contemporânea. Lama que se expressa na rapidez da aprovação de benefícios em favor de grupos e de classes, já privilegiados em relação aos que estão na carência e na miséria, causando indignação nos que se pautam pela conduta cidadã. A velocidade com que se aprovam benefícios para os servidores do povo está na contramão das morosidades das posições tomadas para evitar tragédias como essa e tantas outras que vitimam os inocentes, os pobres. Vitimam também, os que querem contribuir, mesmo na simplicidade, na construção de uma sociedade justa, solidária e mais fraterna.

Uma igreja e muita lama - fotografia que merece receber interrogações que não podem deixar de incomodar a consciência cidadã de todos: quando vai mudar a conduta social, política, governamental? Como mudar, cada um, a sua conduta diante dos rumos dados à vida de todos, com nefastas consequências, como o banho de lama que sujou a sociedade brasileira?

A igreja, mostrada naquela fotografia, permaneceu erguida, mesmo depois das agressões da lama devastadora que desceu matando gente, destruindo famílias e sonhos. Levando coisas que tantos adquiriram com sacrifícios e ao longo de muitos anos de trabalho. Ela tornou-se referência de uma comunidade de fé que ali se congregava. Essa congregação pela força da fé é um caminho com dinâmicas muito próprias para sensibilizar e iluminar consciências, para a coragem de se assumir um caminho de mudanças no horizonte do respeito com que a vida de todos deve ser tratada. A magnitude dessa tragédia, na paradisíaca região serrana do Rio de Janeiro, configura o cenário triste de tudo o que vem acontecendo pelo Brasil afora, com repetições a cada ano, apenas mudando de lugar. É preciso um novo aguilhão na consciência cidadã de todos, que faça brotar a coragem audaciosa de não apenas mexer nas estruturas ou dar mais inteligência às estratégias. É urgente mudar a conduta cidadã de cada um para debelar a cultura da malandragem, do tráfico que se associa à cultura da disputa insana pelo poder, com a troca de favores, benesses e cargos. Isso para não deixar cair no esquecimento, o sentido de que os mandatos e o poder que se exercem, é um serviço que se deve prestar à sociedade e à vida.

A lama que vai destroçando vidas, dizimando cidades e apagando sonhos, e o futuro de famílias e pessoas, precisa muito da iluminação da fé. Fé que remete cada um ao mais recôndito da própria consciência, para estabelecer um diálogo insubstituível, fazendo surgir uma força de valores que podem presidir condutas, ou escalonar prioridades. E superar gigantescos desastres ecológicos, políticos e sociais que vão se repetindo.
Não falta quem pergunte a Deus as razões desse desastre lamentável. No reverso desta interrogação é preciso indagar a Deus com disposição de obediência a Ele, com escuta autêntica e eficaz: como se comportar e ter conduta adequada no trato com a coisa pública e no respeito pleno à dignidade de cada pessoa, para evitar sofrimentos e dores tão grandes.

Aquela igreja que suportou o peso da lama é referência fundamental na comunidade devastada. Ali a congregação que se reúne para escutar a Palavra de Deus e celebrar a vida, pela força da fé, como dom precioso que vem d’Ele, forjou, certamente, muitos corações em sintonia com o bem, a exemplo das solidariedades que nesta hora difícil estão se concretizando, revelando o segredo que faz do coração humano lugar do amor e do compromisso com a justiça. A força da fé tem sustentado os que sofrem as maiores consequências. Também tem projetado aqueles que se enfileiram com gestos de solidariedade e partilha. O sentido social e de pertença a um mesmo povo recebe fecundidade própria da força da fé, que gera a cultura da bondade no coração e faz encontrar o sentido maior de tudo na alegria de ser bom - porque é bom ser bom.

Uma igreja não é lugar de promessas milagrosas e mirabolantes - é verdade que Deus pode tudo! Ela é lugar de encontro com Deus no exercício permanente da escuta de sua Palavra, fazendo brotar a permanente novidade da consciência moral fundada nos valores do Evangelho. É a demanda de tecer a cultura da bondade, da solidariedade e da justiça. A Igreja tem com sua razão de ser e seus valores, a missão de estar presente e atuante, sempre ao lado de quem precisa.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

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