sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

EDUCAR OS JOVENS PARA A JUSTIÇA E PAZ - 1.1.2012 - DIA MUNDIAL DA PAZ

1. INÍCIO DE UM NOVO ANO, dom de Deus à humanidade, induz-me a desejar a todos, com grande confiança e estima, de modo especial que este tempo, que se abre diante de nós, fi que marcado concretamente pela justiça e a paz.


Com qual atitude devemos olhar para o novo ano? No salmo 130, encontramos uma imagem muito bela. O salmista diz que o homem de fé aguarda pelo Senhor « mais do que a sentinela pela aurora »(v. 6), aguarda por Ele com firme esperança, porque sabe que trará luz, misericórdia, salvação. Esta expectativa nasce da experiência do povo eleito, que reconhece ter sido educado por Deus a olhar o mundo na sua verdade sem se deixar abater pelas tribulações.

Convido-vos a olhar o ano de 2012 com esta atitude confiante. É verdade que, no ano que termina, cresceu o sentido de frustração por causa da crise que aflige a sociedade, o mundo do trabalho e a economia; uma crise cujas raízes são primariamente culturais e antropológicas. Quase parece que um manto de escuridão teria descido sobre o nosso tempo, impedindo de ver com clareza a luz do dia.

Mas, nesta escuridão, o coração do homem não cessa de aguardar pela aurora de que fala o salmista.
Esta expectativa mostra-se particularmente viva e visível nos jovens; e é por isso que o meu pensamento se volta para eles, considerando o contributo que podem e devem oferecer à sociedade.


Queria, pois, revestir a Mensagem para o XLV Dia Mundial da Paz duma perspectiva educativa: « Educar os jovens para a justiça e a paz », convencido de que eles podem, com o seu entusiasmo e idealismo, oferecer uma nova esperança ao mundo. 

A minha Mensagem dirige-se também aos pais, às famílias, a todas as componentes educativas, formadoras, bem como aos responsáveis nos diversos âmbitos da vida religiosa, social, política, econômica, cultural e mediática. Prestar atenção ao mundo juvenil, saber escutá-lo e valorizá-lo para a construção dum futuro de justiça e de paz não é só uma oportunidade mas um dever primário de toda a sociedade.

Trata-se de comunicar aos jovens o apreço pelo valor positivo da vida, suscitando neles o desejo de consumá-la ao serviço do Bem. Esta é uma tarefa, na qual todos nós estamos, pessoalmente, comprometidos.

As preocupações manifestadas por muitos jovens nestes últimos tempos, em várias regiões do mundo, exprimem o desejo de poder olhar para o futuro com fundada esperança. Na hora atual, muitos são os aspectos que os trazem apreensivos: o desejo de receber uma formação que os prepare de maneira mais profunda para enfrentar a realidade, a dificuldade de formar uma família e encontrar um emprego
estável, a capacidade efectiva de intervir no mundo da política, da cultura e da economia contribuindo para a construção duma sociedade de rosto mais humano e solidário.

É importante que estes fermentos e o idealismo que encerram encontrem a devida atenção em todas as componentes da sociedade. A Igreja olha para os jovens com esperança, tem confiança neles e encoraja-os a procurarem a verdade, a defenderem o bem comum, a possuírem perspectivas abertas sobre o mundo e olhos capazes de ver « coisas novas » (Is 42, 9; 48, 6).

Os responsáveis da educação
2. A educação é a aventura mais fascinante e difícil da vida. Educar – na sua etimologia latina educere– significa conduzir para fora de si mesmo ao encontro da realidade, rumo a uma plenitude que faz crescer a pessoa. Este processo alimenta-se do encontro de duas liberdades: a do adulto e a do jovem. Isto exige a responsabilidade do discípulo, que deve estar disponível para se deixar guiar no conhecimento da realidade, e a do educador, que deve estar disposto a dar-se a si mesmo. Mas, para isso, não bastam meros dispensadores de regras e informações; são necessárias testemunhas autênticas, ou seja, testemunhas que saibam ver mais longe do que os outros, porque a sua vida abraça espaços mais amplos. A testemunha é alguém que vive, primeiro, o caminho que propõe.

E quais são os lugares onde amadurece uma verdadeira educação para a paz e a justiça? Antes de mais nada, a família, já que os pais são os primeiros educadores. A família é célula originária da sociedade. « É na família que os filhos aprendem os valores humanos e cristãos que permitem uma convivência construtiva e pacífica. É na família que aprendem a solidariedade entre as gerações, o respeito pelas regras, o perdão e o acolhimento do outro ». Esta é a primeira escola, onde se educa para a justiça e a paz.

Vivemos num mundo em que a família e até a própria vida se vêem constantemente ameaçadas e, não raro, destroçadas. Condições de trabalho frequentemente pouco compatíveis com as responsabilidades familiares, preocupações com o futuro, ritmos frenéticos de vida, emigração à procura dum adequado sustentamento se não mesmo da pura sobrevivência, acabam por tornar difícil a possibilidade de assegurar aos filhos um dos bens mais preciosos: a presença dos pais; uma presença, que permita compartilhar de forma cada vez mais profunda o caminho para se poder transmitir a experiência e as certezas adquiridas com os anos – o que só se torna viável com o tempo passado juntos. Queria aqui dizer aos pais para não desanimarem! Com o exemplo da sua vida, induzam os filhos a colocar a esperança antes de tudo em Deus, o único de quem surgem justiça e paz autênticas.

Quero dirigir-me também aos responsáveis das instituições com tarefas educativas: Velem, com grande sentido de responsabilidade, por que seja respeitada e valorizada em todas as circunstâncias a dignidade de cada pessoa. Tenham a peito que cada jovem possa descobrir a sua própria vocação, acompanhando-o para fazer frutificar os dons que o Senhor lhe concedeu. Assegurem às famílias que os seus filhos não terão um caminho formativo em contraste com a sua consciência e os seus princípios religiosos.

Possa cada ambiente educativo ser lugar de abertura ao transcendente e aos outros; lugar de diálogo, coesão e escuta, onde o jovem se sinta valorizado nas suas capacidades e riquezas interiores e aprenda a apreciar os irmãos. Possa ensinar a saborear a alegria que deriva de viver dia após dia a caridade e a compaixão para com o próximo e de participar ativamente na construção duma sociedade mais humana e fraterna.

Dirijo-me, depois, aos responsáveis políticos, pedindo-lhes que ajudem concretamente as famílias e as instituições educativas a exercerem o seu direito--dever de educar. Não deve jamais faltar um adequado apoio à maternidade e à paternidade. Atuem de modo que a ninguém seja negado o acesso à instrução e que as famílias possam escolher livremente as estruturas educativas consideradas mais idôneas para o bem dos seus filhos. Esforcem-se por favorecer a reunificação das famílias que estão separadas devido à necessidade de encontrar meios de subsistência. 

Proporcionem aos jovens uma imagem transparente da política, como verdadeiro serviço para o bem de todos. Não posso deixar de fazer apelo ainda ao mundo dos media para que prestem a sua contribuição educativa. Na sociedade atual, os meios de comunicação de massa têm uma função particular: não só informam, mas também formam o espírito dos seus destinatários e, consequentemente, podem concorrer notavelmente para a educação dos jovens. É importante ter presente a ligação estreitíssima que existe entre educação e comunicação: de fato, a educação realiza-se por meio da comunicação, que influi positiva ou negativamente na formação da pessoa.

Também os jovens devem ter a coragem de começar, eles mesmos, a viver aquilo que pedem a quantos os rodeiam. Que tenham a força de fazer um uso bom e consciente da liberdade, pois cabe-lhes em tudo isto uma grande responsabilidade: são responsáveis pela sua própria educação e formação para a justiça e a paz.

Educar para a verdade e a liberdade 
3. Santo Agostinho perguntava-se: « Quid enim
fortius desiderat anima quam veritatem – que deseja o homem mais intensamente do que a verdade? ». O rosto humano duma sociedade depende muito da contribuição da educação para manter viva esta questão inevitável. De fato, a educação diz respeito à formação integral da pessoa, incluindo a dimensão moral e espiritual do seu ser, tendo em vista o seu fim último e o bem da sociedade a que pertence.


Por isso, a fim de educar para a verdade, é preciso antes de mais nada saber que é a pessoa humana, conhecer a sua natureza. Olhando a realidade que o rodeava, o salmista pôs-se a pensar: « Quando contemplo os céus, obra das vossas mãos, a lua e as estrelas que Vós criastes: que é o homem para Vos lembrardes dele, o fi lho do homem para com ele Vos preocupardes? » (Sal 8, 4-5). Esta é a pergunta fundamental que nos devemos colocar: Que é o homem?


O homem é um ser que traz no coração uma sede de infinito, uma sede de verdade – não uma verdade parcial, mas capaz de explicar o sentido da vida –, porque foi criado à imagem e semelhança de Deus. Assim, o fato de reconhecer com gratidão a vida como dom inestimável leva a descobrir a dignidade profunda e a inviolabilidade própria de cada pessoa.


Por isso, a primeira educação consiste em aprender a reconhecer no homem a imagem do Criador e, consequentemente, a ter um profundo respeito por cada ser humano e ajudar os outros a realizarem uma vida conforme a esta sublime dignidade. É preciso não esquecer jamais que « o autêntico desenvolvimento do homem diz respeito unitariamente à totalidade da pessoa em todas as suas dimensões », incluindo a transcendente, e que não se pode sacrificar a pessoa para alcançar um bem particular, seja ele econômico ou social, individual ou coletivo.


Só na relação com Deus é que o homem compreende o significado da sua liberdade, sendo tarefa da educação formar para a liberdade autêntica. Esta não é a ausência de vínculos, nem o império do livre arbítrio; não é o absolutismo do eu. Quando o homem se crê um ser absoluto, que não depende de nada nem de ninguém e pode fazer tudo o que lhe apetece, acaba por contradizer a verdade do seu ser e perder a sua liberdade. De fato, o homem é precisamente o contrário: um ser relacional, que vive em relação com os outros e sobretudo com Deus. A liberdade autêntica não pode jamais ser alcançada, afastando-se d’Ele. A liberdade é um valor precioso, mas delicado: pode ser mal entendida e usada mal. 


« Hoje um obstáculo particularmente insidioso à ação educativa é constituído pela presença maciça, na nossa sociedade e cultura, daquele relativismo que, nada reconhecendo como definitivo, deixa como última medida somente o próprio eu com os seus desejos e, sob a aparência da liberdade, torna-se para cada pessoa uma prisão, porque separa uns dos outros, reduzindo cada um a permanecer fechado dentro do próprio “eu”. Dentro de um horizonte relativista como este, não é possível, portanto, uma verdadeira educação: sem a luz da verdade, mais cedo ou mais tarde cada pessoa está, de fato, condenada a duvidar da bondade da sua própria vida e das relações que a constituem, da validez do seu compromisso para construir com os outros algo em comum ».


Por conseguinte o homem, para exercer a sua liberdade, deve superar o horizonte relativista e conhecer a verdade sobre si próprio e a verdade acerca do que é bem e do que é mal. No íntimo da consciência, o homem descobre uma lei que não se impôs a si mesmo, mas à qual deve obedecer e cuja voz o chama a amar e fazer o bem e a fugir do mal, a assumir a responsabilidade do bem cumprido e do mal praticado. Por isso o exercício da liberdade está intimamente ligado com a lei moral natural, que tem caráter universal, exprime a dignidade de cada pessoa, coloca a base dos seus direitos e deveres fundamentais e, consequentemente, da convivência justa e pacífica entre as pessoas.

Assim o reto uso da liberdade é um ponto central na promoção da justiça e da paz, que exigem a cada um o respeito por si próprio e pelo outro, mesmo possuindo um modo de ser e viver distante do meu. Desta atitude derivam os elementos sem os quais paz e justiça permanecem palavras desprovidas de conteúdo: a confiança recíproca, a capacidade de encetar um diálogo construtivo, a possibilidade do perdão, que muitas vezes se quereria obter mas sente-se dificuldade em conceder, a caridade mútua, a compaixão para com os mais frágeis, e também a prontidão ao sacrifício.

Educar para a justiça
4. No nosso mundo, onde o valor da pessoa, da sua dignidade e dos seus direitos, não obstante as proclamações de intentos, está seriamente ameaçado pela tendência generalizada de recorrer exclusivamente aos critérios da utilidade, do lucro e do ter, é importante não separar das suas raízes transcendentes o conceito de justiça. De fato, a justiça não é uma simples convenção humana, pois o que é justo determina-se originariamente não pela lei positiva, mas pela identidade profunda do ser humano. É a visão integral do homem que impede de cair numa concepção contratualista da justiça e permite abrir também para ela o horizonte da solidariedade e do amor. 

Não podemos ignorar que certas correntes da cultura moderna, apoiadas em princípios econômicos racionalistas e individualistas, alienaram das suas raízes transcendentes o conceito de justiça, separando-o da caridade e da solidariedade. Ora « a “cidade do homem” não se move apenas por relações feitas de direitos e de deveres, mas antes e sobretudo por relações de gratuidade, misericórdia e comunhão. A caridade manifesta sempre, mesmo nas relações humanas, o amor de Deus; dá valor teologal e salvífico a todo o empenho de justiça no mundo ».

« Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados » (Mt 5, 6). Serão saciados, porque têm fome e sede de relações justas com Deus, consigo mesmo, com os seus irmãos e irmãs, com a criação inteira.

Educar para a paz
5. « A paz não é só ausência de guerra, nem se limita a assegurar o equilíbrio das forças adversas. A paz não é possível na terra sem a salvaguarda dos bens das pessoas, a livre comunicação entre os seres humanos, o respeito pela dignidade das pessoas e dos povos e a prática assídua da 
fraternidade». 


A paz é fruto da justiça e efeito da caridade. É, antes de mais nada, dom de Deus. Nós, os cristãos, acreditamos que a nossa verdadeira paz é Cristo: n’Ele, na sua Cruz, Deus reconciliou consigo o mundo e destruiu as barreiras que nos separavam uns dos outros (cf. Ef 2, 14-18); n’Ele, há uma única família reconciliada no amor.

A paz, porém, não é apenas dom a ser recebido, mas obra a ser construída. Para sermos verdadeiramente artífices de paz, devemos educar-nos para a compaixão, a solidariedade, a colaboração, a fraternidade, ser ativos dentro da comunidade e solícitos em despertar as consciências para as questões nacionais e internacionais e para a importância de procurar adequadas modalidades de redistribuição da riqueza, de promoção do crescimento, de cooperação para o desenvolvimento e de resolução dos conflitos. 

« Felizes os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus » – diz Jesus no sermão da montanha (Mt 5, 9). A paz para todos nasce da justiça de cada um, e ninguém pode subtrair-se a este compromisso essencial de promover a justiça segundo as respectivas competências e  responsabilidades. De forma particular convido os jovens, que conservam viva a tensão pelos ideais, a procurarem com paciência e tenacidade a justiça e a paz e a cultivarem o gosto pelo que é justo e verdadeiro, mesmo quando isso lhes possa exigir sacrifícios e obrigue a caminhar contracorrente.

Levantar os olhos para Deus
6. Perante o árduo desafi o de percorrer os caminhos da justiça e da paz, podemos ser tentados a interrogar-nos como o salmista: « Levanto os olhos para os montes, de onde me virá o auxílio? » (Sal 121, 1). A todos, particularmente aos jovens, quero bradar: « Não são as ideologias que salvam o mundo, mas unicamente o voltar-se para o Deus vivo, que é o nosso criador, o garante da nossa liberdade, o garante do que é deveras bom e verdadeiro (…), o voltar-se sem reservas para Deus, que é a medida do que é justo e, ao mesmo tempo, é o amor eterno. E que mais nos poderia salvar senão o amor? ». O amor rejubila com a verdade, é a força que torna capaz de comprometer-se pela verdade, pela justiça, pela paz, porque tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta (cf. 1 Cor 13, 1-13).
Queridos jovens, vós sois um dom precioso para a sociedade. 


Diante das dificuldades, não vos deixeis invadir pelo desânimo nem vos abandoneis a falsas soluções, que frequentemente se apresentam como o caminho mais fácil para superar os problemas. Não tenhais medo de vos empenhar, de enfrentar a fadiga e o sacrifício, de optar por caminhos que requerem fidelidade e constância, humildade e dedicação. Vivei com confiança a vossa juventude e os anseios profundos que sentis de felicidade, verdade, beleza e amor verdadeiro. Vivei intensamente esta fase da vida, tão rica e cheia de entusiasmo. 

Sabei que vós mesmos servis de exemplo e estímulo para os adultos, e tanto mais o sereis quanto mais vos esforçardes por superar as injustiças e a corrupção, quanto mais desejardes um futuro melhor e vos comprometerdes a construí-lo. Cientes das vossas potencialidades, nunca vos fecheis em vós próprios, mas trabalhai por um futuro mais luminoso para todos. Nunca vos sintais sozinhos! 


A Igreja confia em vós, acompanha-vos, encoraja-vos e deseja oferecer-vos o que tem de mais precioso: a possibilidade de levantar os olhos para Deus, de encontrar Jesus Cristo – Ele que é a justiça e a paz. Oh vós todos, homens e mulheres, que tendes a peito a causa da paz! Esta não é um bem já alcançado mas uma meta, à qual todos e cada um deve aspirar. Olhemos, pois, o futuro com maior esperança, encorajemo-nos mutuamente ao longo do nosso caminho, trabalhemos para dar ao nosso mundo um rosto mais humano e fraterno e sintamo-nos unidos na responsabilidade que temos para com as jovens gerações, presentes e futuras, nomeadamente quanto à sua educação para se tornarem pacíficas e pacificadoras! Apoiado em tal certeza, envio-vos estas reflexões que se fazem apelo: 


Unamos as nossas forças espirituais, morais e materiais, a fim de «educar os jovens para a justiça e a paz».

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

A IGREJA NA AMÉRICA, ÍCONE CONTRA A CORRUPÇÃO

Entrevista com o Cardeal de Santo Domingo sobre a próxima visita do Papa

ROMA, quinta-feira, 15 de dezembro de 2011(ZENIT.org) – A visita do Papa a América Latina além de motivo de alegria, recorda o compromisso da Igreja pelos direitos humanos e sua posição clara e firme diante de alguns fatores negativos, como a violência e o narcotráfico, pois em geral a Igreja é a única instituição que não foi infiltrada pelo narcotráfico e a corrupção.
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Falou ao ZENIT o Cardeal de Santo Domingo Nicolás de Jesús López, em entrevista concedida depois da celebração de Bento XVI, na basílica de São Pedro em honra à Virgem de Guadalupe.
Bento XVI, em sua homilia na missa pela festividade da Virgem de Guadalupe, confirmou sua viagem: “Sustentado pelo auxílio da providência divina, tenho a intenção de realizar uma viagem apostólica antes da santa Páscoa ao México e a Cuba, para proclamar ali a Palavra de Cristo”, disse. Neste momento, os milhares de latino americanos que se encontravam na basílica o interromperam de pé com um caloroso aplauso.
A viagem do Papa em março, apesar de ser apenas para dois países dos 32 da região, é sentido por toda a América Latina como se fosse “em casa”. Por isso perguntamos ao cardeal Nicolás de Jesús, o impacto que terá na região.
Depois de cinco anos que a América Latina parecia ter sido esquecida, agora começam a abrir-se uma série de visitas do Papa, a da Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro em 2013, em março na América Latina.
Cardeal De Jesus: É isso, indiscutivelmente a visita do papa Bento XVI, bem como as 18 que fez João Paulo II, é um motivo de alegria sentido por todos os nossos países. Esta visita acontece no contexto do bicentenário e sem dúvidas, também tem uma razão. Estes povos nasceram, podemos dizer, nos braços da Igreja, e certamente temos que dizer: os missionários assim que chegaram, defenderam os direitos dos indígenas.
Poderia nos explicar alguma coisa a mais sobre a defesa dos direitos dos indígenas?
Cardeal De Jesús: Recentemente foi realizada na minha cidade, a apresentação de um livro escrito na Espanha sobre os direitos humanosem Santo Domingo.Nãoqueremos entrar em discussão com as Nações Unidas que invocou os direitos humanos como nascidos com a revolução francesa. Entretanto, estes professores da Complutense disseram: andem a San Ferín  e ali, antes de 1511, os direitos humanos foram defendidos da forma mais brilhante e coerente.
E no que se refere ao bicentenário da independência de diversos países da América Latina?
Cardeal De Jesús: Para mim, com certeza, é motivo de alegria que o Santo Padre tenha aceitado a sugestão de celebrar esta missa por ocasião do bicentenário. Porque a Igreja católica não esteve alheia a estes eventos. Inclusive Simon Bolívar enviou uma carta muito bonita ao Papa, pedindo-lhe para nomear bispos nativos da América, porque a separação destes países da Espanha não queria dizer que eles o fizeram da igreja católica. Muito significativa a existência desta carta. Por isso eu digo, estamos muito contentes com esta celebração, e espero que a visita de Bento XVI confirme as solicitações dos papas para a América.
A primeira evangelização foi na América Latina, agora surge uma nova evangelização. Qual é a maior dificuldade para aceitar a fé, que é o que o Papa vai despertar?
Cardeal De Jesús: Acho que existe uma série de problemas universais. Indiscutivelmente existe um novo contexto cultural que influencia: Europa, Estados Unidos, etc. Mas existem outras realidades que preocupam muito os latino americanos, como a violência na América Latina, o narcotráfico e mesmo a corrupção que é algo que atinge a consciência latino americana, eu acredito que são fenômenos registrados por todas as partes. A Igreja reage frente a violência e a corrupção?
Cardeal De Jesús: O problema tem raízes profundas. Estas pessoas têm a capacidade, a habilidade de penetrar através do dinheiro em diversas camadas. Estes dias, eu ouvi dizer que a igreja católica era a única instituição que até agora não foi penetrada pelo narcotráfico na América Latina. Creio que é possível afirmar issoem geral. Além disso, é difícil dizer, mas temos que reconhecer que o dinheiro corrompe e está prejudicando muitas consciências.
Diante disso qual é a mensagem da Igreja?
Cardeal De Jesús: Neste sentido a Igreja deve manter uma posição muito clara, exatamente em defesa da verdade, da justiça, da paz, do respeito a todas as pessoas e inclusive por aqueles que não têm fé alguma, respeito por todos. E, é claro, estamos abertos ao diálogo, até mesmo com os diversos grupos religiosos.
Por H.Sergio Mora

Cultura da vida e da família - Canadá

Iniciativa dos bispos do Canadá dedicada à vida e à família


Ottawa (RV) – Em preparação do próximo Sínodo dos Bispos sobre a Nova Evangelização e o Ano da Fé 2012-2013, proclamado por Bento XVI, os Bispos do Canadá lançarão em 2012 um especial programa pastoral dedicado à vida e à família.


Com título “Construir uma cultura da vida e da família no Canadá”, o programa prevê em 2012 um ano de preparação em que serão distribuídos material subsídios.

A decisão é fruto de uma longa reflexão realizada nestes dois anos pelo Episcopado canadense com a contribuição do Organismo católico pela Vida e a Família (OCVF) e cujas conclusões foram amplamente discutidas na última assembléia plenária anual da Conferência episcopal (Cecc/Cccb) em Cornwall. Da reflexão foi amadurecendo a convicção - destaca o último presidente da Cecc/Cccb -, Dom Pierre Morisette, que a família e a Nova Evangelização são desafios unidos entre si.

No dia 8 de dezembro, Festa da Imaculada, o novo presidente do Episcopado, Dom Richard Smith, escreveu uma carta a todos os Bispos do País, convidando-os a preparar também com a ajuda do Organismo católico pela Vida e a Família, um programa pastoral pela Vida e a Família em suas Dioceses, adaptando-o às específicas exigências de cada uma.

Na carta, Dom Smith lembra, entre outras coisas, que a estreita relação entre Família e Nova Evangelização, foi novamente lembrado no dia 1º de dezembro pelo Santo Padre no discurso à Assembleia plenária do Pontifício Conselho para a Família. Naquela ocasião, o Papa afirmou em particular que “a nova evangelização é inseparável da família cristã. Ela, de fato, é o itinerário da Igreja porque é ‘espaço humano’ do encontro com Cristo. A família alicerçada sobre o sacramento do Matrimônio – acrescentara o Papa – é atuação particular da Igreja, comunidade salva e salvadora, evangelizada e evangelizadora. Como a Igreja, a família é chamada a acolher, irradiar e manifestar no mundo o amor e a presença de Cristo”. (SP)

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

ONU: Assembleia Geral adota novo protocolo para Convenção sobre os Direitos da Criança

20 de dezembro de 2011 · Notícias
A Assembleia Geral adotou na última segunda-feira (19/12) um novo protocolo para a Convenção sobre os Direitos da Criança. Esse protocolo busca encorajar Estados a desenvolver um mecanismo de atendimento às queixas de crianças cujos direitos foram violados. Ele entrará em vigor três meses após adquirir ratificação e adesão de dez países.
Esse documento é o terceiro da Convenção, que já tem protocolos sobre o tráfico de crianças, prostituição infantil e pornografia infantil. “Estou confiante que a adoção do protocolo será seguida por um rápido processo de ratificação e suas disposições ajudem a por fim na invisibilidade e no silêncio em torno da violência contra as crianças”, defendeu a Representante Especial do Secretário-Geral sobre Violência contra Crianças, Marta Santos Pais.
Estabelecida em 1989,  a Convenção dos Direitos da Criança é o primeiro instrumento legal internacional que incorpora toda a gama de direitos humanos – civil, cultura, econômico, politico e social – para menores de 18 anos.
Para conferir o protocolo em inglês, clique aqui.

Combate à corrupção na sociedade e na Igreja: o compromisso dos religiosos - India


Nova Délhi (Agência Fides) - A transparência, a moralidade na vida pública e privada e o combate à corrupção estão no Dna do compromisso dos religiosos e de todos os cristãos na sociedade e na Igreja: é o que afirmou um Seminário realizado nos últimos dias em Jansui (no estado de Uttar Pradesh, norte da Índia), que teve o tema: "A nossa resposta à corrupção na sociedade e na Igreja". 

Como informam fontes da Fides, o Seminário, organizado pela Conferência dos Superiores Maiores da Índia reuniu mais de 60 delegados de institutos religiosos masculinos e femininos de diversas dioceses, e debateu a questão da corrupção, planejando estratégias para combatê-la. 

A luta à corrupção voltou ao auge no país depois da grande campanha pública lançada no início de 2011 pela líder Anna Hazare, que congregou a sociedade civil indiana e conseguiu levar uma proposta de lei ao Parlamento. 

A proposta, porém, ainda não foi examinada e o movimento está insistindo. "É necessário ter coragem para falar e tomar posição na vida real" - frisou em seu pronunciamento Irmã Deepa, da Congregação de Jesus, descrevendo as dimensões da corrupção na Índia e explicando que "nós também somos vítimas deste grande mal". "Precisamos nos libertar deste mal para desempenhar um papel profético na sociedade" - disse, assinalando que "existem membros do pessoal eclesial corruptos. Urge erradicar esta ameaça de nossas próprias comunidades". 

Notando que muitas vezes também os religiosos "não têm coragem de denunciar práticas corruptas, tornando-se de certo modo cúmplices, os participantes do seminário elaboraram uma lista de "ações comuns" necessárias para erradicar a corrupção. 

Ficou decidido de se trabalhar em dois planos concretos. O primeiro passo é compartilhar com os membros da comunidade de proveniência estes problemas, sensibilizando e criando a "consciência comum". Tal consciência deve ser, em seguida, levada a escolas, paróquias e associações juvenis, através de debates e assembleias. (PA) (Agência Fides 17/12/2011)

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

A SAGRADA FAMÍLIA

Para muitos, no dia 26 de dezembro o Natal já passou e a vida retorna às atividades normais. A Igreja, no entanto, observa uma Oitava do Natal até 1º de janeiro (seguindo a prática judaica de 8 dias de celebrações) e um período de Natal estendido até dia 6 de janeiro, a Festa da Epifania (atualmente celebrada no domingo entre 2 e 8 de janeiro).

No domingo entre o Natal e 1º de janeiro, a Igreja celebra a Sagrada Família. Esta festa é especialmente
importante hoje, quando muitas famílias enfrentam lutas e desafios para viver sua Fé.

A Família de Belém é o reflexo mais puro da Santíssima Trindade, que – não nos cansaremos de repetir com João Paulo II – “não é uma solidão, mas uma família, já que traz em si mesma a paternidade, a filiação e a essência da família, que é o amor”. Por isso também se chamou a Jesus, Maria e José “a Trindade da terra”. E um dos clássicos castelhanos pôs-lhes o título de “os Três Sóis”.

Temos em nossas missas a canção que diz “que bom seria se as mães fossem Maria e se os pais fossem José... e se a gente parecesse com Jesus de Nazaré”. A Sagrada Família é nosso modelo, nossa lição de vida familiar: respeito mútuo, diálogo, compreensão e união, oração: nessa Família se está reunido no amor de Deus, e aí Ele reina.

Na Sagrada Família, Jesus é o Sol dos sóis: a Luz do mundo!

A Virgem Maria é um sol que ilumina sem ofuscar; sem fazer milagres na terra, limita-se a ser Mãe. Assim como dá à luz o seu Filho em Belém, no Calvário dá à luz espiritualmente a todos nós, que somos irmãos do seu Filho, tornando-se, na figura de João, a Mãe de cada um de nós.

José, homem escolhido desde a eternidade para ser o patriarca da Família do Filho de Deus, e de todos os filhos de Deus que por dom gratuito somos, é um homem justo, no sentido bíblico da palavra, isto é, santo, cheio de graça santificante e de todas as virtudes necessárias para cumprir perfeitamente a sua missão de pai adotivo de Deus feito carne. Ele é um sol de justiça, que brilha sem magoar os olhos: sempre escolhe – livremente, prontamente e com iniciativa – o que se lhe apresenta como a Vontade de Deus, por mais sacrifícios que lhe custe.

Quando esses três Sóis brilham numa família, essa família resplandece. Reina nela uma comunhão delicada de pessoas que exclui a solidão, essa falta de luz, de carinho e de paz.

Na terra, a luz não se difunde sem tropeçar com obstáculos. Os Três Sóis conheceram essas trevas...  Mal nasceu o Sol dos sóis, começou a perseguição dos poderes das trevas, culminando com a Paixão e
morte de Jesus na Cruz. Mas a luz ia por dentro.

Nunca faltou o sentido de orientação, a plena confiança na Providência divina, a consciência de que, no
meio e por meio de todos os horrores e vilanias, o Deus Uno e Trino é o salvador da humanidade.

Quem acolher na sua vida a luz dos Três Sóis não terá de temer nenhuma escuridão, porque essas trevas
só poderão ser temporárias e externas. Os Três Sóis gostam de habitar no espaço íntimo dos corações, mais do que na superfície do mundo. Chegará o dia em que – como diz a Escritura – a cidade não necessitará nem de sol nem de lua para a iluminar, pois será iluminada pela glória de Deus e a sua luz será o

Cordeiro (...). Não haverá noite (Apoc 21,23-25).

(Fontes: Os Três Sóis, de Antonio Orozco; Eternal Word Television Network – http://www.ewtn.org/)

sábado, 24 de dezembro de 2011

Natal: Jesus chegou para salvar a humanidade!

Caríssimos irmãos, irmãs, diocesanos e internautas, 


O Natal de Jesus é tempo de alegria, reflexão e agradecimento. Jesus Cristo, 100% Deus,  foi enviado pelo Pai ao nosso meio, para encarnar 100% homem e passar por toda a experiência humana, desde a gestação.  


O anjo Gabriel foi enviado a uma jovem, chamada Maria, da cidade de Nazaré, para dar-lhe uma boa nova. Ela seria a mãe do filho de Deus. 


No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré. Foi a uma virgem, prometida em casamento a um homem chamado José, que era descendente de Davi. E o nome da virgem era Maria. O anjo engtrou onde lea estava, e disse: "Alegre-se, cheia de graça! O senhor está com você! (Lucas 1, 26-28).


Logo após o anúncio, Maria foi à casa de Isabel, sua prima, que também estava grávida de um menino, que seria chamado João, filho de Zacarias.  Ao chegar, Isabel percebeu que havia algo especial em Maria. Era a presença de Jesus em seu ventre. 

Naqueles dias,   Maria partiu   para a região montanhosa, dirigindo-se apressadamente a uma cidade de  Judá.  Entrou na casa  de  Zacarias e saudou Isabel.  Quando  Isabel   ouviu  a saudação de Maria,  a criança (no ventre de Isabel) se agitou  no seu  ventre e  Isabel ficou repleta  do   Espírito Santo.  Com  um grande  grito exclamou: "Bendita és   tu entre as mulheres e bendito é  o  fruto do  teu  ventre!  Como posso merecer que a  mãe do meu Senhor venha me visitar?  Logo que a sua saudação chegou aos meus ouvidos,  a criança saltou de alegria  no meu ventre. Bem-aventurada aquela que acreditou, porque vai acontecer o que 
o Senhor lhe prometeu." 
( Lucas 1, 39 - 45)


Jesus Cristo foi gestado como todas as crianças e permaneceu no ventre de Maria até o dia de seu nascimento. Ele marcou sua presença desde quando estava no ventre de Maria, conforme o relato da visita a Isabel. Com a chegada de Jesus, no ventre de Maria,   o menino  (João Batista) que estava no ventre de Isabel estremeceu e ela ficou repleta do Espírito Santo. Ainda quando estava no ventre de Maria, Jesus já era sinal de vida por onde sua mãe passava:

Então Maria Disse: "Minha alma proclama a grandeza do Senhor, meu espírito se alegra em Deus, meu salvador, porque olhou para a humilhação de sua serva. 
 Doravante todas as gerações me felicitarão, porque o Todo-Poderoso realizou grandes obras em meu favor: seu nome é santo e sua misericórdia chega aos que o temem, de geração em geração. Ele realiza proezas com seu braço: dispersa os soberbos de coração, derruba do trono os poderosos e eleva os humildes; aos famintos enche de bens, e despede os ricos de mãos vazias. 
Socorre Israel, seu servo, lembrando-se de sua misericórdia- conforme prometera aos nossos pais - em favor de Abraão e de sua descendência, para sempre.
( Lucas 1, 46-55).

A vinda de Jesus transformou a vida de todas as pessoas. Os três Reis Magos deixaram seus palácios e foram descobrir onde se encontrava o menino. Ao encontrá-lo, encheram-se de alegria e lhe ofereceram presentes: ouro, incenso e mirra.

Jesus encontrou muita gente que era deixada de lado pelas pessoas da cidade por terem algum tipo de doença. É o caso do cego que gritava para que Jesus o curasse (Lucas 18, 35-43). Ele não só cura, mas perdoa e ajuda as pessoas a perdoar, como no caso de Zaqueu (Lucas 19, 1-10). 
Ele veio para os que sofrem, os abandonados, os esquecidos e para todos os que Nele acreditam. Jesus Cristo trouxe a valorização da vida humana, o perdão dos pecados e a vida eterna.


Perdoar e pedir perdão quando erramos é um jeito especial de ser como Jesus, de viver semelhantemente a Jesus, para fazer brotar uma vida de alegria e de paz entre as pessoas


Jesus Cristo é o maior acontecimento na história da humanidade. Ele mudou as nossas vidas e continuará mudando a de todos que nEle acreditarem ou a Ele se dedicarem. Jesus Cristo disse: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida." (João 14,1-14).  . 
                                              
"Jesus Cristo é o mesmo,  ontem e hoje, e será sempre o mesmo. Não se deixem levar por nenhum tipo de doutrinas estranhas". (Hebreus 13,8-9)

Os Reis Magos, Gaspar, Melchior e Baltazar levaram presentes para Jesus Cristo. Vem daí a tradição de presentear. No Natal, as pessoas, os amigos,  as famílias trocam presentes, cumprimentos e desejos de boas festas e bom ano novo. 


A família é a primeira Igreja de Jesus Cristo. O Natal é a presença de Jesus Cristo. Que o Natal seja, principalmente, a oportunidade para agradecer ao Pai o envio da Terceira Pessoa da Trindade, o Espírito Santo, para encarnar-se VERDADEIRO HOMEM, assim unindo a nossa humanidade à sua divindade. 


Se estivermos realmente preocupados em estar com Ele, em conviver com o Cristo, em fazer a sua vontade, em viver a sua vida, Ele estará conosco, viverá em nós.  


Desejamos a você, irmão, irmã, diocesano, internauta,  um Santo Natal e um Ano Novo repleto de bênçãos, com Jesus Cristo sempre presente no seu dia-a-dia. 


As minhas bênçãos
Dom Luiz Bergonzini 
Bispo Emérito de Guarulhos

Bento XVI: JMJ pode reanimar a fé

Bento XVI à Cúria Romana: "A Jornada Mundial da Juventude pode reanimar a fé"


Cidade do Vaticano (RV) – O Papa Bento XVI recebeu na manhã desta quinta-feira, na Sala Clementina, os Cardeais e membros da Cúria Romana para as felicitações de Natal.

Fazendo um balanço dos principais eventos que marcaram a vida da Igreja neste ano de 2011, Bento XVI escolheu uma única temática que, segundo ele, expressa o verdadeiro desafio que a Igreja é chamada a enfrentar hoje e também no futuro: a evangelização. Como anunciar hoje o Evangelho? Como pode a fé, enquanto força viva e vital, tornar-se realidade hoje?

Os fiéis, e não só eles, notam que as pessoas que frequentam regularmente a Igreja se tornam sempre mais idosas e o seu número diminui continuamente; há uma estagnação nas vocações ao sacerdócio; crescem o ceticismo e a descrença. Como, então, reverter essa tendência?

Para o Pontífice, o cerne da crise da Igreja na Europa é a crise da fé. Se não encontrarmos uma resposta para esta crise, ou seja, se a fé não ganhar de novo vitalidade, tornando-se uma convicção profunda e uma força real graças ao encontro com Jesus Cristo, permanecerão ineficazes todas as tentativas para reanimá-la.

Neste sentido, afirmou o Papa, o encontro com a jubilosa paixão pela fé na África foi um grande encorajamento. "Lá não se sentia qualquer indício desta lassidão da fé, tão difusa entre nós, não havia nada deste tédio de ser cristão que se constata sempre no meio de nós. Apesar de todos os problemas, de todos os sofrimentos e penas que existem, sem dúvida, precisamente na África, sempre se palpava a alegria de ser cristão, de pertencer à Igreja".

Um remédio contra a lassidão do crer, segundo Bento XVI, foi a experiência da Jornada Mundial da Juventude, em Madri, na Espanha, que ele definiu "magnífica". Um remédio que o Papa dividiu em cinco "doses".

Em primeiro lugar, nesses eventos, há uma nova experiência da catolicidade, da universalidade da Igreja. Falamos línguas diferentes e possuímos costumes de vida diversos e formas culturais diversas; e no entanto nos sentimos imediatamente unidos como uma grande família.

Em segundo lugar, a Jornada favorece um novo modo de ser homem, de ser cristão, através do voluntariado. Cerca de 20 mil jovens fizeram o bem simplesmente porque é bom fazer o bem, é bom servir os outros. "É preciso apenas ousar o salto", afirmou o Papa.

O mesmo comportamento Bento também encontrou na África, por exemplo nas Irmãs de Madre Teresa que se prodigalizam pelas crianças abandonadas, doentes, pobres e atribuladas, sem se importarem consigo mesmas, tornando-se, precisamente assim, interiormente ricas e livres. Este é o comportamento propriamente cristão.

O terceiro elemento que faz parte das Jornadas Mundiais da Juventude é a adoração. Em Cristo ressuscitado, está presente Deus feito homem, que sofreu por nós porque nos ama. "Entramos nesta certeza do amor corpóreo de Deus por nós, e fazemo-lo amando com Ele. Isto é adoração. E só assim posso celebrar convenientemente a Eucaristia e receber devidamente o Corpo do Senhor."

Outro elemento importante das Jornadas Mundiais da Juventude é a presença do sacramento da Penitência. Deste modo, reconhecemos que necessitamos continuamente de perdão e que perdão significa responsabilidade.

Por fim, outra característica das Jornadas é a alegria, que brota da certeza de ser amado por Deus. Só a fé me dá esta certeza: É bom que eu exista; é bom existir como pessoa humana, mesmo em tempos difíceis. A fé nos faz felizes a partir de dentro. "Esta é uma das maravilhosas experiências das Jornadas Mundiais da Juventude."

O Papa então se dirigiu aos seus colaboradores da Cúria: "Queria agradecer do íntimo do coração a todos vocês pelo apoio que prestam para levar adiante a missão que o Senhor nos confiou como testemunhas da sua verdade, e desejo a todos vocês a alegria que Deus nos quis dar na encarnação do seu Filho. Um santo Natal!".
(BF)Fonte: Rádio Vaticano

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

A virgindade de Maria é única e irrepetível


Cidade do Vaticano (RV) - O Papa Bento XVI encontrou-se, no domingo,  com os fiéis e peregrinos presentes na Praça São Pedro para a habitual oração mariana do Angelus. Na alocução que precedeu a oração, numa manhã fria, típica de inverno, o Santo Padre recordou que neste quarto e último domingo do Advento, a liturgia nos apresenta este ano, a narração do anúncio do Anjo a Maria.

Contemplando o estupendo ícone da Santíssima Virgem o Papa se deteve brevemente sobre a importância da virgindade de Maria, do fato que ela concebeu Jesus, permanecendo virgem.

De fato, não só a Virgem Maria concebeu, mas o fez por obra do Espírito Santo, que é o próprio Deus. O ser humano que começa a viver em seu seio – disse o Papa - recebe a carne de Maria, mas sua existência é derivada inteiramente de Deus. É plenamente homem, feito de terra - para usar o símbolo bíblico - mas vem do alto, do Céu.

"O fato que Maria conceba permanecendo virgem, é portanto, essencial para o conhecimento de Jesus e para a nossa fé, porque testemunha que a iniciativa foi de Deus, e sobretudo revela Quem é o concebido. Como diz o Evangelho: Por isso, o Santo que vai nascer de você será chamado Filho de Deus. (Lc 1,35). Neste sentido, a virgindade de Maria e a divindade de Jesus se garantem reciprocamente".
Eis porque é tão importante a única pergunta que Maria, "muito turbada", dirige ao anjo: "Como se fará isto, visto que não conheço homem?" (Lc 1,34).

"Na sua simplicidade, Maria é sábia: Não duvida do poder de Deus, mas quer entender melhor a sua vontade, para conformar-se integralmente a esta vontade. Maria é infinitamente superada pelo mistério, no entanto, ocupa perfeitamente o lugar que, no centro do mesmo, lhe foi designado. Seu coração e sua mente são totalmente humildes, e, precisamente por causa de sua singular humildade, Deus espera o "sim" desta menina para realizar o seu designo. Respeita a sua dignidade e a sua liberdade".

E concluiu o Papa: "Queridos amigos, a virgindade de Maria é única e irrepetível; mas o seu significado espiritual refere-se a cada cristão. Em síntese, está ligado à fé: de fato, quem confia profundamente no amor de Deus, acolhe em si Jesus, a sua vida divina, através da ação do Espírito Santo. É esse o mistério do Natal!"

Símbolos de Natal: Presidente do STJ reclama de notícias falsas


Ministro Ari Pargendler
O presidente do Superior Tribunal de Justiça, ministro Ari Pargendler, mostrou esta semana que a instituição que dirige já não precisa tanto dos veículos comerciais de comunicação. Em vez de procurar a imprensa para protestar contra notícias que considerou inaceitáveis, usou o próprio site do tribunal para isso. Segundo o site Alexa.com, que mede a fatia de cada website na rede mundial de computadores, o STJ está entre os 600 endereços mais frequentados do Brasil e entre os 32 mil mais visitados do planeta.
Ari Pargendler divulgou nota na qual afirma serem falsas as reportagens que dizem que enfeites de Natal e o uso de sandálias tipo gladiador e calças jeans estariam proibidos na corte.
Ele acusou o jornalista Claudio Humberto de publicar em sua coluna "notícia falsa" sobre uma suposta proibição de enfeites de Natal "por ordem" do presidente do tribunal. Pargendler diz, ainda, que "os ambientes do tribunal estão decorados com motivos natalinos".
Também foi classificada como "falsa" pelo presidente do STJ a notícia publicada na Folha de S.Paulosobre a proibição do uso de sandálias tipo gladiador e calças jeans. Em nota, ele afirma que "apenas está proibido o uso de chinelos 'tipo Havaianas'".
Segundo Pargendler, o ato normativo que dispõe sobre a vestimenta de servidores e visitantes nas dependências do tribunal está "acessível no site deste ou mediante simples consulta no Google".
Quem frequenta a corte diz que, de fato, as sandálias estão proibidas e que os enfeites natalinos resumem-se a guirlandas nos gabinetes dos ministros que quiseram decorá-los.
Em resposta à nota do presidente do STJ, a Folha publicou fotografias de duas cartolinas afixadas em uma das entradas do tribunal com os modelos de sandálias femininas "não recomendados" e "recomendados".
Leia a nota do presidente do STJ sobre o tema:
Esclarecimento à sociedade
Há alguns dias, a coluna do jornalista Claudio Humberto divulgou que os enfeites de Natal estavam proibidos no Superior Tribunal de Justiça por ordem de seu Presidente. Notícia falsa. Os ambientes do Tribunal estão decorados com motivos natalinos.

A notícia foi veiculada sem que o Tribunal fosse ouvido a respeito.

Na edição de hoje, a Folha de São Paulo publicou matéria assinada pelos jornalistas Andreza Matais e Felipe Seligman, segundo a qual o Presidente proibiu, no âmbito do Superior Tribunal de Justiça, o uso de “sandálias tipo gladiador” e também de “calças jeans”. A reportagem desce a detalhes, tais como o de que “duas cartolinas com fotos dos modelos reprovados e autorizados estão numa das entradas da corte”. Notícia falsa. Apenas está proibido o uso de chinelos “tipo havaianas”.

Nesse caso, a notícia foi divulgada sem que seus autores tivessem o cuidado de ler o ato normativo que dispõe sobre a vestimenta de servidores e visitantes nas dependências do Superior Tribunal de Justiça – acessível no site deste ou mediante simples consulta no Google.

Ari Pargendler
Presidente do Superior Tribunal de Justiça
Com informações da Assessoria de Imprensa do STJ.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

A volta para casa do Pai

Mirian Macedo
O texto-depoimento abaixo é de autoria da jornalista Mirian Macedo, no qual ela relata as antigas atividades ligadas à esquerda e seu retorno à casa do Pai, à Igreja Católica. Está publicado no seu blog com o título A VOLTA PARA CASA. 


A VOLTA PARA CASA 
Criei coragem e vou contar como foi a minha volta para a Casa do Pai depois de quase quarenta anos distante de Deus. Na verdade, eu já tinha pensado em escrever relatando a minha conversão. Depois, desisti. Achei acesso - ou excesso - de vaidade, jornalista gosta de contar a história dos outros. Mas ao ler outros relatos, comoventes, considerei avareza não repartir a minha história.

Peço generosidade e compreensão pelo meu desajeito no trato dos assuntos de Deus. Tantos anos sem rezar fez com que o coração desaprendesse a delicadeza e a reverência necessárias quando falamos das coisas divinas. O cérebro, então, mais frio e prático, só vai aprender a ser doce com o tempo. Mas não posso falar mal da razão: foi também ela que devolveu-me à fé. Eu sou assim, preciso compreender, sem lacunas, "redondo", como se diz no jargão jornalístico. Só seduzem-me e convencem as grandes elaborações, os pensamentos sofisticados. O Mestre ordenou: "Ide e ensinai". Eu confesso: sou aprendiz.

Comecei a fugir, devagarinho, da Igreja quando tinha 14 ou 15 anos. Em casa, meu pai, afastado da Igreja, nada falou. Minha mãe, católica praticante, não gostou, mas não admoestou; depois, se conformou. Menina inteligente, estudiosa, longe de ser rebelde sem causa, cometi esta rebeldia porque era moderno. No final dos anos 60 e início dos 70, o mundo estava de cabeça para baixo.

Eu morava em Brasília, e de lá assisti a guerra do Vietnã, festival de Woodstok, maio de 68 na França, morte de Guevara, Beatles, AI-5, primavera de Praga, Tropicália, festivais. Neste admirável mundo novo, soava velha esta história de Deus e pecado. Religião só se fosse a de Dom Hélder Câmara. Abaixo as carolas marchadeiras!

Em 72, eu passei no vestibular para jornalismo na Universidade de Brasília; em julho daquele mesmo ano, saí de casa para morar numa república de estudantes. O ambiente da universidade era muito politizado, éramos todos comunistas. Tanto é que, em junho de 73, passei 11 dias no DOI-CODI, entre capuz na cabeça, interrogatórios intermináveis, ameaça (não consumada) de choque elétrico, muito medo e pouco heroísmo.

Quando saí, como boa comunista, menti e exagerei, recheando o relato da experiência com palavras fortes - 'gritos assombrosos', 'noites aterrorizantes', 'tortura desumana'. Tudo lorota.

Depois que saí da cana é que eu soube o que eu era e onde eu estava metida: era militante e integrava uma célula da Ação Popular Marxista-Leninista do PC do B, linha maoísta, o mesmo pessoal que fazia a Guerrilha do Araguaia, a turma de José Genoíno e de Honestino Guimarães, da UNE.

Eu tinha quase 20 anos e já estava incumbida de trabalho de aliciamento e conscientização em áreas operárias na periferia de Brasília. Faltou pouco para eu 'cair' fazendo um trabalho deste. As pessoas que me aliciaram e dirigiam a célula a que eu pertencia eram 'putas velhas', como jornalistas se referem aos mais velhos e experientes da profissão. Eles sabiam que eu era 'inocente útil', que eu não tinha a menor idéia do perigo que corria. Ormai, ero carne bruciata.)
Naquela época, Marx explicava tudo: as razões da opressão e o caminho para a libertação. E lá ia eu, vigiada pelos "ômi", assistir às palestras de Dom Pedro Casaldáliga e Dom Tomás Balduíno. A religião era o ópio do povo, mas aqueles eram padres dos bons. Não porque eram padres, mas porque eram comunistas, graças a Deus!

Mas nem só de pão vive o homem. Eu queria também Paz e Amor. Amor. Livre, claro. Para libertar nossos corpos e nossas mentes, a fórmula era conhecida: sexo, droga, rock'n roll e outros ritmos musicais alternados ou simultâneos.

Tínhamos quase tudo: o som, o fuzil e a maconha. Mas faltava o algo mais, a espiritualidade. E, assim, num fiat lux cósmico, o raio da Nova Era iluminou a nossa existência. E foi um sem-fim de yin, yang, ioga, prana, sutra, maia e karma.O cardápio podia variar, mas era sempre uma combinação de certos ingredientes: um prato de arroz integral com gergelim, um baseado, sair para dançar, ir para cama com mais um ou qualquer um e cumprir o dever revolucionário de derrubar o governo.

Quando me senti no fundo do poço e tudo ia mal - trabalho, convivência com a família, saúde etc - eu disse 'basta, vou mudar'. Mudei. Parei de beber, de fazer sexo, recolhi-me. Mas, no lugar de voltar para Deus, fui para o analista. Da parte espiritual cuidava a macrobiótica, a que me submeti rigorosamente por sete anos.

Ela era suficiente para dar-me Discernimento Superior e harmonizar-me com a Ordem da Natureza. E a "macrô" ainda trazia a vantagem de reforçar a análise dialética e materialista da realidade: afinal yin-yang podia ser traduzido como capital-trabalho ou burguesia-proletariado. Perfeito!

Eu estava com 27 anos quando, no carnaval de 1981, reencontrei em São Paulo um jovem engenheiro paulista (ex-católico, como eu) com quem eu tinha tido um "flerte" tempos antes. Neste reencontro, nós decidimos, em cinco dias, nos casar, completamente apaixonados. Transferí-me de Brasília para São Paulo e passamos a viver juntos. Sem papel e sem padre. Era um casamento moderno, baseado no princípio do prazer e na superação de resquícios da moral pequeno-burguesa.

Como natureba, meu método de controle de natalidade era tabela e período de fertilidade. Falhou, claro, porque o desejo era maior que a preocupação com uma possível gravidez. Para mim, aquela não era a hora de ser mãe, eu achava que o relacionamento estava começando e nós podíamos ainda nos divertir muito antes de pensar em filhos. E, afinal, eu era dona do meu corpo. Quanto àquela vida, ela se resumia a um conjunto de células indiferenciadas, sem consciência ou personalidade. A ciência nos garantia isto e 'nossos corpos nos pertenciam', era o lema da liber(t)ação feminista.

Na terceira gravidez, resolvemos assumir e nos casamos, só no civil. Quando meu filho nasceu, troquei as laudas pelas fraldas. Para cuidar dele, larguei uma glamurosa e promissora carreira de jornalista que eu havia retomado em São Paulo com brilhantismo, depois de ter saído daquele fundo de poço e me casado.

Mas Deus continuava fora. Tanto é que não batizei meu filho. A mesma decisão foi mantida com as minhas duas filhas.
Diante da insistência da minha mãe, pedi que ela mesma os batizasse. Quando tinha quatro anos, meu filho me perguntou quem era Deus. Respondi-lhe: "É o chefe do Bem".

Eu penso que acabei de certa maneira criando meus filhos no espírito de que falou João Paulo II. Eu não acreditava em Deus mas vivia (quase) como se Ele existisse. Só que, em vez de religião, ética.

A crítica era à Igreja, e a visão era marxista: "ópio do povo, instrumento de opressão das classes favorecidas, ideologia mantenedora dos privilégios de classe, aliada do capital na escravização do povo" e outros blá blá blás.

Como me distanciei da Igreja ainda adolescente, fui aos poucos desaprendendo o que sabia da vida de Jesus Cristo e da doutrina da Igreja Católica. A ponte mais próxima com a religião era a minha mãe, mas eu não encontrava nela qualquer desafio às minhas heresias e incredulidades.

(Apesar de crer incondicionalmente, minha mãe não se interessa muito em conhecer mais profundamente a doutrina cristã, diz que a Seicho-no-iê a tornou melhor católica, gosta da Igreja "alegre e moderna" da Canção Nova e acha que o Padre Marcelo presta serviço a Deus).

E para meu azar, a religião desandou numa breguice só quando neo-evangélicos, adeptos da Teologia da Prosperidade, infestaram o mundo e a televisão com aquela enxurrada de gente dando testemunho de que tinha aceitado Jesus no coração. Onde quer que eu pusesse os olhos, lá estavam as frases "Cristo salva", "Deus é fiel" e "Jesus te ama".

O pior é que Igreja Católica, que sempre foi um reduto de decência, achou de se modernizar com o surgimento da Renovação Carismática e começou a trocar os slogans revolucionários da Teologia da Libertação - do prisioneiro político Jesus de Nazaré dos freis Boffs e Bettos - pelos apelos do "Deus é 10 e o CD é 15".

Quanto ao Papa Woytila, eu valorizava a sua ação política em favor dos pobres, mas achava-o retrógrado e cheio de moralismos antigos, principalmente nas questões sexuais. Já que a religião andava assim, eu preferia continuar sem transcendências, mas -pelo menos - com um pouco de elegância e sofisticação intelectuais.

E logo descobri o que havia de mais avançado no pensamento de esquerda no mundo: o grupo marxista alemão Krisis, liderado pelo ensaísta Robert Kurz. Este grupo, herdeiro da Escola de Frankfurt e adepto da Teoria Crítica, fundamenta a sua análise nos conceitos de forma-mercadoria e trabalho abstrato.

O pulo do gato, entretanto, era outro: ao fazer a crítica radical do sistema mundial produtor de mercadorias, Kurz e seus discípulos conseguiram realizar um verdadeiro milagre: provar que Marx estava errado e certo ao mesmo tempo!

Segundo Krisis, já não era a luta de classes que movia a História, como pregava o Marx jovem, mas as relações fetichistas, como concluía o Marx velho. Isto é que era revolução. Marx está morto, viva Marx!

Os novos críticos apontavam o defeito iluminista de Marx em crer que a Razão faria surgir o Homem Novo. Em vez disso, o homem se tornara cada vez mais alienado, egoísta e violento, mesmo quando melhoravam as condições materiais objetivas de sua existência. Estavam aí os Estados Unidos que não os deixavam mentir.

Logo - concluíam os marxistas anti-marxistas - a solução dos problemas da humanidade teria de passar pela superação do próprio Iluminismo e sua racionalidade; de fato, o capitalismo é a mais exemplar expressão da racionalidade, o que mais se fala no capitalismo é de racionalização. A saída: mudar a Razão Pura em Razão Sensível, seja lá o que isto for. Como fazer a mudança, o grupo Krisis até hoje não descobriu. Ou seja: ninguém sabe.

O meu desencanto com o marxismo foi acontecendo naturalmente. Um dia, lendo um texto do filósofo, historiador e cientista político alemão radicado nos Estados Unidos, Eric Voegelin, convenci-me de que o marxismo carecia completamente de fundamentação filosófica que o sustentasse. Esta certeza se consolidou com a leitura de análises sobre a obra de Marx, principalmente a Teoria da Mais-Valia, feitas pelo economista austríaco e Ministro das Finanças, Eugen Bohm-Bawerk, no final do sec. XIX.

Depois, era só ver em que tinha dado o tal do "mundo comunista". Sempre me martelava na cabeça a observação do jornalista Paulo Francis de que a Revolução Russa não podia mesmo ter dado certo. Afinal, tinha começado matando crianças - os filhos do Czar Nicolai. Engraçado é que nada me fazia imaginar que eu já estava trilhando o caminho de volta a Deus. Certo dia, me caiu nas mãos um livro de um "erudito" judeu, chamado Zecharia Sitchin, que se apresentava como expert em arqueologia, História e línguas antigas (hebraico, sumério, acádio etc). Ele afirmava que as tábuas de argila encontradas na Mesopotâmia, há seis mil anos, não eram mitos, mas relatos factuais da vinda de extraterrestres de um planeta de nome Nibiru.

Estes ETs, chamados de anunakis pelos sumérios, eram os Nefilim da Bíblia. A tradução de "caídos" era errônea: Nefilim queria dizer "os que desceram do Céu para a Terra" ou, mais precisamente, "os homens dos foguetes ou das naves espaciais". Eles teriam colonizado a Terra há 500 mil anos, criado o Homem por manipulação genética.

A palavra Elohim, escrita no plural no Gênesis, provava que Deus eram "deuses. Estes, depois de criarem o homem pela fecundação de um óvulo de mulher-macaco e o sêmem de um "deus" anunaki, deram a civilização à raça humana. Voltariam nos próximos anos, completando mais uma órbita de 3600 anos em volta do Sol.

A teoria era absolutamente ousada e desconcertante. Sitchin sugeria que uma Onipotência Universal poderia até existir, mas os que vieram à Terra foram chamados Deus e Anjos equivocadamente. Quem falou a Abraão e a Moisés foram estes viajantes de naves espaciais vindos de Nibiru.

Eu pensava comigo: 'então, eu posso estar certa e a religião errada; o que nós chamamos de Deus pode ser apenas um extraterrestre'. Resumindo: não havia nem metafísica nem transcendência.

Não que histórias de ETs me arrebatassem, mas - caramba - eu também tinha lido o livro "Eram os Deuses Astronautas" na adolescência! As evidências intrigantes, as "qualificações" do autor - que incluíam até a de consultor da Nasa - e as numerosas citações de fontes acadêmicas reconhecidas (Samuel Noah Kramer, para citar só um) acabaram levando-me a ler todos os livros de Sitchin, além de muitos outros sobre pré-história, Mesopotâmia, sumérios, babilônios, assírios, caldeus, egípcios, mitologia grega e hindu, religiões antigas etc etc.

Aproveitei esta história de ET e anunaki para ler ainda, sem qualquer critério, tudo o que encontrei na Internet sobre ufologia, esoterismo, Fraternidade Branca, espiritismo, religiões orientais, calendário maia, teosofia e um sem-fim de assuntos místicos e esotéricos.

Não foi difícil, com o volume de informação que reuni, refutar completamente a teoria maluca dos anunakis. Não tinha sido, afinal, perda de tempo, pois aprendi muito. E mais: trechos do Antigo Testamento, citados por Sitchin, começaram a me fazer pensar. Eu jamais tinha lido a Bíblia e passei a me interessar e ler sobre assunto.

Foi, então, que um amigo emprestou-me um livro de Rudolf Steiner, de quem eu sabia apenas que era o criador das escolas Waldorf e da Antroposofia. Lembro-me que, à época, o Papa João Paulo II já estava muito doente e falava-se abertamente que ele não duraria muito.

Eu, de minha parte, mantinha o espírito crítico de velha marxista e teimava em ver a Igreja e o Papa sob o ângulo político, apontando o interesse da instituição em tirar proveito daquele martírio, transformando-o num espetáculo midiático.

Como eu nunca tinha lido qualquer livro de Antroposofia, estranhei a observação deste amigo de que, para Steiner, o caminho era o Cristo. Era verdade, o autor mostrava Jesus Cristo como a maior dimensão de amor que se podia imaginar. Steiner considerava o Cristo como alguém absolutamente fundamental para a evolução espiritual do homem, o próprio Deus encarnado. Espantava-me a minha igorância sobre este Ser tão inigualável e me perguntava como é que eu nada sabia sobre Ele. E fui devorando os livros de Steiner.

Para explicar a encarnação de Jesus Cristo, Steiner monta uma sofisticadíssima teoria que remonta à Atlântida, passa por Zaratustra, faz conexão com Hermes no Egito, engloba Moisés, Abrãao, essênios, budismo, Krishna , dois Jesus, duas Marias, dois Josés até chegar ao Mistério do Gólgota. De quebra, faz uma leitura dos Evangelhos como o mais puro e pedagógico manual de iniciação.

Ou seja: a Palavra de Deus não é mais que sabedoria oculta. Miraculosamente, cada palavra dos Evangelhos corresponde a um símbolo com significado na escrita esotérica e na sabedoria dos mistérios. Para entender Steiner, comprei a Bíblia de Jerusalém e, pela primeira vez, li os quatro Evangelhos e o Apocalipse. Steiner escreveu um livro intitulado O Quinto Evangelho (sic).

Mesmo sendo muito fabuloso e surpreendente, Steiner parecia consistente, lógico, sofisticado e verdadeiro. Cheguei até a pensar - na minha ignorância e que Deus me perdoe - que a Igreja Católica sabia de tudo, mas não o podia revelar, pois ainda não tinha chegado a hora, o homem ainda precisaria evoluir mais para compreender esta nova revelaçao.

De repente, me deu um estalo e eu pensei: cè qualcosa que non va. É que, para Steiner, Cristo é Deus mas também é uma entidade, um guia da evolução do homem; e Sua passagem pela Terra O teria ajudado a evoluir. Aí, eu achei demais: "Evolução, cara-pálida? Mas Ele é Deus! E Deus evolui?!"

É claro que não foi só a minha 'exuberante e prodigiosa' capacidade intelectual que me fez compreender quem era verdadeiramente Jesus Cristo. Foi o coração que compreendeu, foi o Espírito Santo que agiu. Santo Agostinho, repetindo o salmista, escreveu " Com certeza, louvarão o Senhor os que o buscam, porque os que o buscam o encontram".

Quando ficou claro para mim que Steiner era uma grande bazófia, lembrei-me do Pequeno Príncipe, de Saint-Exupéry, que dizia ser a linguagem uma fonte de mal-entendidos. E é verdade. Muito do que nos confunde nestes livros esotéricos são as expressões "mundos espirituais", "esferas superiores", "dimensões supra-sensíveis".

Automaticamente, nós relacionamos estes termos às coisas de Deus e dos anjos. Mas, na verdade, este é apenas o outro lado do mundo físico, sensorial e, neste outro mundo, também vivem os espíritos que "non provengono da Dio, nonostante venga utilizzato quasi sempre un linguaggio damore e di luce" ('espíritos que não procedem de Deus, ainda que seja utilizada quase sempre uma linguagem de amor e de luz'), nas palavras de um texto do Vaticano.

E foi assim que, através de uma heresia gnóstica como a Antroposofia, eu acabei sendo levada a redescobrir Deus!

Completamente apaixonada por Jesus Cristo, eu quis conhecê-lo. Precisava compreender para crer e crer para compreender. Para isto, fui atrás Dele no lugar certo: a Igreja Católica. Escrevi, brincando, num email para meus irmãos:
"Não adianta: quem entende de Deus e Jesus Cristo é a Igreja Católica. É perda de tempo ficar lendo steiners, sitchins e blavatskis. Melhor bater na porta da firma que tem o direito de texto e imagem e é proprietária da logomarca dos dois. Afinal de contas, a empresa existe há dois mil anos, sem fechar as portas um dia sequer!" A primeira providência foi ler inteiro o documento 'Dominus Iesus'. Lá estava a confirmação da fé.

Pode parecer, contando assim, que acreditar em Deus, para mim, é mero exercício intelectual. Mas o coração sabe que não é. Mesmo quando ainda não tinha voltado a crer, eu gostava sempre de repetir uma frase que ouvi de Leonel Brizola, quando lhe perguntaram, certa vez, se acreditava em Deus. Ele respondeu que era arrogância não acreditar em Deus. Hoje, penso que, se não temos a pureza de coração para simplesmente crer, a razão acabará por nos levar inexoravelmente à Verdade.

Como me parece hoje absurdo não crer! Para mim, é impossível alguém conhecer a Verdade e não se deixar comover pelo amor de Deus por sua criatura nem se maravilhar com a perfeição e sabedoria do plano divino! Como pude viver tanto tempo sem a amizade de Deus!

Acho que o momento definitivo da minha volta para Deus foi aquele em que ouvi pela televisão o anúncio da morte do Papa Woytila; profundamente comovida e chorando, disse para o meu marido: "Este homem está há 25 anos tomando conta de nós". Falo sempre que a minha conversão foi o último milagre de João Paulo II.

Ainda durante o conclave, comecei a conhecer o pensamento e a atuação do cardeal Ratzinger, e torci para que ele fosse o novo Papa. Nunca vou esquecer as suas primeiras palavras já escolhido para ser o sucessor de Pedro: "sono un umile lavoratore della vigna del Signore"('sou um humilde trabalhador da vinha do Senhor').

São Bento será, com certeza, o meu santo protetor, pois, além de ser o nome do novo papa, a minha primeira confissão e comunhão, depois de quase 40 anos de escuridão, eu fiz na Paróquia São Bento do Morumbi, onde moro. Que Deus ajude o Papa Bento XVI a recuperar a Igreja eterna que tantas deformações tem sofrido nos últimos anos. Que minha família O (re)encontre e que Ele nos abençõe a todos.

*Este texto integral foi publicado, pela primeira vez, no site católico Associação Cultural Montfort, em outubro de 2005. Mais tarde, eu o reescrevi recompondo a verdade.


Autora: Mirian Macedo, jornalista.  Fonte: Blog de Mirian Macedo